Peter Bonetti, uma lenda do Chelsea, e o erro que infelizmente marcou sua carreira

Peter Bonetti defendeu as metas do Chelsea em 729 partidas, segundo na lista, durante quase 20 anos, com apenas um breve intervalo em que passou pelo St. Louis Stars dos EUA. Conquistou três títulos que incluem a Recopa de 1971 batendo o Real Madrid na final. Foi campeão do mundo como reserva de Gordon Banks. Um grande do futebol inglês que merecia ser lembrado por mais do que pelo jogo que passou a vida, cujo fim chegou neste domingo aos 78 anos, querendo esquecer. Mas aquela tarde quente em León sempre será uma marca negativa em seu currículo.

A Inglaterra estava no México para defender o seu título. O processo estava em andamento, mas a situação poderia ser melhor. Havia coletado duas vitórias por 1 a 0 contra Romênia e Tchecoslováquia e perdido aquele thriller contra o Brasil, com gol de Jairzinho. Em segundo lugar na chave, precisaria voar para León, onde a Alemanha Ocidental a aguardava para a disputa das quartas de final.

Haveria dois dias antes do início do mata-mata, e Alf Ramsey decidiu afrouxar as rédeas do seu elenco ao permitir que eles visitassem o Guadalajara Country Club, com campos de golfe, quadras de tênis e piscinas, onde personalidades do futebol inglês haviam se hospedado durante a fase de grupos e que os jogadores queriam muito visitar. Gordon Banks tomou uma cerveja. “Não me lembro se a garrafa foi aberta na minha frente ou não, mas eu sei que meia hora depois eu estava muito doente”, escreveu o goleiro, em sua autobiografia.

Não precisamos entrar nos detalhes da doença que o titular da seleção inglesa contraiu, apenas dizer que Banks passou a noite muito próximo do banheiro e se tornou uma preocupação para Ramsey. O teste físico pré-partida, segundo Banks, não foi tão rigoroso quanto poderia ser. Ele deu uma corridinha e defendeu uma bola “com tão pouca força que mal chegou a mim”. Ramsey ficou satisfeito: “Você jogará”.

No entanto, durante a preleção, no quarto de hotel de Ramsey, Banks voltou a sentir o estômago, transpirar em excesso, sentir calafrios, e ficou claro que ele não estava em condições de passar uma hora e meia, no mínimo, bloqueando bolas chutadas por alemães. Ramsey precisava tomar uma decisão: Alex Stepney, com pouquíssima experiência internacional, ou Peter Bonetti, que havia sofrido apenas um gol em seus seis jogos pela seleção inglesa, embora nenhum tivesse sido em Copas do Mundo.

Bonetti era a escolha que parecia óbvia, mas teve menos de uma hora para se preparar. E durante o jogo, pouco trabalho em meio ao domínio da Inglaterra, que abriu 2 a 0 no placar. O chute de Beckenbauer foi uma das poucas vezes em que precisou aparecer. A bola não saiu muito fraca, nem muito bem colocada, mas passou por baixo de seu corpo. Ramsey decidiu seguir em frente com a substituição que havia planejado, Colin Bell no lugar de Bobby Charlton, o craque do time, o que se mostrou um grande erro.

No segundo gol alemão, Bonetti estava um pouco adiantado e foi encoberto, mas fica difícil culpá-lo se a física ainda não conseguiu desvendar com precisão científica como que Uwe Seeler conseguiu fazer aquele cabeceio, quase de costas para o gol. A partida foi para a prorrogação, Gerd Müller recebeu a bola na entrada da pequena área, encheu o pé sem chances para nenhum goleiro, e a Alemanha venceu.

O próprio Martin Peters escreveu em sua biografia que Bonetti deveria ter defendido “e que em dez chances, o teria feito em nove”. Mas a ocasião em que não defenderia foi bem na hora errada e ele teve que conviver com aquela falha durante o resto da vida, como mostra esta coluna, escrita para ao Telegraph, em 2010, depois daquele erro de Robert Green contra os EUA na África do Sul.

“Faz 40 anos desde que eu deixei um chute similar de Franz Beckenbauer entrar nas quartas de final da Copa do Mundo contra a Alemanha Oriental, no México, e ainda não me deixaram esquecê-lo.

Infelizmente, com goleiros, as pessoas lembram apenas os erros – particularmente se eles aparecem nos grandes jogos. Green fez uma defesa incrível no segundo tempo, mas ela não dominará as manchetes na manhã seguinte: agora, o perigo é que ele será lembrado por aquele erro. Aquele único erro.

Essa, infelizmente, é a sina do goleiro. Centroavantes podem perder algumas chances, mas, desde que façam um gol de alguma maneira, tudo é perdoado pelos comentaristas. Para goleiros, erros são terminais. Não há margem de segurança.

Green se sentirá muito mal consigo mesmo, mas espero que ele tenha uma boa estrutura de apoio em torno de si.

Eu tive a sorte de ter uma em 1970. Quando voltamos depois da derrota por 3 a 2 para os alemães, o vestiário parecia um necrotério.

Ninguém se sentia pior do que eu e a primeira coisa que fiz foi falar ao treinador Alf Ramsey: ‘Chefe, me perdoe pelo primeiro gol. Eu deveria ter feito melhor’.

Sir Alf estaria no direito de puxar minha orelha, mas, a favor dele, ele simplesmente me disse: ‘Não se preocupe, filho. Todos erram – apenas não permita que isso afete o resto da sua carreira’.

Fiquei muito grato por aquela compreensão do treinador e meus companheiros me apoiaram tanto quanto ele. Ninguém me apontou o dedo: eles sabiam como era fácil cometer erros.

Claro que houve momentos difíceis para superar depois disso. Meus torcedores do Chelsea foram ótimos comigo naquela temporada, mas eu recebi críticas em partidas fora de casa. Não é fácil ouvir como você custou ao seu país uma Copa do Mundo semana sim, semana não”.

Bonetti seguiu jogando pelo Chelsea até 1979. Fez algumas partidas pelo Dundee United e se tornou carteiro na Ilha de Mull, na Escócia. Depois, tornou-se preparador de goleiros de Manchester City, Chelsea e da própria seleção inglesa.

Mas vale um adendo: segundo este texto do Guardian e o livro England Managers, um jornalista do Telegraph, Bob Oxby, fez uma escala em Washington depois da Copa do Mundo para visitar o seu primeiro, um senador chamado Stewart Symington, e teria ouvido do político, de acordo com o England Managers, entre risadas, que a CIA havia envenenado Gordon Banks porque a Inglaterra seria a única capaz de vencer o Brasil e o tricampeonato do time de Zagallo interessava ao governo americano para amenizar a situação política no país, então governado pela ditadura militar.

Vai saber. Mas Bonetti, por melhor goleiro que fosse, não tinha nenhuma chance contra a CIA.