Transferências milionárias, salários astronômicos, donos de clubes investindo milhões. As dívidas aumentam, mas os clubes continuam gastando. De onde vem o dinheiro? Como contratar um Fernando Torres por 50 milhões de libras (cerca de € 57 milhões) em um clube que deve muitos outros milhões? A Uefa desconfiou e resolveu tomar uma atitude.

A entidade teme que essa onda de grandes investimentos no futebol com dívidas crescendo em proporção igual ou maior seja uma bolha. O risco de explosão parece cada vez mais claro, o que pode prejudicar de maneira grave não apenas os clubes, mas os campeonatos e o próprio futebol europeu, que veria uma desvalorização e crise de confiança.

Isso sem contar o desequilíbrio esportivo que os grandes aportes financeiros descontrolados e não fiscalizados podem causar nas competições, uma vez que os clubes que se mantêm dentro do orçamento, sem ter um dono bilionário dando suporte, ficariam em desvantagem frente aos gastadores desenfreados.

Percebendo esses problemas, a Uefa criou uma comissão para analisar a situação dos clubes do continente e adotar uma medida. O nome adotado foi o Fair Play financeiro, que remete ao significado do Fair Play usado pela Fifa para o chamado “jogo justo”. A ideia central é justamente essa: tornar o jogo mais justo, mais honesto e mais transparente com um controle sobre as receitas e despesas dos clubes. Quem gasta mais do que arrecada passaria a sofrer punições esportivas e multas.

A medida parece óbvia, uma vez que qualquer empresa busca esse tipo de funcionamento: ter receitas maiores do que as despesas. Em um continente em que muitos clubes, especialmente os grandes, têm ações na bolsa de valores, esse deveria ser um princípio básico. Mas não é.

Entre os grandes países do futebol europeu, a regulação só tem essa intensidade em um país: a Alemanha. Na Bundesliga, os clubes que gastam mais do que arrecadam são punidos e podem inclusive ser rebaixados se não provarem sua saúde financeira. Os jogadores não podem entrar em campo se os salários não tiverem sido pagos e o controle rígido impede que os clubes quebrem, causando prejuízo à própria liga e, em última instância, aos torcedores.

A bolha

Ao criar a comissão do Fair Play financeiro, em 2009, a Uefa fez um estudo das finanças dos clubes no ano anterior, 2008. A entidade analisou as finanças de cerca de 700 equipes e verificou receitas totais de € 11,5 bilhões, com despesas de € 578 milhões.

Em 2010, a entidade europeia divulgou os dados de 2009 dos mesmos 700 clubes. A receita subiu um pouco, indo para € 11,7 bilhões, mas as despesas cresceram muito mais. Dos € 578 milhões do ano anterior, pularam para € 1,2 bilhão – aumento superior a 100%.

Apesar do crescimento ter sido influenciado também pela crise financeira, o que diminuiu receitas e gastos de torcedores, mostrou também que alguma medida precisava ser feita para impedir o estouro dessa bolha. Caso contrário, mais problemas ao futebol do continente surgiriam.

O Chelsea é um exemplo de descontrole financeiro. O clube foi comprado em 2004 por Roman Abramovich, bilionário russo. Na época, sua dívida era de £ 80 milhões (algo em torno de € 120 milhões). Em 2010, sua dívida chegou a £ 800 milhões (cerca de € 988 milhões). O maior credor, porém, é o próprio dono, que injeta dinheiro e continua dando recursos para o clube contratar.

Apesar do aumento notável de receitas desde que o russo assumiu o Chelsea, o clube acumula, de 2004 a 2010, um total de perdas de £ 480 milhões (€ 547 milhões) – um dos motivos do aumento da dívida dos Blues. Apesar disso, o Chelsea pode continuar disputando normalmente as competições, já que não há qualquer controle desse tipo na Premier League, a liga inglesa. Além disso, as regulações da Uefa não são suficientes para impedir esse tipo de ação.

Outro clube inglês vive situação parecida. O Manchester City, comprado pelo Sheikh Mansour bin Zayed Al Nahyan em 2008. O clube passou a gastar mais e, só em 2010, teve um prejuízo de £ 121 milhões (€ 137,9 milhões) no seu orçamento.

