A temporada 2017/18 foi a última do Stoke City na Premier League, o fim de um período de dez anos seguidos na primeira divisão inglesa. A péssima campanha naquele ano significou a volta à Championship, com a 19ª colocação. A situação, no entanto, não ficou feia para todo mundo. Xherdan Shaqiri, com seus oito gols e sete assistências, assegurou transferência para o Liverpool, no qual seria campeão da Champions League. Números que não contam a história completa do suíço no clube inglês, segundo revela Peter Crouch em sua recém-lançada autobiografia, “I, Robot” (sim, “Eu, Robô”, aquele filme lá do Will Smith. Genial).

Em um trecho do livro revelado nesta sexta-feira (18) na imprensa inglesa, Crouch reconhece o talento de Shaqiri, mas traz uma perspectiva interna de ex-companheiro de clube para pintar a figura completa e evidenciar como a falta de dedicação do jogador com outros compromissos, como se movimentar sem a bola e ajudar na marcação, prejudicava todo o time.

“O Shaqiri conseguia ser brilhante. Ele disparava, driblava dois jogadores, acabava na ponta esquerda – e permanecia na ponta esquerda. E aí a gente ficava completamente desmontado”, revelou.

No livro, Crouch então descreve que, para auxiliar o lateral e compensar a falta de auxílio de Shaqiri, Joe Allen se apressava para recuar, sem querer deixando um buraco no meio de campo. “Pelo menos volta para o meio de campo pela esquerda mesmo, para que todos nós nos misturássemos, trocando posição”, ponderou Crouch no livro, falando da falta de contribuição de Shaqiri.

“Em vez disso, levava uma eternidade para o Shaqiri voltar a se mexer. Uma hora a gente acabava dando um chutão, interrompendo o ataque adversário, e ele era pego em impedimento na lateral esquerda, mesmo sendo um ponta direito”, diz Crouch, ilustrando o tamanho da desconexão do suíço com o jogo.

“Existe uma linha tênue entre ser inconstante e simplesmente fazer o que você quer. As pessoas vão apontar, com razão, que o Shaqiri marcou oito gols e deu sete assistências na temporada 2017/18, em um time rebaixado. Mas durante 85 minutos a cada fim de semana ele tornava o trabalho de todo mundo levemente mais difícil. Desenvolveu-se ressentimento no elenco, na comissão técnica. O sistema e o jogador não se encaixavam.”

Não é preciso nem usarmos o privilégio do olhar retrospectivo para saber que Shaqiri, do momento em que chegou ao Stoke, em 2015, ao momento em que deixou o clube, em 2018, sempre esteve muito à frente dos seus companheiros tecnicamente. Ele tinha plena consciência disso, e a narrativa do jogador muito acima da média da equipe que não contribui defensivamente é tão antiga quanto o próprio futebol. Ainda assim, é interessante se dar conta de como um período pode ser enxergado de maneiras diferentes dependendo do ângulo do qual se observa.

Atualmente no Liverpool, o suíço não tem tido espaço, e Jürgen Klopp não diz que a falta de contribuição seja o motivo, ainda que tenha havido especulação sobre isso na imprensa inglesa a certa altura. O técnico já falou publicamente que Shaqiri treina bem. Independentemente do motivo pelo qual tenha passado a ter menos espaço ao longo do tempo, o suíço precisará fazer o oposto do que fez pelo Stoke para conseguir seu lugar. Klopp não irá colocar para jogar alguém como o Shaqiri descrito por Crouch.