Pelé começou a se firmar no Santos a partir de 1957. O garoto de 16 anos era visto como um grande talento na Vila Belmiro, mas tinha forte concorrência no comando do ataque. Era Emmanuele Del Vecchio, centroavante que aliava força e técnica, principal referência ofensiva no bicampeonato paulista em 1955 e 1956. Foi substituindo o descendente de italianos que o Rei estreou na Seleção. E também a partir de sua venda para o Hellas Verona que o camisa 10 se tornou intocável no Peixe. Uma transferência que poderia ter envolvido Pelé.

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O olheiro do Verona já tinha observado as virtudes do prodígio de 16 anos. Em seus relatórios para o clube, elogiou Pelé como um investimento para o futuro. Mas o presente acabou sendo Del Vecchio, que marcou 13 gols em 27 partidas em sua temporada solitária pelos gialloblu, antes de se tornar ídolo do Napoli e defender também Padova, Milan e Boca Juniors, voltando ao São Paulo. Titular no Santos, Pelé nunca sairia da Vila Belmiro.

E o Verona foi só o primeiro a cogitar a hipótese de contratar Pelé. Ao longo das décadas seguintes, outros gigantes europeus chegaram a negociar com o Santos. O poderoso Real Madrid queria adicionar o camisa 10 a sua constelação. Em um momento abastado do futebol italiano, houve até leilão entre Milan, Inter e Juventus. E mesmo o Manchester United seria outro com interesse no craque. O Santos nunca abriu mão de seu protagonista e seguiu empilhando taças, assim como Pelé também enchia os bolsos nas lucrativas excursões dos alvinegros. A saída para o exterior só aconteceu em 1977, três anos depois da despedida para o Peixe, e nem foi para a Europa: o New York Cosmos foi quem fechou “o negócio do século”.

Nesta quinta, Pelé completa 74 anos. E, em sua homenagem, relembramos todas as especulações do Rei no futebol europeu. O que aconteceu? Com quem ele poderia ter jogado? O que teria conquistado? Respostas que indicamos nas linhas abaixo. Mas dizer que Pelé seria ainda mais respeitado se tivesse arrebentado em outro continente, isso nunca saberemos.

Real Madrid, em 1959

(FILES) Real Madrid's players (from L) Frenchman Raymond Kopa, Rial, Argentinian-born Alfredo Di Stefano, Hungarian-born Ferenc Puskas and Gento pose before the start of a Liga football match 06 June 1959 at Santagio Bernabeu stadium in Madrid.  Hungarian football legend Ferenc Puskas, the inspiration of the "Mighty Magyars" national side that dominated world football in the 1950s, has died after a long illness, the national Hungarian agency MTI reported 17 November 2006. He was 79. AFP PHOTO FILES + SPAIN OUT  (Photo credit should read STAFF/AFP/Getty Images)

Ao longo de pelo menos três anos, os rumores da transferência de Pelé ao Real Madrid foram fortíssimos. Donos do time mais forte da Europa, os merengues estavam acostumados a buscar grandes estrelas desde a contratação de Di Stéfano. E o Rei começou a entrar na mira do presidente Santiago Bernabéu a partir de 1959, antes mesmo da vinda de Didi. O convite ao Santos para participar da despedida do capitão Miguel Múñoz reforçou os rumores sobre o prodígio, cotado para substituir Raymond Kopa, que voltava ao Stade de Reims. Apesar de alguns jornais derem a venda como certa, ela nunca aconteceu. A especulação voltou a surgir com menos força em 1960, quando Pelé foi apontado para dar sequência à contratação de um grande astro por temporada. Já no ano seguinte, o dirigente merengue Raimundo Saporta admitiu a existência de uma cláusula firmada com o Santos, que nunca foi acionada.

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Em Chamartín, Pelé teria a chance de compor uma linha ofensiva ainda mais histórica ao lado de Di Stéfano, Puskás, Gento e Del Sol. Seria difícil imaginar até mesmo como seria o encaixe de tantos craques – e não se duvidaria que Di Stéfano, após rechaçar o estilo pouco combativo de Didi no meio-campo, também moldasse o garoto em sua chegada a Madri. O fato é que, reforçando ainda mais a linha de frente, Pelé poderia fazer os merengues não pararem na quinta conquista da Champions, em 1960.

Após o pentacampeonato, o Real Madrid foi incapaz de reconquistar o título europeu, embora tenha sido duas vezes vice-campeão até o triunfo seguinte, em 1966. Em compensação, o time dirigido por Miguel Múñoz emendou cinco títulos seguidos em La Liga, levando à seca o Barcelona de Kubala, Luis Suárez, Evaristo, Kocsis e Czibor. Com a venda de Di Stéfano em 1964 e a aposentadoria de Puskás em 1966, o Rei poderia liderar mais sucessos europeus rumo à virada dos anos 1970.

Internazionale e Juventus, em 1961

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Em 1961, os clubes italianos chegaram a fazer um leilão por Pelé. Inter, Juventus e Milan ofereceram 600 milhões de liras ao Santos, que preferiu segurar o seu prodígio. “No início da minha carreira, Angelo Moratti [então presidente da Inter] fez uma proposta, mas o Santos recusou. O clube também disse não à Juventus de Agnelli e, por isso, fiquei no Brasil”, contou Pelé anos depois, em entrevista ao jornal Corriere dello Sport. Eram tempos abastados para os dois magnatas, com Moratti batendo o recorde de transferência mais cara da história semanas antes, ao tirar Luis Suárez do Barcelona – por 250 milhões de liras, menos da metade de Pelé. Se o negócio com o Santos realmente acontecesse, o Rei faria saltar em 140% o recorde anterior, aquela que seria ainda hoje a maior valorização da história.

