Em um momento no qual o racismo infelizmente se repete em tantos países da Europa, o Athletic Bilbao viveu um momento histórico nesta quinta-feira. O gol de Iñaki Williams não garantiu nada além do empate por 2 a 2 com o Torino, mas marcou um momento inédito nos 117 anos dos leones: pela primeira vez, um negro balançava as redes com a camisa alvirrubra. A exceção se dá pelos princípios do clube, e não pelo racismo – ainda que, para alguns, a afirmação regional dos bascos estimule a xenofobia. De qualquer forma, não deixa de ser um momento emblemático para o Athletic e também para o futebol espanhol, de tantos casos de preconceito nos últimos meses.

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A ausência de negros ao longo da história do Athletic Bilbao é explicada pelos regimentos do clube. Os leones surgiram através de estudantes bascos em 1898, mas contavam em seus primórdios com jogadores de origens britânicas que moravam em Bilbao. No início da década de 1910, entretanto, os ingleses que reforçavam o Athletic foram motivo de protesto dos rivais. A alegação era de que os estrangeiros não estavam a mais de seis meses no país, como as regras da época estipulavam. A partir de então, para mostrar suas forças aos rivais, os alvirrubros passaram a contar apenas com atletas de Biscaia em seu elenco – uma região com raros negros, assim como a Espanha do início do século 19.

A postura nacionalista do Athletic se intensificou no início da ditadura de Francisco Franco, especialmente pela maneira como o general suprimia as comunidades autônomas espanholas – embora, contratados no início dos anos 1940, o chileno Ortúzar e o filipino Larrauri tenham sido exceções estrangeiras em décadas. Já nos anos 1950, enquanto os outros clubes se abriam, os leones voltaram a abraçar com mais força as suas convicções, barrando outra vez os forasteiros. Tanto que acabaram desistindo de Miguel Jones, o primeiro negro contratado pelo clube. Mesmo tendo crescido no País Basco e sendo torcedor do clube durante a infância, o artilheiro foi dispensado sem nunca jogar, por ter nascido na Guiné Equatorial – como ele mesmo admitiu em entrevista anos depois, negando o racismo. O mesmo aconteceu com o argentino José Eulogio Gárate e com o espanhol Chus Pereda.

Iñaki Williams, durante a infância, com a camisa do Athletic Bilbao

Iñaki Williams, durante a infância, com a camisa do Athletic Bilbao

O passar das décadas remodelou a política do Athletic Bilbao, embora não tenha se desligado do País Basco. Outros jogadores do País Basco que não nasceram necessariamente em Biscaia começaram a ser aceitos a partir da década de 1960, a exemplo o lendário goleiro José Ángel Iribar. Já nos anos 1980, a amplitude atingiu também descendentes de bascos de outras partes da Espanha e do mundo, como o brasileiro Vicente Biurrun, o francês Bixent Lizarazu (primeiro nascido na parte francesa do País Basco) ou o venezuelano Fernando Amorebieta (pioneiro a defender uma seleção estrangeira).

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Outro negro que passou próximo de San Mamés foi Benjamín Zaradona, durante a década de 1990. Filho de um basco com uma equato-guineense, o meio-campista chegou a ser sondado pelo técnico Luis Fernández. Entretanto, os sócios teriam barrado a contratação do jogador nascido em Valladolid “por causa da cor de sua pele”, segundo suas próprias palavras. A exceção preconceituosa diante da barreira quebrada em novembro de 2011, com Jonás Ramalho, filho de pai angolano que se formou nas categorias de base do clube. Com a globalização e a intensificação da imigração, um processo mais do que natural. E que abriu as portas para outras promessas, como Iñaki Williams.

Jogando como defensor, Ramalho não conseguiu anotar um gol pelo Athletic. Coube a honra, então, a Williams. Filho de pai ganês e mãe liberiana, o atacante nasceu em Bilbao e passou por equipes bascas até se juntar à base dos leones em 2012. Na última temporada, o jogador de 20 anos se tornou artilheiro do Bilbao Athletic, a filial dos alvirrubros que disputa a terceira divisão do Campeonato Espanhol. Ganhou a primeira chance com Ernesto Valverde no time principal em dezembro, a partir da lesão de Aritz Aduriz. Para, enfim, demonstrar todo o seu oportunismo ao abrir o placar contra o Torino.

Tão jovem e com ótimos números na filial (são 13 gols em 18 jogos pela terceirona espanhola), Iñaki Williams possui futuro em San Mamés, por mais que tenha sido alvo de ofensas na internet em seus primeiros jogos. Recebeu o apoio do técnico Ernesto Valverde, que o elogiou seguidamente nas últimas semanas. Mais que um bom jogador, pode se tornar também o símbolo de uma nova era no Athletic Bilbao. E, por mais que a ausência histórica de negros não seja resultado de racismo, que a sua presença mude a mentalidade de muitos torcedores preconceituosos. Afinal, é com gols como o desta quinta que ele cala os que o atacam apenas pela cor de sua pele.


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