O Portsmouth passou por um grande problema financeiro depois de gastar muito mais do que arrecadava em 2009. Sua situação tornou-se tão problemática que o time acabou falindo no meio da temporada passada, 2009/10, causando a perda de pontos que ajudou no seu rebaixamento. O clube precisou sofrer intervenção judicial e foi proibido de participar da Liga Europa, mesmo conquistando uma vaga através da FA Cup, a Copa da Inglaterra, justamente por não oferecer qualquer garantia financeira.

Como evitar tudo isso

Amir Somoggi, diretor da área Esporte Total da consultoria DBO, afirma que situações como a de Chelsea e Manchester City, que acumulam prejuízos e continuam a ter dinheiro devido aos seus donos, são danosas para o futebol como um todo a longo prazo.

“De alguma maneira, situações financeiras debilitadas podem gerar algum desequilíbrio até em projetos de marketing futuros, porque se os clubes começam a quebrar em algum momento, isso gera uma desconfiança total no mercado”, disse Somoggi. A solução pensada pela Uefa é fazer com que o funcionamento básico de uma empresa seja obrigatório para os clubes. Ao menos aqueles que quiserem participar de competições europeias, que passariam a ter sua inscrição negada.

Um estudo publicado em 2010 pela entidade presidida por Michel Platini mostra que se o controle do Fair Play financeiro já estivesse em vigor em sua última fase, 54% dos clubes que se classificaram para as competições europeias desta temporada teriam sua inscrição negada, levando em conta apenas análise do ano anterior. A situação, portanto, é séria.

Os objetivos do Fair Play financeiro da Uefa, segundo divulgado pela entidade, são:

– Introduzir mais disciplina e racionalidade nas finanças dos clubes;
– Tirar a pressão nos salários e no valor das transferências e limitar o efeito inflacionário;
– Encorajar os clubes a competir com suas receitas;
– Encorajar investimentos de longo prazo em categorias de base e infraestrutura;
– Proteger a viabilidade a longo prazo do futebol europeu de clubes;
– Garantir que os clubes acertem suas dívidas em um tempo apropriado.

As novas regras incluirão analisar se a renda é maior do que a receita. A Uefa permitirá uma margem de € 5 milhões. As medidas serão adotadas aos poucos. A partir da próxima temporada, as finanças dos clubes já passarão a ser monitoradas. Nas temporadas 2011/12 e 2012/13, os clubes serão apenas advertidos e monitorados em relação às suas finanças e suas dívidas.

Os clubes serão analisados em suas finanças no ano de sua inscrição e nos dois anos anteriores, de forma que sua dívida não seja maior do que o limite estabelecido. Nas primeiras temporadas, a Uefa estabeleceu limites maiores do que os € 5 milhões, desta forma:

– Nas temporadas 2013/14 e 2014/15, o limite será de € 45 milhões;
– Nas temporadas 2015/16, 2016/17 e 2017/18, o limite será € 30 milhões;
– Um valor ainda a ser definido será usado a partir da temporada 2018/19.

Isso significa que clubes que ultrapassarem esse limite não conseguirão a licença para jogar as competições europeias. Excepcionalmente na primeira temporada do Fair Play financeiro, 2013/14, apenas dois relatórios financeiros serão analisados, dos anos de 2013 e 2012 (pela regra, deveria ter também o ano de 2011).

Por isso, o monitoramento na temporada 2011/12 será muito importante, ainda que ele não possa punir com a exclusão das competições europeias, seus resultados já contarão para a inscrição a partir de 2013/14. De qualquer modo, na prática, o valor de € 5 milhões tido como ideal pela Uefa para a definição das margens ainda não tem previsão para ser “oficializado”.

O publicitário Fabio Kadow, especializado em marketing esportivo e autor do blog Jogo de Negócios (www.jogodenegocios.blog.terra.com.br), acredita que o Fair Play financeiro irá fazer com que transferências como a de Fernando Torres, que foi do Liverpool para o Chelsea por £ 50 milhões, deixem de acontecer, ou ao menos se tornem raras.

“O que nós vamos ver, possivelmente, é a diminuilção dessa bolha no valor das transações, nos salários que vêm sendo pagos. Provavelmente a contratação do Fernando Torres não aconteceria”, disse Kadow. “Se acontecerão transferências desse porte? Dificilmente ou bem esporadicamente”, completa.

