Mauricio Pochettino é um nome comumente especulado nos maiores clubes da Europa que ficam sem treinador. O trabalho à frente do Tottenham referenda o argentino e o torna sempre um dos mais fortes candidatos a qualquer equipe – menos no Barcelona. O passado como jogador e como treinador do Espanyol são um empecilho, como o próprio técnico deu a entender em outras entrevistas. No passado, Pochettino já declarou que preferiria “trabalhar numa fazenda a assumir o Barça”. Hoje admite que a fala soou exagerada, mas reafirmou que não mudaria seus valores para comandar os blaugranas.

“Dizem muitas coisas e depois tiram de contexto. Sempre falei que me une um laço muito forte com o Espanyol, estive aí por quase 17 anos. Acho que as declarações anteriores deixaram os torcedores do Barcelona relutantes em me aceitar, mas em nenhum momento recebi uma oferta para dirigir o Barça. Eu me equivoquei na forma como transmiti que seria impossível dirigir o Barcelona no futuro. Fui um pouco exagerado por não querer deixar nem um pingo de dúvidas quando se dispararam os rumores sobre a saída de Luis Enrique. Todo mundo que me conhece sabe que, pelo meu passado e por um montão de coisas, seria difícil relacionar meu nome com o clube. Há coisas que não podem se juntar”, contou, em entrevista ao programa 90 minutos, do Fox Sports na Argentina.

“Não é uma questão de capacidade. Eu creio que passei muitos anos em Barcelona, meus filhos também. Eu sou uma pessoa do mundo, que fiz carreira no Espanyol, e sofri por enfrentar o Barcelona com essa equipe. Você vive muitíssimas coisas, ao nível pessoal e familiar, é um pouco desses valores pelos quais se rege e transmite. Admiro o Barcelona, Messi, Guardiola, Cruyff, mas eu me rejo com uma série de valores como ser humano que faria muito difícil ter que defender a camisa do Barcelona. O futebol é feito de emoções”, complementou.

Em outros assuntos, Pochettino falou sobre a sua saída do Tottenham. Reiterou seu respeito pelo clube e preferiu não apontar culpados dentro dos Spurs. Entretanto, indicou como faltou um título para engrandecer mais sua passagem por Londres.

“As relações se rompem por responsabilidade das duas partes. Não creio que há culpados. Nós, técnicos, sobrevivemos ganhando partidas. Durante cinco anos e meio brigamos por um objetivo claro que era ganhar e cumprir com certos parâmetros econômicos para dar viabilidade ao clube. Hoje eles têm um dos estádios mais bonitos. Eu queria a glória, ganhar um título, mas nos faltou um pontinho”, analisou.

Pochettino, aliás, não descarta um trabalho na seleção argentina. Apesar do respeito a Lionel Scaloni, admitiu que abraçaria uma oportunidade se assim surgisse: “O futuro não está em minhas mãos, mas a seleção é a glória. Ganhar algo com a Argentina deve ser um sentimento difícil de replicar. Ser campeão do mundo está no nível do nascimento de um filho. Mas temos outros grandes treinadores argentinos que podem chegar lá – Cholo Simeone, que admiro muitíssimo, ou mesmo Gallardo. Depende da trajetória que você pode ter para receber essa oferta tão grande que é a seleção”.

Pochettino falou sobre Lionel Messi e o desafio do compatriota, ao deixar o Barcelona: “Messi está capacitado para jogar em qualquer lugar e ser o melhor. A capacidade de Messi e dos grandes talentos é a adaptação. Que esteja há 20 meses em Barcelona, onde há 11 meses de sol, e vá a Manchester, onde chove durante 11 meses, é algo para o qual precisa estar preparado, porque não é o mesmo. Na Inglaterra há mais contato físico, dão mais continuidade ao jogo. Isso dá atrativos à Premier League. Todas essas coisas são um desafio bonito para que Messi assuma. Mas não temos que adentrar em algo que não se sabe se vai passar”.

Voltando à Premier League, Pochettino relembrou sua relação com Marcelo Bielsa, de quem foi jogador ainda no início da carreira pelo Newell’s Old Boys: “Eu sempre digo que não sou discípulo de Bielsa. Muitos me rotulam assim, mas não sou. É muito difícil imitar o que Marcelo transmite às suas equipes. Ele serve como fonte de inspiração a todos. Colocou essa sementinha de nos interessarmos pelo jogo e temos sido todos animais de querer sair a ganhar, ser competitivos. Foi um grande inovador e nos fez pensar de uma forma diferente”.

E o argentino preferiu evitar paralelos entre o trabalho de Bielsa e o que Pep Guardiola aplica em suas equipes: “Vejo poucas coisas similares entre Bielsa e Guardiola, creio que há uma admiração mútua, mas é algo humano. Não encontro similaridades entre aquilo que propõem. Está claro que precisaria ver Marcelo no Barcelona com Messi, Xavi e Iniesta, Guardiola na Championship com o Leeds. É verdade que o Guardiola do City é diferente do Barcelona, é mais rígido. É difícil de ver, não quero ser injusto e dizer que não coincidem em nada”.

Por fim, Pochettino dedicou belas palavras ao seu entendimento sobre o que é o futebol: “Creio que estamos no futebol para ganhar. Sempre digo aos jogadores que somos os guardiões de preservar o que é o futebol como essência. Temos que protegê-lo. Eu dizia que o futebol não é um negócio comum. Não é o mesmo negócio de uma empresa. Há coisas que tenho que estar de acordo porque sou parte deste negócio e tenho claro que o sustento econômico é necessário para que tudo continue”.

“Entendo que há muita gente que vive ao redor do futebol, que gera um sustento tão grande… Mas, para mim, o futebol nasce para competir e ganhar. Eu jogo por orgulho, não por dinheiro. A sensação de ganhar é maior que qualquer tipo de remuneração. Todos os que chegamos a este nível somos ganhadores, depois há circunstâncias que fazem que só um ganhe. O futebol é completamente diferente de outros esportes, por isso move o que move. Há coisas que não podem ser compreendidas”, arrematou.