Sem a pressão de treinar times de futebol, com uma poderosa barba grisalha cultivada na quarentena, Mauricio Pochettino é um bom papo. E não costuma ter muitas papas na língua. Em entrevista ao Guardian, lembrou, por exemplo, de ter brincado com o presidente do Tottenham, Daniel Levy, que fora escolhido em 2014 para assumir o clube somente porque o técnico que ele queria, Louis van Gaal, havia ido ao Manchester United. Também brincou com a ironia do destino que foi ser substituído por José Mourinho.

Isso porque, quando ambos treinavam na Espanha, era forte a especulação de que o então treinador do Espanyol seria o substituto de Mourinho no Real Madrid. Questionado sobre isso em uma entrevista coletiva antes de um confronto contra os merengues, disse que achava difícil trocar de clube porque seus filhos dormiam com pijamas do clube catalão.

E aí Mourinho esbanjou senso de humor e recebeu Pochettino no Bernabéu com presentes. “Era uma ótima garrafa de vinho tinto e dois uniformes do Real Madrid. José disse: ‘ok, esses são para seus filhos usarem a partir de agora’. Mantivemos uma boa relação desde então então estou feliz que ele esteja no Tottenham, me substituindo. Estou feliz também por ter deixado o clube na condição em que o deixamos e tenho certeza que ele é grato pela maneira como ajudamos a construir o clube, que agora é dele”, disse.

“Sempre pensei que eu o substituiria. Ele estava no Real Madrid e eu diza ‘talvez um dia eu fique no lugar dele no Real Madrid’, mas veja como a vida funciona. Ele pegou o meu lugar no Tottenham. Incrível, não?”,  completou.

Outra anedota compartilhada por Pochettino foi quando decidiu tomar um café com Unai Emery, ex-treinador do Arsenal, maior rival do Tottenham, em um café no norte de Londres, onde moram os dois clubes.

“Antes da pandemia, eu e Jesús (Pérez, seu assistente técnico) nos encontramos com Unai em um café, para conversar e trocar experiências. Trabalhamos em clubes diferentes, éramos inimigos e as pessoas passavam dizendo ‘Unai, Pochettino e Jesús estão tomando um café! Foi muito engraçado”, lembrou.

O papo com Emery faz parte do que Pochettino vem fazendo desde que saiu do Tottenham, em novembro: uma auto-análise para voltar melhor do que nunca. Garante que já está com os tanques cheios.

“Tem sido incrível revisar e analisar tudo. As sessões de treinamento, os jogos, nossa metodologia, nosso modelos de treinamentos. Desenhar trabalhos específicos e coletivos. E, claro, tentar nos adaptar à nova normalidade, estar pronto para qualquer eventualidade, porque as exigências serão completamente diferentes (depois da pandemia). Estamos ansioso pelo nosso próximo trabalho. Futebol é muito dinâmico e você precisa estar pronto para o momento em que a proposta aparecer. Estamos prontos”, disse.

E, afina, qual será esse próximo projeto? “Estou muito aberto para ser seduzido por um projeto mais do que por um país. Depende do clube e, claro, das pessoas, da dimensão humana. Estamos tão abertos. Claro que amamos a Inglaterra e a Premier League. Ainda acho que a Premier League é a melhor liga do mundo. É uma das opções e, claro, pode ser minha prioridade, mas não estou fechado a mudar de país. No momento, minha ideia é ficar aqui, morar em Londres, eu e minha família. Será difícil (ir para outro país), mas não impossível”, acrescentou.

Pochettino disse que era necessário sair do Tottenham e não se arrepende de não tê-lo feito depois da final da Champions League, quando perdeu para o Liverpool em Madri, como havia dito que faria em caso de vitória.

“Eu sabia que depois de cinco anos no clube e com o jeito como trabalhávamos, tudo que aconteceu, seria difícil. Ficou um pouco em aberto a possibilidade de projetar outro plano ou estratégia, construir de novo, um diferente capítulo. Um projeto diferente seria difícil para nós, para continuar melhorando-o”, disse.

“Eu disse a Daniel que terminamos da maneira que ninguém queria, mas, no fim das contas, precisava acontecer. Se não, nossa relação continua para sempre! E talvez não fosse bom para o clube ou para nós. Quando a decisão veio, precisávamos seguir em frente. A decisão de nos contratar foi fantástica e quando a decisão não é boa para você, precisa respeitá-la. Daniel sempre será meu amigo. Todas as pessoas do clube serão”, completou.

Em seu próximo trabalho, Pochettino espera conquistar seu primeiro título como treinador. Citou Michael Jordan e Alex Ferguson que, por Chicago Bulls e Manchester United, demoraram sete anos até conquistaram seus primeiros campeonatos, para dizer que não se deveria medir a qualidade de um técnico apenas por troféus.

“Veja Ranieri. Ele venceu seu primeiro título, no Leicester, quando estava quase no fim da carreira (nota do editor: havia também ganhado uma Copa do Rei com o Valencia e uma Copa Itália com a Fiorentina, nos anos noventa). As pessoas podem dizer que ele não foi um técnico de sucesso, mas… O problema é que não somos uma comissão técnica que começou no Bayern de Munique. É completamente diferente de começar no Nüremberg, com todo o respeito ao Nüremberg”, disse.

“Se for assim, 90% dos técnicos do mundo são perdedores. Treinadores não estão pensando apenas em vencer títulos. Há muitas outras coisas. Você encontra motivação e capacidade de escolher o projeto certo. As pessoas podem medir pessoas de sucesso de maneiras diferentes”, encerrou.

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