O ex-presidente da Uefa, Michel Platini, foi formalmente colocado sob investigação na Suíça por um pagamento de US$ 2 milhões recebido da Fifa, em 2011. O francês é suspeito de ser cúmplice de má gestão criminosa, apropriação indébita e falsificação, segundo documento obtido pela Associated Press.

Os promotores federais da Suíça estenderam suas investigações criminais para saber o papel do então presidente da Fifa, Joseph Blatter, no pagamento a Platini. A investigação mostra que o dirigente francês enviou faturas para a Fifa em janeiro de 2011 para pagamentos pelo tempo que trabalhou como consultor presidencial no primeiro mandato de Blatter na Fifa, de 1998 a 2002. Ele recebeu o pagamento no mês seguinte.

Platini e Blatter foram banidos do futebol pela Fifa pelo pagamento, considerado irregular. Em 2011, Platini era cotado para substituir Blatter na presidência da Fifa, um cargo que o francês almejava. O então presidente da Uefa, porém, decidiu abdicar da disputa para apoiar Blatter. Há suspeitas que o pagamento feito em 2011 foi uma forma de suborno, algo que Platini e Blatter sempre negaram.

A primeira vez que a suspeita de irregularidade surgiu foi em setembro de 2015, em uma investigação dos procuradores suíços em relação a possíveis irregularidades cometidas por Blatter. O dirigente suíço estava sob forte escrutínio na justiça do seu país pelos atos na Fifa, que movimenta bilhões anualmente.

A Justiça da Suíça trabalhou em conjunto com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, o que culminou com o FBI fazendo uma operação no dia 27 de maio de 2015, em Zurique, antes do Congresso Anual da Fifa. Diversos dirigentes foram presos, entre eles pesos pesados do futebol, como Nicolás Leoz, Jack Warner e o brasileiro e ex-governador José Maria Marin – então presidente da CBF, condenado por corrupção e preso em Nova York, como outros dirigentes. Listamos os presos inicialmente neste texto, das primeiras horas daquele dia. Platini não estava entre os acusados.

O Fifagate, como ficou conhecida a investigação americana sobre a Fifa, continuou tendo consequências nos meses e anos a seguir. Blatter acabaria pressionado e investigado pela justiça do seu próprio país e abriria mão da presidência da Fifa ainda no final de 2015, meses depois de ter sido reeleito. Em 2016, Gianni Infantino venceu uma disputa acirrada pela presidência da Fifa.

Algumas medidas de reforma foram feitas, ainda que aquém do que se esperava, causaram consequências. Uma delas foi investigar o pagamento da Fifa a Platini. Isso faria a Fifa banir Blatter e Platini. Algo que o francês atribui a uma perseguição do seu ex-secretário-geral na Uefa, cargo que Infantino ocupou antes da presidência da Fifa.

Platini não aceitou a punição e recorreu ao Comitê de ética da Fifa, ao Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) e ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos, mas todos negaram o recurso do ex-presidente da Uefa. Embora não tenha conseguido reverter a punição esportiva que sofreu, Platini nunca tinha sido acusado formalmente pela Justiça da Suíça. O quadro muda agora que ele é oficialmente suspeito de ter cometido uma irregularidade.

A suspensão de Platini, que foi de quatro anos, acaba em outubro. Craque dos gramados e um dirigente bem-sucedido à frente da Uefa, ele planejava voltar ao esporte assim que o seu período de suspensão terminasse. A investigação da Justiça Suíça acontece quase dois anos depois das autoridades do país terem dito que ele foi inocentado de qualquer irregularidade.

O que mudou foi que um novo promotor entrou no caso em 2019 para investigar suspeitas de corrupção no futebol internacional, em procedimentos que começaram em 2014. Thomas Hildbrand é o promotor que aparece nos documentos vistos pela Associated Press que investigam Platini.

O promotor também estendeu as investigações criminais contra Blatter neste mês de junho por suspeita de má gestão pelo pagamento de US$ 1 milhão em um empréstimo à Federação de Trinidad e Tobago em 2010 – país de Jack Warner, então presidente da Concacaf. O pagamento é visto como um suborno do presidente da Fifa, já que o dinheiro foi emprestado sem qualquer condição para pagamento, sem juros e jamais foi devolvido.

Jack Warner é um dos indiciados no processo do Fifagate pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos por cinco crimes. Ele luta contra a extradição pedida pelos Estados Unidos e continua no seu país, Trinidad e Tobago. Warner, caso seja extraditado, será julgado em solo americano.

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