Mauricio Pochettino é um dos grandes nomes que ocupam os bancos da Premier League. Com seu trabalho silencioso no Tottenham, daqueles que não estão sempre em evidência e não são sempre exaltados pelos críticos do futebol, mas bem-sucedido e prestigioso, o treinador argentino vem se consagrando na Inglaterra desde o grande reconhecimento que obteve ao comandar o Southampton. Claro que a federação argentina não é boba nem nada, apesar da crise pela qual passa, e logo pensou no técnico do Spurs para o lugar de Tata Martino quando este pediu demissão do cargo de treinador da seleção. A sondagem dos dirigentes, no entanto, não terminou em um acordo, e as últimas declarações dadas por Poch ao La Nación podem ter alguma ligação com esse desfecho.

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“Não vou à minha cidade natal [Murphy] desde o Natal de 2012. Desde então, não voltei mais para Santa Fe. E nem para a Argentina”, conta o treinador em entrevista exclusiva ao veículo argentino. “Se eu sinto falta de ir para lá? Que pergunta mais difícil. Não quero parecer que não sinto saudade. O que se passa é que vim em 1994 para a Europa com minha esposa grávida de dois meses, e desde então formei minha família aqui. Fizemos de Barcelona o nosso lugar do mundo”, revela também Pochettino, que jogou na zaga do Espanyol por muitos anos antes de comandar tecnicamente a equipe catalã. “Meus pais, irmãos, primos, tios vivem em Murphy. Mas quando me refiro a família, falo de minha mulher e meus filhos. Sempre passamos datas comemorativas, momentos difíceis e alegres juntos. Não significa que somos frios, apenas que somos diferentes em relação a isso”.

Óbvio que essas falas do argentino são focadas em sua vida pessoal, e esta, por sua vez, nada interferem em suas escolhas ou no que ele faz e deixa de fazer à beira do gramado. Mas as declarações mostram que não há tanta identificação assim entre o treinador e o país em que nasceu e cresceu, fato que concatena com o “não” de Pochettino para a Albiceleste antes de Edgardo Bauza assumir a seleção. Como ele mesmo fala, foi na Europa (em Barcelona, como ele especifica) em que ele construiu seus elos e foi os mantendo ao longo das mais de duas décadas em que mora lá.

Pochettino também confessou que não acompanha futebol argentino, justificando que “vê-lo é muito difícil porque as partidas não costumam ser transmitidas na Inglaterra, como acontecia na Espanha”. Mas disse ter “a mínima informação possível sobre o esporte lá na Argentina”, afirmando que como qualquer pessoa que gosta de futebol no país, eu dá uma olhada nos resultados, mas não assiste aos jogos. “Leio os jornais argentinos a cada três dias”, revela o técnico, que tem contrato com os Spurs até 2021 e que tem tudo para renová-lo por mais tempo, já que é quase consensual sua aceitação no Tottenham. Isso sem tocar na harmonia que há entre o treinador e o clube, formando quase que uma combinação perfeita.

Esse arranjo, porém, não surgiu de uma hora para outra. Ele é fruto de uma boa empreitada com um time tradicional, mas que levanta taças já há um bom tempo. Pochettino conta que quando parou de jogar bola, foi estudar a parte teórica do futebol para se tornar treinador. Mas isso não bastava. Afinal, os melhores técnicos são grandes estrategistas e têm uma visão aquém do esporte. São aqueles que sabem de fato dirigir grupos. São líderes, e não propriamente comandantes. “Quando somos jogadores nós achamos que sabemos tudo. Essa soberba nos faz ignorantes, e falo isso com respeito porque eu me sentia assim. Quando você joga, você acha que pode ser melhor técnico do que seu técnico. Mas depois chega a cruel realidade. Quando terminei de jogar, decidi me dedicar aos estudos”, declara Pochettino, que tem mestrado em Gestão de Negócios.

“Eu queria me comportar como um ‘garoto de beca’, como aqueles que vinham do Brasil, do México ou eram da Catalunha. Vivi um ano maravilhoso nesse tempo. Eu já não era mais um jogador de futebol. Tinha que ir às aulas, preparar trabalhos e estudar com gente normal. A relação com pessoas diferentes às que havia conhecido nos últimos 20 anos me ajudou muito a compreender melhor como funciona a sociedade”, disse ainda o argentino ao longo da entrevista. E isso não poderia fazer mais sentido.

Adepto a um estilo mais discreto de gerir equipes, Poch sabe bem o que fazer com seus atletas. Sejam eles veteranos ou jogadores com menos ou nenhuma experiência. Seu ótimo trabalho com jovens no Tottenham revela que treinar, no futebol, vai além de tática e trabalho físico. Afinal, ser técnico é sobre conduzir um grupo de jogadores de diferentes culturas, faixas etárias, com costumes distintos e características e estilos singulares a alcançarem um mesmo objetivo, uma mesma meta. Falando pode parecer fácil, mas quantos técnicos que sabiam muito sobre o jogo, que foram excelentes jogadores, não tiveram carreiras sem sucesso no banco de algumas equipes?