Em Milão, além de Luisito Suárez, Pelé teria ótimas companhias no esquadrão de Helenio Herrera, que acabara de chegar do Barcelona. O elenco de jovens que começava a se firmar também contava com o artilheiro Sandro Mazzola e Giacinto Facchetti. E a maturidade daquele time veio a partir de 1963, com mais algumas contratações como o ponta Jair da Costa e o centroavante Joaquin Peiró. Em cinco temporadas, a Inter foi três vezes campeã italiana e duas campeã europeia, além de vice em 1967. Um estrago que poderia acontecer ainda antes com Pelé e que se acabou depois da saída de Herrera, em 1968.

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Por outro lado, caso o Santos cedesse à oferta de Agnelli e Pelé rumasse a Turim, ele teria um trabalho maior para liderar a Juventus. Afinal, a concorrência de Milan e Internazionale era enorme, com a dupla de Milão tomando o protagonismo na Serie A justamente a partir de 1961. Bicampeã nacional naquele ano, a Juve só voltaria a ficar com a taça em 1967, enquanto não passou das quartas de final da Champions em 1962, eliminada pelo Real Madrid. Pelé chegaria para substituir Giampiero Boniperti, lenda bianconera que se aposentara naquele ano. Além disso, dividiria o brilho no ataque com Omar Sívori, Bola de Ouro em 1961, e John Charles, renovando o célebre “Trio Mágico”. E a linha ofensiva poderia ficar ainda melhor se Garrincha viesse mesmo do Botafogo.

Milan, em 1963

Giovanni Trapattoni Calciatore con la maglia del Milan con Pele' ph archivio Ag. Aldo Liverani Retrospettiva

O Milan foi um dos times que mais se empenhou para tentar contratar Pelé no início dos anos 1960. O histórico dos rossoneri com atacantes estrangeiros já era excelente, e Pelé seria a tentativa de manter essa linhagem. As conversas se tornaram mais fortes em 1963, quando o Santos era bicampeão da Libertadores e o Milan tinha acabado de conquistar a sua primeira Champions. No entanto, os alvinegros fecharam as portas para os italianos, que ficaram justamente com o substituto de Pelé na Copa de 1962: Amarildo, o Possesso, que defendeu o clube por quatro anos.

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Amarildo marcou época em San Siro. Coincidência ou não, formando o ataque com outro concorrente de Pelé no ataque da Seleção: José Altafini, o Mazzola, que substituiu o Rei durante a primeira fase do Mundial de 1958. Enquanto os brasileiros brilhavam no ataque, o timaço de Luis Carniglia tinha uma excelente defesa liderada por Cesare Maldini, além do meio-campo técnico, com o ritmo ditado por Gianni Rivera e Giovanni Trapattoni. Mas, ainda que Amarildo tenha sido ídolo, é bem possível que Pelé fosse muito além de seus 32 gols em 107 jogos da Serie A.

A primeira mudança na história aconteceria no Mundial Interclubes de 1963, em que os dois clubes se cruzaram. Amarildo e Pelé anotaram dois gols cada, mas quem acabou com a taça foi o Santos. Já o sucesso do Milan diminuiu nas temporadas seguintes. Os rossoneri pararam diante do Real Madrid nas quartas da Champions de 1964, enquanto só voltaram a conquistar a Serie A em 1968, mesmo ano em que faturaram também a Recopa Europeia. Era um time que continuava forte, mas que, como o Rei, daria um passo à frente para brigar com a Inter de Helenio Herrera.

Manchester United, em 1968

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Em 2006, Pelé afirmou à imprensa inglesa que o Manchester United tentou contratá-lo em 1968. Tudo bem que nem sempre é possível botar fé na palavra do Rei, e transferências internacionais dessas dimensões não eram tão comuns no futebol inglês durante aquela época. De qualquer forma, por mais que não tenham conseguido confirmar o rumor com ninguém, BBC e Guardian apontaram o negócio como factível – afinal, Matt Busby costumava guardar a sete chaves suas negociações.

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Caso chegasse em Old Trafford, Pelé integraria um dos maiores times da história do United. Foi naquele ano que os Red Devils conquistaram a sua primeira Copa dos Campeões, goleando o Benfica por 4 a 1 na prorrogação da final. O camisa 10 comporia uma linha de ataque mítica, atuando ao lado de Denis Law e do gênio George Best – que poderia ser outro grande parceiro na ponta direita, assim como Garrincha. Já no meio-campo, o Rei estaria bem resguardado pelos passes de Bobby Charlton e pelo trabalho sujo de Nobby Stiles. E poderia tentar ampliar a hegemonia do time de Matt Busby, que não durou tanto tempo.

Eliminado nas semifinais da Copa dos Campeões de 1969, o clube entrou em declínio na década seguinte. Enquanto boa parte da geração envelhecia, George Best se perdia na boemia. O United só reconquistou o título inglês em 1992/93, com Alex Ferguson, e chegou a ser rebaixado para a segundona em 1974. Por mais que Pelé se encaminhasse para o fim da carreira naquela época, tinha ótimas condições físicas para liderar os Red Devils no topo – e poderia chegar ao gol 1000 por lá mesmo.