Pepe, 80 anos, quase ficou fora do “maior jogo da sua vida” contra o Milan

Pepe havia ouvido dos companheiros que não enfrentaria o Milan, na segunda partida do Mundial de 1963, e quase foi embora do Rio de Janeiro

“Foi, na minha carreira de futebolista, o maior jogo da minha vida”

José Macia fez 750 jogos pelo Santos, e com a autoridade de ser considerado por muitos o melhor jogador “humano” da história do clube, depois do extraterrestre Pelé, muitos foram grandiosos. Mas um deles teve um contexto todo especial, representava muita coisa e era contra um adversário espinhoso. Por isso, Pepe considera a segunda partida do Mundial de 1963 a maior apresentação da sua carreira de 15 anos.

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Na verdade, não foi a partida inteira. O show de Pepe no Maracanã contra o Milan durou 45 minutos e não teve jogadas de efeito, nem dribles desconcertantes. Teve a liderança do ponta esquerda, que completa 80 anos nesta quarta-feira, substituindo Pelé e Zito nesse quesito e duas potentes cobranças de falta que contribuíram para o Santos sair de uma desvantagem de 2 a 0 para 4 a 2 e forçar o terceiro jogo.

E Pepe quase não entrou em campo.

No dia da partida, Pepe conversou com Dalmo e ficou sabendo que Lula havia dado a primeira preleção para os jogadores que entrariam em campo com Batista na ponta-esquerda, pois o ex-atleta do Noroeste era mais defensivo, e o treinador estava com medo da força do Milan. O Canhão da Vila também não passava pelo seu melhor momento. “Porra, sou titular há anos e na hora do vamos ver ele vai me tirar para colocar um jogador absolutamente comum? Se eu fosse outro jogador, pensaria ‘dane-se’, vou ficar numa boa, sem jogar, sem responsabilidade. Mas fquei puto da vida. Se eu tivesse condições,pegava o ônibus e ia embora”, afirma Pepe.

Por volta das 17 horas daquele dia, ele foi chamado para um reunião em seu quarto com Lula e os diretores Modesto Roma e Nicolau Moran. “Quando subi a escada, Lula disse: ‘E aí, ‘Bomba’, como está para hoje?’”. Respondi: ‘Estou bem, estou legal, pode contar comigo’. Ele disse: ‘Ah, precisamos muito de você hoje’. Saí dali com uma injeção de ânimo e imaginei que o Modesto Roma e o Nicolau haviam tirado da cabeça do Lula a asneira que ele ia fazer. O Santos não teria ganhado se eu não tivesse jogado”.

O Milan havia vencido o jogo de ida, na Itália, e o Santos estava sem Pelé. O substituto Almir Pernambuquinho fazia de tudo para compensar a ausência do rei, mas era em Amarildo que se encontrava a majestade naquele primeiro tempo no Maracanã com aproximadamente 150 mil pessoas. O ex-jogador do Botafogo cruzou para Mazzola ganhar de Haroldo no alto e fazer 1 a 0. Mora recolheu lançamento de Cesare Maldini e tocou na saída de Gilmar para ampliar.

Os jogadores do Santos desceram aos vestiários de cabeça quente. A temperatura aumentou ainda mais quando eles descobriram que o Milan já estava armando a festa no outro lado dos bastidores do Maracanã. Esquentou o bastante para transformar a raiva em motivação. “Se era outro time, sem a nossa raça e vibração, levava um saco de gols, mas o Santos tinha força, time e o meu chute, que poderia resolver”, constata.

E como resolveu. Coutinho sofreu falta na entrada da área, e Pepe cobrou com muita força, rasteiro, e acertou o canto direito de Ghezzi, diminuindo o placar para 2 a 1. Outra infração, Dalmo levantou na boca do gol para Almir e Mengálvio brigarem pela bola. Esse último diz que o gol foi dele, mas o árbitro assinalou para o Pernambuquinho. O jogo estava empatado, e o gramado encharcado. Ótimo para Pepe.

“O Pepe era um jogador de chuva”, brinca Zito, e o ex-ponta esquerda concorda: por ter muita velocidade, ajeitar bem a bola e ter um dos arremates mais fortes da história do futebol, Pepe gostava de atuar em gramados molhados. O Santos chegava bastante em faltas, mas também conseguiu balançar as redes com bola rolando. Lima recebeu lançamento de Mengálvio e chutou de fora da área. Ghezzi não se mexeu, viu a bola entrar e foi bastante criticado pelo capitão Cesare Maldini.

Aos 22 minutos, mais uma falta, mais um gol de Pepe. Ele acertou um petardo que furou a barreira, entre Maldini e David, e entrou. Foi o quarto gol do Santos em apenas metade do segundo tempo. Uma virada avassaladora que deixou os italianos sem rumo. Os brasileiros fizeram questão de colocar Giovanni Trapattoni na roda, uns dos destaques do jogo de ida.

A participação de Pepe no bicampeonato mundial poderia ter sido até mais essencial. No jogo decisivo, o Santos ganhou por causa de um pênalti de Maldini em Almir, e o craque permitiu que Dalmo batesse. Do contrário, teria, além daqueles dois potentes chutes na virada, o derradeiro e decisivo gol do título. Acabou não acontecendo, mas também não fez falta nenhuma na carreira de Pepe, um dos maiores da história do Santos.