Muita gente ainda não consegue dissociar “Pepe, o jogador” de “Pepe, o monstro”. O personagem pintado com tons histéricos persiste, em imagens de descontrole que foram um tanto quanto comuns em certos períodos de sua carreira. Tratar o destempero do alagoano como uma regra, no entanto, é ignorar a qualidade de um dos melhores zagueiros do futebol europeu desta década. O Pepe que se centrou nos objetivos do Real Madrid, principalmente sob as ordens de Carlo Ancelotti, virou peça fundamental nas conquistas continentais dos merengues e ainda protagonizou o feito de Portugal na Euro 2016. “Pepe, o jogador” é bem maior do que “Pepe, o monstro”, embora muita gente que não assista aos seus jogos prefira perpetuar os estereótipos. E, mesmo aos 36 anos, Képler Laveran de Lima Ferreira continua jogando em alto nível. Basta ver a atuação maiúscula que teve nesta quarta-feira, mais uma vez pela Liga dos Campeões. Se o Porto disputará as quartas de final, o veterano tem grande parte nisso.

Contra a Roma, Pepe foi médico aos portistas. O zagueiro focado e confiante remediava qualquer temor de sua equipe. Ele se sobressaiu em diversos momentos no Estádio do Dragão e, ao lado de Felipe, formou uma dupla extremamente sólida para garantir a classificação. Era difícil conseguir alguma coisa pelo alto na área do Porto e igualmente os giallorossi criavam pouco por baixo. Estavam por ali dois xerifes, quase sempre precisos em suas ações. Encararam um adversário com pouco ímpeto, é verdade, mas foram capazes de anulá-los durante a maior parte do confronto. Raros foram os sustos tomados por Iker Casillas.

O Pepe médico, porém, também teve os seus velhos momentos de monstro. O veterano jogou no limite. Mas, desta vez, usando a sua agressividade para ajudar o Porto. Edin Dzeko era o homem mais perigoso da Roma? Pois o camisa 33 conseguiu entrar na mente no centroavante adversário. Foram diferentes momentos em que se estranharam. O alagoano, inclusive, cometeu uma falta duríssima sobre o bósnio na entrada da área e ficou ameaçado pelo segundo amarelo. Antes disso, já tinha encarado o artilheiro testa com testa e falado um monte de palavrões em sua cara – respondida com uma simulação de agressão. Não dá para dizer o quanto o jogo mental de Képler contaminou os pensamentos de Dzeko. Fato é que o adversário esteve distante de sua noite mais inspirada e cometeu erros que não costuma.

Pepe, o médico e o monstro, também foi monstruoso na melhor acepção da palavra. Não foi impecável porque, no fim do tempo normal, um erro quase permitiu que Diego Perotti eliminasse o Porto. Mas não é um lance pontual que diminui sua atuação enorme, sobretudo na prorrogação. Quando a maioria parecia não ter mais pernas, o zagueiro de 36 anos estava lá. Inclusive, para dar o xeque-mate em seu embate contra Dzeko. O centroavante até conseguiu encobrir Casillas. Não passou pelo oponente particular, que se esticou para um carrinho salvador na pequena área. E o alagoano faria mais, onipresente para evitar o abafa da Roma. O último ato do jogo, aliás, tinha que ser dele. Casillas errou em uma saída, mas contou com o companheiro para rasgar a bola viva e vibrar com a classificação.

Vários jogadores merecem o destaque na vitória incontestável do Porto. Moussa Marega foi decisivo, Tecatito Corona judiou dos adversários no primeiro tempo, Alex Telles apresentou um equilíbrio imenso. Mas o personagem mais bacana de ver é mesmo Pepe – o jogador, o médico, o monstro, o zagueiraço. São muitos anos atuando em alto nível e muitos anos se dando bem em qualquer clube. A exigência pode ter baixado quando deixou o Real Madrid, mas a importância na Champions permanece, com Besiktas e agora novamente com Porto. A competição continental certamente oferece um prazer único ao veterano. É nela em que poderá continuar se transmutando e negando aqueles que ignoram a sua capacidade.