Cristiano Ronaldo foi decisivo em duas partidas importantes da campanha vitoriosa de Portugal, exerceu a sua liderança com competência e indubitavelmente é o grande craque do time. No entanto, ao longo do mês que recebeu a Eurocopa, foi outro português quem desempenhou o melhor futebol do time. No mínimo, o mais regular. E foi justamente um zagueiro que às vezes não desperta tanta confiança. Em certas ocasiões, apresenta comportamento errático. Tem a fama de violento. Mas Pepe ignorou tudo isso e foi um gigante no torneio francês.

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Portugal venceu a competição com base na defesa – sofreu apenas um gol no mata-mata. Natural que haja destaques no setor. Raphael Guerreiro mostrou que o Borussia Dortmund contratou um promissor lateral esquerdo. Rui Patrício cresceu na decisão. Mas coube a Pepe liderar o setor, ao lado de Ricardo Carvalho na fase de grupos e de José Fonte no mata-mata.

Perdeu apenas a semifinal, por lesão, e disputou seis partidas. Recuperou 60 bolas ao longo da competição, mais do que qualquer outro jogador da Eurocopa. Tem média de sete interceptações por jogo, atrás apenas do galês Ben Davies, do polonês Michal Pazdan e do eslovaco Jan Durica, todos com oito. O terceiro na lista de cortes de bola, com 33 (menos que o galês Ashley Williams, 33, e o polonês Kamil Glik, 36). E fez tudo isso levando um único cartão amarelo, contra a Áustria.

O reconhecimento veio da Uefa, que o elegeu o melhor jogador da final da Eurocopa. Não foi para menos. Pepe teve que lidar com Griezmann, artilheiro e craque da competição; com Payet, sempre capaz de criar lances inesperados e levar perigo ao goleiro adversário; com Giroud, uma forte presença dentro da área; e com a pressão que a França exerceu durante boa parte dos 120 minutos. Fez isso muito bem. Números da Sky Sports mostram que realizou 17 interceptações, ganhou cinco de oito duelos no mano a mano, desarmou cinco vezes, bloqueou outras três e acertou todos os 31 passes curtos que tentou.

E embora a braçadeira de capitão tenha ido para o braço de Nani, quando Cristiano Ronaldo deixou o campo machucado, Pepe também exerceu sua liderança. “Cristiano é um jogador que pode marcar a qualquer segundo, mas, quando ele disse que não poderia continuar, falei a meus companheiros que precisávamos vencer por ele, que iríamos lutar e iríamos lutar por ele”, afirmou o zagueiro de 33 anos.

Pepe lutou. Ficou visível até mesmo no seu pior momento da partida, quando levou um drible seco de Gignac e assistiu à bola bater na trave. Foi afobado demais no lance, com excesso de vontade. Uma das principais imagens de depois da partida foi quando ele passou mal e vomitou ainda em campo. Maior metáfora de que realmente deixou tudo no gramado. “Houve muito sofrimento, foi um jogo muito intenso”, disse. “Nós colocamos sangue, suor e lágrimas no gramado. Eu disse no dia anterior ao jogo que deveríamos deixar tudo no gramado para o nosso povo, para nossa nação, e foi isso que fizemos”.

A nação que Pepe, nascido em Alagoas, escolheu defender. Na sua quinta grande competição com a camisa de Portugal, que veste desde 2007, teve o seu melhor desempenho. Não seria absurdo se fosse eleito o craque de um torneio em que, no geral, as defesas prevaleceram sobre os ataques. De qualquer jeito, mereceu ficar ao lado de Cristiano Ronaldo, na foto em que o capitão entrará para a história erguendo a taça. Foi, afinal, seu braço direito e seu principal guarda-costas.

Pepe pega a taça das mãos do capitão Cristiano Ronaldo (Foto: AP)
Pepe pega a taça das mãos do capitão Cristiano Ronaldo (Foto: AP)

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