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A Juventus anunciou uma perda de €89,7 milhões no balanço da temporada 2019/20, apresentado na reunião de acionistas do clube. As perdas aumentaram em relação à temporada passada, 2018/19, quando a Velha Senhora o valor foi de €39,9 milhões. O clube de Turim é o primeiro a apresentar um balanço que inclui o período da pandemia do coronavírus, por isso, embora o número chame a atenção, é menos grave do que parece.

A situação da Juventus tem sido preocupante em termos financeiros nos últimos anos, já que o clube se esforçou muito para reforçar o time, especialmente com Cristiano Ronaldo, em 2018, contratado por €117 milhões já aos 33 anos.

Mais do que isso, um dos pontos mais problemáticos é que a folha salarial do clube chegou a 71% das receitas, o que ultrapassa o limite estabelecido pelo Fair Play Financeiro. Falamos sobre isso em fevereiro, baseado em um relatório da KPMG de oito campeões europeus.

Nesta temporada, a perda da Juventus é gigantesca, mas ainda menor do que outros clubes do mesmo país, como o Milan, com perda de €146 milhões. Este balanço, porém, é da temporada 2018/19 e não inclui o período da pandemia. É possível que vejamos balanços com perdas ainda maiores.

As receitas da Juventus caíram em €88 milhões (18%), de €494 milhões para €407 milhões. A perda foi amenizada com os cortes nos salários dos jogadores, que totalizaram €43 milhões (13%), reduzindo o total de €328 milhões a €284 milhões. As receitas com vendas de jogadores subiram de €40 milhões a €167 milhões. As despesas não relacionadas ao fluxo de caixa aumentaram em €48 milhões.

As principais receitas que caíram foram de direitos de transmissão, queda de €40 milhões (19%), ficando em um total de €166 milhões. Esta foi uma receita muito afetada pela pandemia, já que contratos com empresas que transmitiam foram reduzidos em caráter excepcional. As receitas do dia de jogo, as chamadas de “match day”, que incluem bilheteria, mas não se limitam a isso, caíram em €21 milhões (30%), com um valor total de €49 milhões.

Entre as receitas que menos foram afetadas estão as comerciais, que caíram só €1 milhão, em um total de €186 milhões. Isso porque foram fechados novos contratos de patrocínios e comerciais, o que compensou, de certa forma, as perdas com merchandising.

Uma das receitas mais importante foi a venda de jogadores. Os €167 milhões, comparados aos €127 milhões da temporada anterior, tiveram como principais motivos a venda de Miralem Pjanic para o Barcelona (€60 milhões), João Cancelo para o Manchester City (€65 milhões), Moise Kean para o Everton (€27,5 milhões), Emre Can para o Dortmund (€25 milhões), Simone Muratore para a Atalanta (€7 milhões) e Leonardo Mancuso para o Empoli (€4,5 milhões).

Com tudo isso, o resultado geral não é desesperador. O que preocupa mais é ser o terceiro ano consecutivo de perdas em balanços, depois de quatro anos anteriores com lucro. O déficit total é de €119 milhões. O clube não está com prejuízo, porque tinha dinheiro em caixa para cobrir esses pontos. O que era mais preocupante da trajetória seria a violação do Fair Play Financeiro, algo que foi suspenso, por enquanto, por causa da pandemia.

Em coletiva de imprensa, o presidente da Juventus, Andrea Agnelli, falou sobre os resultados de forma bastante ponderada. “Foi uma sensação agridoce. Dentro e fora de campo. Nós conseguimos um grande resultado e tivemos decepções inesperadas”, disse o dirigente.

“Em janeiro, nós lançamos €300 milhões em um aumento de capital que tinha três objetivos: manter a competitividade esportiva, aumentar a visibilidade da marca com investimento de médio prazo e consolidação financeira. Mas nós usamos esse dinheiro de um modo que nós não esperávamos [por causa da pandemia]”, continuou Agnelli.

“Fora de campo, antes dessa situação, houve resultados alinhados com as expectativas: a receitas de patrocinadores chegaram a €130 milhões e a imagem da Juventus no Instagram estava entre as marcas italianas mais seguidas, com 2,2 milhões mais que a Gucci”, continuou o dirigente.

Agnelli é também presidente da Associação Europeia de Clubes (ECA, da sigla em inglês) e explicou como o impacto da pandemia foi enorme nos clubes no mundo. “Depois de 20 anos de crescimento contínuo do sistema, pela primeira vez as receitas do futebol europeu estão em uma queda acentuada. É um fator exógeno, mas esta é uma situação que temos que gerenciar. Cerca de 350 clubes precisarão de aumento de capitão nos próximos 12 a 24 meses para um efeito de cerca de €6 bilhões. A Juventus já fez isso em janeiro”, explicou.

A Juventus ainda tem um sinal amarelo nas suas finanças e precisará ficar de olhos bem abertos para lidar com todas as questões que virão, mesmo em um ano atípico. Há bons indicadores no balanço apresentado, apesar do resultado ser um prejuízo. Será preciso que continue assim para seguir adiante.

União dos gigantes na Serie A?

Um ponto que Agnelli resultou na coletiva chama a atenção pensando na liga como um todo: os principais clubes do país estão se alinhando para tentar melhorar a Serie A. “Pela primeira vez desde que eu sou presidente da Juventus, Milan, Inter e nós temos os mesmos interesses. Eu sou grato ao senhor Zhang [presidente da Inter] e Paul Singer, do Elliott Fund. Se nós colocarmos nossas estratégias de negócio a serviço da Serie A, isso não pode fracassar, quer desenvolvamos o plano, ou seja desenvolvido por terceiros”, afirmou Agnelli.

Há uma perspectiva de mudança na Serie A, com a discussão sobre a entrada da CVC Capital Partners. A ideia é que a empresa entre como sócia, com participação acionária de 10%, em uma nova empresa, que terá os clubes como principais acionistas, e que irá gerir os direitos de transmissão da Serie A. A ideia é ter um projeto pensado junto com os clubes e com um plano de negócios eficiente.

Os clubes sabem que precisam competir com La Liga, da Espanha, e Premier League, da Inglaterra, além da Bundesliga, da Alemanha. A Ligue 1, da França, recentemente aumentou o seu valor de direitos de transmissão e está em um patamar muito próximo da Serie A da Itália. Na temporada 2018/19, a Serie A teve um faturamento bruto de €2,5 bilhões, com cerca de 60% vindo de direitos de transmissão, de acordo com um relatório da Deloitte de junho.