O presidente da Uefa, Michel Platini, confirmou os rumores sobre a sua candidatura à presidência da Fifa. Não é uma novidade. Há muito tempo se sabe que o plano do francês era chegar à presidência da entidade e, em parte, a rusga com Joseph Blatter se deve a isso. E apesar de ter recebido apoio imediato da Alemanha, uma das federações mais importantes da Europa, será preciso mais do que o aval de países europeus para vencer.

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“É uma decisão muito pessoal, cuidadosamente ponderada, que implicou uma avaliação do futuro do futebol e do meu próprio percurso. É igualmente a consequência das calorosas manifestações de estima, apoio e incentivo que muitos de vocês me demostraram”, diz um trecho da carta enviada pelo dirigente às 209 federações filiadas à Fifa.

Platini precisará de muito apoio e a DFB, a federação alemã, foi a primeira a declarar apoio depois da divulgação da candidatura do francês. “Como presidente da Uefa, ele mostrou que é capaz de liderar uma grande organização. Ele conhece o futebol de trás para frente e nunca perdeu a sua paixão pelo jogo. Também diz muito sobre ele que esteja disposto a assumir este desafio mesmo em tempos difíceis que nos encontramos. Há ainda obviamente algumas questões que não devemos ver olho por olho. Por exemplo, Michel Platini sabe que eu tenho uma posição diferente dele em relação a conceder a Copa do Mundo de 2022 ao Catar, mas isso não tem efeito no nosso bom relacionamento de trabalho e na admiração que temos um pelo outro”, disse Wolfgang Niersbach, presidente da DFB e que está no Comitê Executivo da Uefa e da Fifa.

A DFB é uma dfas federações que quer um candidato europeu à presidência – Blatter, embora suíço e, portanto, europeu, não é visto assim pela forma que fez política, herdada de João Havelange. A DFB diz que dará apoio total à candidatura do atual presidente da Uefa, que teve apoio unânime em toda diretoria da entidade. “Michel Platini não pode atingir os objetivos nas reformas necessárias para a Fifa em um período tão curto fazendo tudo sozinho. Eu alegremente irei apoiá-lo no Comitê executivo da melhor forma que puder”, afirmou Niersbach.

O detalhe é que o alemão é considerado o favorito para suceder Platini na Uefa, caso ele se eleja presidente da Fifa e precise deixar o cargo na confederação europeia. Claro que este é um motivador importante para Niersbach, que passaria a ter um aliado na Fifa, além de assumir o comando da sua confederação local.

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A necessidade de ir além da Europa

O apoio da Federação Alemã é importante, mas Platini precisará mesmo trabalhar para apoios fora da Europa. Segundo uma matéria do Guardian, o francês já conseguiu apoio em quatro das seis confederações continentais, incluindo Europa, Ásia, Concacaf e América do Sul. A África, um dos continentes onde Platini ainda não tem apoio, é uma das que mais tem países filiados e precisará ser tratada com carinho pelo dirigente, ainda mais com a especulação que um africano deve se candidatar a sucessor de Blatter.

No domingo, dia 19, durante reunião da Fifa em Zurique, Platini conversou com dirigentes de outras partes do mundo, como o presidente da Confederação Asiática de Futebol (AFC), Salman bin Ebrahimal-Khalifa, e também com Ahmad al-Fahad al-Sabah, do Kuwait, com quem tem boas relações. A ida de Al-Fahad Al-Sabah para o Comitê Executivo da Fifa é visto como um movimento de olho na presidência da Fifa, mas 2016 seria muito cedo. É mais provável que ele apoie Platini pelas boas relações que tem com o ex-jogador e como forma de conquistar também um apoio para uma futura candidatura.

Tanto Salman quanto Al-Sabah podem ser muito importantes na campanha para conseguir votos na Ásia. O jornal britânico fala sobre a importância de al-Sabah, uma figura de destaque do Comitê Olímpico Internacional (COI) e que, junto com Salman, pode conseguir 46 votos a Platini no continente.

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Concorrência

É bem provável que mais candidatos à presidência da Fifa apareçam até a data limite para inscrições. Um dos motivos é que muitos países temem que a Europa volte ao poder como era antes de Havelange, com muito mais peso que os demais e com uma gestão eurocêntrica. O grande desafio de Platini – e de qualquer candidato europeu – será mostrar que esse não é um risco. Mas a concorrência deve aproveitar o fato de Platini ser europeu para tratá-lo como mais do mesmo. O francês de fato tem muitos esqueletos no armário, mas o seu problema não parece ser a relação com países pequenos. Na verdade, ele foi constantemente acusado de fazer política em benefício dos países menores para ganhar votos – uma crítica nem sempre justa, diga-se. Mas é algo que o atual presidente da Uefa terá que lidar. E um dos seus adversários já começou a atacá-lo.

O príncipe Ali bin al-Hussein, que foi o candidato único derrotado por Blatter na eleição da Fifa, foi o primeiro a se manifestar contra Platini. Curiosamente, o francês o apoio contra Blatter na eleição. “Platini não é bom para a Fifa”, afirmou o presidente da Federação da Jordânia, que também é membro do Comitê Executivo da Fifa e se anunciou candidato novamente assim que Blatter convocou eleições.

“Os torcedores de futebol e jogadores merecem mais. A Fifa está envolvida em um escândalo. Temos que parar de fazer as coisas como de costume. A prática de bastidores, de negócios feitos embaixo da mesa, precisa acabar”, continuou ainda o jordaniano. “O que está claro é que a Fifa precisa de uma liderança nova, independente, que não esteja manchada pelas práticas do passado”, declarou Hussein, que teve 73 votos na eleição contra 133 de Blatter na primeira rodada de votação – ele se retirou da disputa na segunda.

Além de al-Hussein, Platini pode ter a concorrência de outro asiático: o sul-coreano Chung Mong-joon, ex-vice-presidente da Fifa. O problema é que a sua relação com o atual presidente da AFC não é bom. Ele foi substituído justamente por Ali bin al-Hussein como vice-presidente da Fifa pela Ásia.

Zico pediu a indicação da CBF para concorrer, mas é improvável que consiga. O ex-jogador brasileiro precisaria de cinco indicações de federações para ser efetivado como candidato – além da experiência dentro do futebol, que ele tem. Há ainda especulações sobre um candidato africano, mas nenhum se colocou nesta posição ainda.

Vale lembrar que nos 11 anos de história da Fifa, só uma vez o presidente não foi europeu, quando João Havelange assumiu o cargo em 1974 e ficou até 1998. Se eleito, Platini seria o terceiro francês a ocupar o cargo. O primeiro presidente da Fifa, e seu fundador, era francês, Robert Guerin, que ficou no posto entre 1904 e 1906. Depois, o lendário Jules Rimet também ocupou a cadeira da presidência entre 1921 e 1954.

Os candidatos terão até o dia 26 de outubro para apresentar a sua candidatura à presidência da Fifa. A eleição será no dia 26 de fevereiro de 2016, em Zurique, no Congresso Extraordinário convocado pela entidade. Um ano importante para Platini na Uefa por ser também da Eurocopa na França, seu país de origem.