Um time sem treinadores, sem médicos, sem água e sem pagar os salários dos membros da comissão técnica. Mesmo assim, os jogadores do time sub-15 do Parma, comandados por Maurizio Neri, chegaram à final do Campeonato Italiano da categoria. O Parma faliu na segunda-feira e deixará de existir para ser refundado na Série D, quarta divisão do país. Mesmo falido, o time continuou na disputa do torneio da base e o navio fantasma, como a Gazzetta dello Sport chamou, segue navegando de forma belíssima rumo àquele que pode ser o último título do Parma como o conhecemos.

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O time sub-15 é cheio de garotos empolgados, com adultos dedicados que fazem o time seguir vivo, pulsando, mesmo já de portas fechadas do ponto de vista financeiro. Na tarde de sexta, o time venceu o Milan por 2 a 1 na semifinal. No domingo, farão a final com a Internazionale. Dois gigantes do país contra um time de voluntários, porque não recebem há um ano. Os que não saíram continuam trabalhando sem condições e chegam à decisão mais na vontade do que por qualquer outro motivo. Os garotos foram aos jogos muitas vezes nos carros particulares dos membros da comissão técnica e muitos dos medicamentos usados nos jogadores foram também comprados por esses dedicados profissionais, que estavam pagando para trabalhar.

Dois empresários mantém o time sub-15 vivo, apesar de estar no meio da falência do clube: Guido Barilla e Andelo Gandolfi, que mantiveram como puderam a equipe. O responsável pela categoria de base do Parma, Francesco Palmieri, ex-atacante da Sampdoria e do Lecco, deixará o cargo depois de oito anos na segunda-feira, pelo fechamento do clube. Ele não ficará desempregado porque foi contratado pelo Sassuolo. “Estou orgulhoso dos funcionários e de todos os rapazes, eu fico doente com o que as pessoas continuam falando. Os jovens aqui se comportaram como verdadeiros homens. Todos eles, sem distinção. Eu estou saindo com o pesar que o time principal usou tão poucos jogadores da nossa base. Eu não entendo por que”, afirmou Palmieri, que disse estar dividido entre a raiva e o orgulho.

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Segundo o técnico do time sub-15, Maurizio Neri e o seu auxiliar técnico, Francesco Turrini, não recebem salários desde agosto. Segundo os dois, houve uma ajuda de custo entre abril e maio. “Mas não foi muito”, afirmou Neri. As categorias de base não passam nem perto dos altos salários do profissional. “Aqui recebemos entre € 1000 e € 1500, às vezes menos”, disse Neri. “Alguns aqui chegaram a jogar na Serie A, mas nenhum ficou rico para viver desse dinheiro”, continuou o treinador do sub-15.

O técnico destaca três jogadores do time, que são as peças mais valiosas do elenco: o goleiro Adorni, o centroavante Adorante e o atacante Guehi. Todos serão dispensados na segunda-feira e certamente serão contratados rapidamente por outros clubes. Segundo a Gazzetta, Milan, Juventus, inter, Roma, Cesena, Bologna e Sassuolo já se movimentaram para contratar os melhores jogadores do time. Outros interessados ainda devem aparecer.

“Talvez sejamos um caso único, não sei se já houve um time que busca o título sem ter um clube por trás, e sem o clube de verdade, não uma maneira de dizer”, declarou Palmieri sobre o time. Tecnicamente, o Parma não existe mais como clube, mas o time sub-15 segue porque o campeonato estava no meio quando a falência aconteceu. O dirigente ainda revela que há dois anos, pararam de usar ônibus para cortar custos – € 140 mil, segundo ele – e os custos foram pagos pelos empresários Barilla, Gandolfi e às vezes até alguns outros.

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A licença do Parma como clube vence no dia 30 de junho, tempo suficiente para o time sub-15 jogar a final do italiano no domingo. Depois, todos os bens e valores do clube serão avaliados e leiloados para pagamento aos credores – as dívidas passam dos € 170 milhões, situação ainda mais dramática que outros times que faliram, como Fiorentina e Napoli. O título do sub-15 não vale muito, financeiramente, mas tem um enorme valor simbólico.

Uma história que mostra que às vezes o futebol consegue ser maior que todos os problemas, injustiças e incompetências que corroem um clube. No domingo, o Parma jogará apenas pelo seu orgulho, pelo direito de todos esses garotos em sonhar com uma carreira de jogador de futebol. Muitos deles não conseguirão e ficarão pelo caminho. Mas todos terão uma história linda para contar quando crescerem.