Por Bruno Rodrigues

Sócrates, Afonsinho, o francês Eric Cantona, o chileno Carlos Caszely… Conta-se nos dedos das mãos os jogadores de futebol politizados que vêm à mente em um primeiro exercício de memória. De fato, futebolistas em geral não têm o perfil e a bagagem cultural desses intelectuais da bola, além de vistos pela maioria das pessoas como meros indivíduos alienados, um preconceito que já perdura há tempos.

Porém, há iniciativas de atletas que pretendem dar um bico nessa imagem negativa que paira sobre o jogador de futebol. A partir de uma ideia de uruguaios e argentinos, a literatura foi o meio pensado para que toda a classe de boleiros pudesse se expressar e deixar para trás, mesmo que por apenas algumas páginas de livro, o prejulgamento em relação a eles. Com esse pensamento é que surge Pelota de Papel (Bola de Papel em espanhol), uma obra de contos feitos por futebolistas. “O livro tem a ideia de derrubar os preconceitos instalados e demonstrar que com trabalho e esforço todos podemos aportar algo à educação”, diz Juanky Jurado, um dos organizadores do livro.

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Pelota de Papel, publicado pela Editora Planeta, da Argentina – não há previsão para lançamento em português -, foi idealizado pelos uruguaios Agustín Lucas (Miramar Misiones, do Uruguai) e Jorge Cazulo (Sporting Cristal, do Peru) e pelo argentino Sebá Domínguez (ex-Corinthians, atualmente no Newell’s Old Boys). Interessados em criar um projeto literário que fosse composto por atletas, os idealizadores queriam alguém do meio jornalístico para ajudar na organização do livro. Chamaram Jurado, jornalista da Fox Sports Argentina, que foi o responsável por organizar os mais de 70 nomes que formaram parte do projeto. “Quando contamos às pessoas sobre o projeto todos se somaram rapidamente. Fomos incorporando um jogador por semana e demos a eles um prazo (de agosto a dezembro de 2015) para que nos entregassem os contos. Todos quiseram participar”, conta o jornalista.

O elenco reunido em Pelota de Papel é de dar inveja a qualquer seleção nacional. Entre os jogadores (alguns já aposentados), há nomes como Pablo Aimar, Juan Pablo Sorín, Jorge Valdano, Javier Mascherano e até Jorge Sampaoli, técnico campeão da última Copa América com o Chile. Acompanhando os astros da bola estão grandes ilustradores e nomes importantes da literatura, como por exemplo Eduardo Sacheri, autor de “La Pregunta de Sus Ojos” – livro que inspirou o filme ganhador do Oscar “O Segredo dos Seus Olhos”, dirigido por Juan José Campanella. Cada conto escrito por um futebolista (são 24 no total) é acompanhado por uma ilustração e um texto introdutório de um escritor ou jornalista.

Agustín Lucas, um dos atletas que idealizou o projeto, já é um experimentado na arte de escrever. O zagueiro do Miramar Misiones, clube da segunda divisão do Uruguai, tem seis livros publicados – sem contar sua participação em Pelota de Papel – além de outros projetos artísticos. Para o zagueiro de 30 anos, a iniciativa da publicação pode fazer com que outros jogadores e figuras do mundo do futebol tomem coragem para se manifestar fora das quatro linhas. “Pelota de Papel foi sendo feito por estímulo de um jogador a outro praticamente. É um belo pontapé no sistema. O futebol contado de dentro. É necessário que o futebolista fale, seja escrevendo ou de qualquer maneira”, diz Lucas. “É uma porta aberta que não vai se fechar”, completa Jurado.

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A presença de grandes escritores no projeto, isto é, gente bem estabelecida no meio literário, não intimidou os atletas na hora de colocarem suas ideias no papel. Pelo contrário. Houve até quem tenha feito uma incursão pela ficção científica para escrever seu conto. Para Lucas, dividir as páginas da publicação com craques da literatura não foi uma pressão, mas sim uma inspiração. “No livro há gigantes de várias áreas, e para mim foi uma linda oportunidade de compartilhar com seres que admiro a minha vontade de escrever e de jogar futebol. O livro é uma louca combinação de criatividade, trabalho e amizade”, conta o zagueiro.

Para o organizador e jornalista Juanky Jurado, o projeto inaugura um movimento que vai além das páginas do livro. Desde o lançamento em maio, na Argentina, o grupo promoveu oficinas de leitura em bairros humildes e pequenos clubes, buscando levar cultura às crianças por meio do futebol. “Esta é uma equipe revolucionária que criou um movimento. Pelota de Papel será um movimento esportivo e educativo. Nossa arma para ajudar o mundo é a educação”, afirma Jurado.

Há quem acredite que o futebol tem um poder de mobilização único, capaz de ser um importante catalisador de mudanças sociais. Os participantes de Pelota de Papel têm plena certeza disso. Tamanha é a crença no aspecto social da iniciativa que todos os envolvidos no livro abriram mão de receber direitos autorais: 100% da renda com direitos será destinada a instituições de caridade. É o futebol em prol da sociedade. São os futebolistas mostrando que uma bola de papel pode ser muito mais do que uma simples bola de papel.

Capa do livro Pelota de Papel
Capa do livro Pelota de Papel

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