“A Uefa não pode proibir um Abramovich de comprar um Chelsea. O que ela pode é excluir da Liga dos Campeões, que é, para mim, a maior punição. Isso porque a ausência do Chelsea em uma competição como a Liga dos Campeões pode gerar no longo prazo um efeito negativo no seu negócio, porque vai reduzir contratos de patrocínio, o número de torcedores e o potencial comercial do clube”, explica Somoggi.

Reflexos no Brasil

A mudança nas regras financeiras do futebol europeu pode não mudar, a curto prazo, a força dos clubes, mas há dúvidas em como isso afetará o futebol brasileiro. Apesar do quadro estar mudando, o país ainda é exportador de jogadores. O Fair Play financeiro pode afetar os clubes no Brasil?

“Diretamente, não afetará os clubes brasileiros, ao menos inicialmente”, diz Amir Somoggi. “Os que podem ser afetados são aqueles clubes que dependem mais de transferências, porque esse mercado pode ter impacto. Não que vá reduzir, não creio, mas terá algum impacto. Mas como os clubes brasileiros têm buscado a diversificação, eles podem amenizar isso com mais receitas geradas aqui no Brasil”.

Para o publicitário Fabio Kadow, porém, o quadro pode se inverter. Com as mudanças nas regras na Europa, os clubes do Velho Continente podem resolver apostar nos jogadores jovens do Brasil ao invés de contratar medalhões de outros clubes a peso de ouro. “Os jogadores não saem daqui por mais do que € 20 milhões, € 25 milhões”, diz. “A média de contratação de um jogador brasileiro é de € 10 a € 20 milhões. Então, pode ser que eles comecem a mirar mais para cá”.

Denílson, ex-São Paulo e atualmente comentarista de futebol na televisão, ainda é a maior transferência do futebol brasileiro. Ele foi vendido por US$ 30 milhões, valor recorde mundial na época (o Euro, que passaria a vigorar nas transferências europeias, só entrou em circulação efetivamente em 2002). Robinho, atualmente no Milan, foi vendido pelo Santos para o Real Madrid por € 23 milhões (aproximadamente US$ 28 milhões), chegando a um valor próximo dos outros dois. Ambos estão longe das maiores transferências da história do futebol.

Alexandre Pato é uma das mais caras da história do futebol brasileiro também. O jogador foi vendido pelo Internacional ao Milan por € 22 milhões (US$ 30,14 milhões na época), superando, por pouco, a de Denílson nos valores em Euro.

Fabio Kadow ressalta, porém, que com o crescimento da economia brasileira, os salários no país passaram a ser muito mais atrativos, o que leva os jogadores a ponderarem mais a transferência para um país diferente.

“Precisa realmente valer a pena o salário, o que está cada vez mais difícil. Um jogador que ganha R$ 200 mil, praticamente € 80 mil, é um salário padrão por lá, então sair daqui, deixar sua casa, para ganhar a mesma coisa ele pode não querer”.

Fair Play financeiro no mundo?

Para Somoggi, a tendência é que a iniciativa da Uefa seja espalhada pelo mundo, já que conta com o apoio da Fifa. Porém, em mercados como a América do Sul, comandada pela Conmebol, ele não acredita que essa prática possa ser adotada.

“A tendência da Uefa é essa [migrar a medida para outros continentes], até porque a Fifa aprova. Mas é difícil acreditar, especialmente na América do Sul. Talvez na Ásia, mas no Oriente Médio eu acho difícil. Na América do Norte é fácil, a MLS, que é a principal, nos Estados Unidos, já é controlada, mas eu tenho minhas dúvidas ainda. Seria o ideal, sou um defensor de maior controle e fiscalização das finanças e dos orçamentos”, afirmou Somoggi. “A base de tudo é não permitir que os clubes tenham um orçamento inflado. Isso desregula o mercado”, completa.

A medida está longe de ser uma unanimidade, mesmo na Europa. Por isso, é difícil imaginar que algo assim aconteça no Brasil ou na América do Sul. “Seria bem interessante [usar essa medida no Brasil], mas ao contrário de lá, há leis que ajudam a continuar no vermelho, como a Timemania”, critica Kadow, referindo-se à loteria criada pelo Governo para facilitar os pagamentos de débitos dos clubes com o Estado.

Enquanto isso, as gastanças mundo afora seguem sem controle. Se terão um fim em breve, só o tempo nos dirá.