Independente de quem ganhasse, a história estaria sendo feita. Al-Quwa Al-Jawiya e Bengaluru disputaram neste sábado, em Doha, a decisão da AFC Cup – competição secundária entre os clubes asiáticos, equivalente à Copa Sul-Americana ou à Liga Europa. Quem vencesse seria o primeiro clube de seu país a erguer uma taça continental. Melhor para os iraquianos, que derrotaram os indianos por 1 a 0. O gol foi anotado pelo camisa 10, Hammadi Ahmed, aos 25 minutos do segundo tempo.

A seleção iraquiana possui no currículo a Copa da Ásia de 2007, além da participação na Copa do Mundo de 1986. Entretanto, os seus clubes bateram várias vezes na trave, desde a década de 1970. Na Liga dos Campeões, Al-Shorta e Al-Rasheed foram vices. Al-Talaba e Al-Zawraa perderam decisões da antiga Recopa Asiática. E mesmo na AFC Cup, os iraquianos haviam se frustrado recentemente, com o Erbil ficando em segundo em 2012 e 2014. Coube ao Al-Quwa Al-Jawiya encerrar a sina de seus compatriotas.

Clube em atividade mais antigo do Iraque, o Al-Quwa Al-Jawiya foi fundado pelo exército em 1931. Desde então, se estabeleceu como uma das equipes mais vitoriosas do país, faturando cinco vezes o Campeonato Iraquiano e quatro vezes a Copa do Iraque. Mesmo vice-campeão nacional em 2014/15, o time de Bagdá garantiu presença na AFC Cup. E o desempenho na competição foi irretocável. A equipe liderou o seu grupo na fase de classificação, antes de eliminar o jordaniano Al-Wehdat, o sírio Al-Jaish e o libanês Al-Ahed nos mata-matas. Já na final, bateram o Bengaluru, potência do futebol indiano, que é estrelado por Sunil Chhetri, maior artilheiro da seleção local.

O grande destaque da competição, entretanto, foi mesmo Hammadi Ahmed. O autor do gol do título balançou as redes 16 vezes no torneio. Deixou sua marca em quase todos os 12 jogos, exceção feita à ida das semifinais. Foi o responsável por 59% dos tentos de sua equipe. O camisa 10 de 27 anos é nome conhecido no país e já disputou 35 partidas pela seleção iraquiana. Esteve, inclusive, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro como um dos atletas acima dos 23 anos.

Os conflitos armados que se deflagram no Iraque, entretanto, também afetam o Al-Quwa Al-Jawiya. Embora a situação em Bagdá atualmente seja estável, com os problemas se concentrando no norte do país, o clube não pôde mandar os seus jogos em casa por questões de segurança. Todas as suas partidas como anfitrião aconteceram em Al-Wakrah, no Catar. “Quando jogamos no Iraque, temos milhares de torcedores nos apoiando nas arquibancadas. Mas perdemos esse vantagem. Mas eu sei que as pessoas continuam nos apoiando. Isso será um presente ao país”, avalia o meio-campista Zahir Midani, em entrevista ao jornal indiano The Hindu.

Isso sem contar a influência psicológica que a guerra exerce sobre o elenco. “O conflito causa efeitos péssimos, mesmo sobre os jogadores. Alguns de seus irmãos e pais lutam pelo exército contra o Estado Islâmico. Quando eles se falam, pedem para que os jogadores conquistem o título, para que possam ter algo a celebrar”, afirma Sattar Jabbar, ex-jogador da equipe e atual assessor de imprensa.

Por conta da conquista, o Al-Quwa Al-Jawiya se garantiu nas preliminares da Liga dos Campeões da Ásia de 2017. Dá esperanças ao país que, embora conviva no dia a dia com o medo dos conflitos armados, tem uma enorme válvula de escape através do futebol. Uma fonte de alívio recorrente, diante do sangue derramado nas últimas décadas. “Todas as pessoas em Bagdá nos desejam sorte através das redes sociais. Esta partida é importante para eles. Então, precisamos ganhar. Se as crianças assistirem à vitória, elas podem querer jogar e talvez a situação do nosso futebol melhore”, aponta o assistente técnico Mehdi Jassim. Que assim seja.