A demissão de Vadão era inevitável, caso a diretoria da CBF decidisse tratar a seleção brasileira feminina com um pouco de cuidado e não com o descaso que o levou a treiná-la durante tanto tempo. O incerto era o nome do seu sucessor, ou, de preferência, sucessora. Para nossa surpresa, a entidade brasileira teve uma boa ideia. A sueca Pia Sundhage, bicampeã olímpica, será a nova treinadora do Brasil.

Sundhage tem tudo que faltava a Vadão: experiência, contato profundo com a modalidade, currículo vencedor e uma vida inteira dedicada ao futebol feminino. Sempre lutando por melhorias, desde que começou a carreira como jogadora, ainda nos anos setenta, quando o esporte ainda engatinhava. Disputou a primeira Copa do Mundo, em 1991, e pendurou as chuteiras ao fim dos Jogos Olímpicos de Atlanta, os primeiros nos quais as mulheres puderam competir por medalha jogando bola.

O mosquito da prancheta a havia mordido quando defendia o Hammarby, em 1992, e se tornou jogadora/técnica do time sueco. Depois de alguns trabalhos como assistente, foi campeã da última edição da Women’s United Soccer Association, uma das muitas tentativas de formar uma liga feminina forte nos EUA, em 2003. Quando ela foi extinta, voltou à Escandinávia e depois auxiliou a compatriota Marika Domanski-Lyfors, comandante da China na Copa do Mundo de 2007.

O espírito olímpico permearia seu sucesso nessa nova profissão. Da comissão técnica chinesa, assumiu a seleção dos Estados Unidos, com a qual conquistou as medalhas de ouro em Pequim e Londres. O desafio seguinte foi com o time nacional do seu país. No Rio, a Suécia de Sundhage eliminou as americanas e as anfitriãs brasileiras no mata-mata, antes de perder a decisão para a Alemanha e ficar com a prata.

Essa experiência torna Sundhage um trunfo inestimável para a seleção brasileira no principal torneio do ano que vem, a Olimpíada de Tóquio, mas os benefícios podem ir além dos resultados esportivos. A profissional tem um olhar muito forte para a formação de jogadoras, aspecto especialmente importante para o Brasil no momento em que as principais referências do time estão envelhecendo e que as seleções de base, como o sub-17 e o sub-20, ainda não contam com uma comissão técnica.

Sem dúvida, a contratação da bicampeão olímpica tem o potencial de elevar o nível da seleção brasileira, caso ela tenha tempo e respaldo para desenvolver o seu trabalho. Essas duas commoditties não estavam disponíveis para Emily Lima, a única outra mulher que treinou o time canarinho na história, demitida oficialmente por resultados ruins em amistosos depois de apenas dez meses – um padrão de exigência diferente ao que foi aplicado a Vadão, que chegou à Copa do Mundo da França ao fim de uma sequência também muito ruim de jogos preparatórios.

Ainda é cedo para saber se Rogério Caboclo pretende tratar a seleção brasileira feminina com a atenção que ela merece, mas a contratação de Pia Sundhage indica que ele pelo menos é mais esperto do que seus antecessores, dirigentes dinossauros do futebol brasileiro como José Maria Marin e Marco Polo Del Nero – ou o testa de ferro Coronel Nunes. Muito mais jovem que eles, parece saber que não há nenhuma vantagem em desprezar o jogo das mulheres e que não custa muito pelo menos parecer que lhes está dando a devida atenção.

Por enquanto, é isso que aconteceu. A contratação de Pia Sundhage é um bom primeiro passo, essencial para a seleção brasileira, e nada além disso. Não é a panaceia para todos os problemas do futebol feminino no Brasil e não pode ser tratada dessa forma. Os problemas estruturais – como jogadoras dormindo no hall de um hotel, por exemplo – continuam existindo, ilustrados por Marco Aurélio Cunha, o homem ainda à frente da modalidade, outro desses dinossauros. A nova diretoria da CBF precisa fazer mais do que escolher uma chefe mais competente para Marta para provar que trabalha a sério para melhorar o futebol feminino.