Estamos em meio à disputa do Campeonato Brasileiro Feminino, vivemos neste ano a Copa do Mundo e o Pan-Americano, todas competições importantes da modalidade. A seleção brasileira feminina passou a ser permanente, uma decisão visando aprimorar o time. Com o futebol feminino em pauta, conversamos com Júlia Vergueiro, uma das organizadoras do Pelado Real Futebol & Arte, que organiza peladas (ou pelados, como elas gostam de dizer) para meninas que querem jogar futebol, seja para se divertir, seja para aprender, seja para competir.

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Júlia é uma das responsáveis por trazer para o Brasil, pela primeira vez, o Juventus Camp em edição exclusiva para meninas, que acontece em dezembro em São Paulo. Uma iniciativa pioneira no mundo. Júlia também é uma das responsáveis pelo Dibradoras, um site especializado sobre futebol feminino. A conversa teve muito de futebol feminino, desde seleção até a ideia de jogar futebol para se divertir. Confira a conversa:

Trivela: Como você surgiu a sua paixão por futebol?

Júlia Vergueiro: Eu tenho dois irmãos mais velhos, meu pai e minha mãe também gostam muito de futebol. Futebol sempre foi muito presente na minha família. Meu avô foi jogador profissional. Eu já jogava com meus irmãos e meus primos. Jogar na escola era um pouco difícil, porque nunca tinha campeonato feminino. Joguei sempre com os meninos, nas aulas de educação física, estava acostumada por causa da família. O único campeonato que disputei foi no meu condomínio.

Trivela: Como o futebol entrou na sua vida profissional? Foi um objetivo?

Júlia: Começou principalmente na faculdade, fui da Atlética, diretora de futebol feminino. Sempre me envolvi com isso no tempo que estudei na PUC. Um pouco antes, fiz intercâmbio nos EUA e joguei futebol de campo. Foi quando tive contato com uma organização mais profissional, tinha uniforme, calendário para o ano todo, preparação física, uma comissão técnica. Vi que dava para fazer algo melhor. Quando eu fui trabalhar no Itaú, me engajava muito em organizar e promover os campeonatos de futebol feminino no banco. Ajudava, incentivava. Aí vi que tinha algum talento para isso, organizar jogos, campeonatos de futebol. Eu conheci o Pelado Real como cliente, fui jogar bola com elas, porque me indicaram. Joguei um ano e meio. Pensei: “Por que não me juntar a elas e ajudar a tocar isso aqui?” Tinha muitas ideias e propus a parceria. Dei sorte que na época a Bibi [Martins, outra das sócias] procurava uma sócia. Ela aceitou e assim eu entrei.

Trivela: Uma das reclamações que ouvimos das mulheres é que os clubes não pensam em uma camisa que realmente seja feminina. Você sente isso também?

Júlia: Os produtos não são pensados para o público feminino. Quando é pensado, é mais no sentido de moda, com rosa, às vezes nem remete aos uniformes dos jogadores. Parece que os clubes não acham que as mulheres vão querer usar o mesmo uniforme dos jogadores, e é justamente o contrário. A gente se apaixona pelo futebol e tem os jogadores como ídolos, queremos as camisas que eles usam. Normalmente as meninas compram tamanho infantil. Até a divulgação é normalmente com homens usando. Não se pensa muito nas mulheres.

Trivela: Outra reclamação que se faz é os produtos femininos de clube são muitas vezes voltados à sexualidade, sensualidade. Você concorda?

Júlia: Tem um sexismo muito forte sim. É como se, por ser mulher comprando, ela vai querer que seja sensual, que ela quer algo de futebol para isso. Eles deveriam ter produtos para todos os tipos de públicos. Tem mulher que gosta de camisas mais largas, tem homem que gosta de camisas mais justas. Todas as pessoas deveriam ser atendidas. É até uma questão de negócio que eles não souberam enxergar.

Trivela: Há quem ache que o futebol feminino precisaria ter regras diferentes, como tamanho de trave menor. O que você acha disso?

Júlia: Eu acho que qualquer pessoa que já assistiu jogo de futebol feminino, por exemplo na Copa do Mundo, vê que não há motivo nenhum para isso. Não vejo que isso seria um demérito, porque em outras modalidades existem adaptações. Mas desde sempre o futebol feminino existe, veio com esses padrões. Dizer que “o gol é muito grande” ou “90 minutos é muito tempo” não faz sentido, se olharmos para um campeonato de futebol feminino.

Tavez o problema seja de estrutura de preparação física para as jogadoras, uma questão estrutural, não que 90 minutos seja muito tempo para mulheres jogarem ou porque o campo é grande demais. É porque elas tiveram pouco tempo para dormir, porque as viagens no Campeonato Brasileiro são feitas em cima da hora, porque não tiveram condições de se hidratar, treinar, se preparar. É mais um problema de estrutura do que de uma necessidade de mudança por serem mulheres.

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Dibradoras

Trivela: Quando surgiu o Dibradoras? Qual foi a ideia de vocês?

Júlia: Eu comecei a escrever sobre futebol feminino ano passado, no Torcedores.com. Muito por incentivo do meu irmão, que é jornalista. Como eu já estou inserida no meio do futebol, eu vi a repercussão, muitas meninas me dizendo que finalmente estavam falando de futebol feminino. Inclusive de homens, que nunca acompanharam. Eu mesma não estava tão envolvida com o futebol feminino profissional.

Os portais massificados não falam, só falam de belas da torcida, musas. E os que falam de futebol feminino, falam para um público muito de nicho. Queríamos falar para mais gente. Começamos a escrever, fizemos.

A ideia inicial era produzir conteúdo e no Facebook, uma delas é designer, fez as peças. E começamos a escrever, tivemos uma repercussão muito legal, a página no Facebook cresceu muito rápido. No meio do caminho surgiu o convite para fazer o podcast na Central 3. A gente fez a proposta, eles toparam, e aí que deu um boom, muita gente começou a ouvir, isso repercutiu na Fan Page, no site. Vira e mexe recebemos convite para produzir conteúdo em outros sites e uma coisa foi puxando outra.

Até pelo crescimento da demanda. Hoje somos oito meninas. Começamos a fazer conteúdo em vídeo, que pode ser mais uma forma de falar do assunto. Queremos muito promover eventos, tanto para falar, discutir, quanto para criar espaço para as mulheres se relacionarem com o esporte. Queremos levar as meninas no estádio também.

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Posted by dibradoras on Wednesday, October 7, 2015

 

Trivela: Como você avalia a cobertura do futebol feminino no Brasil?

Júlia: Os que cobrem o fazem sempre em um foco mais apelativo, uma ou outra matéria sobre musa das Sereias da Vila, ou algo muito absurdo pelo lado negativo, como as meninas que desmaiaram no jogo. Não é algo informativo sobre quando vai ser o jogo, ou como foram os jogos. Sempre é pelo lado mais sensacionalista.

Os portais menores cobrem muito especificamente sobre esquemas táticos e apresentação. Fica só no nicho, não consegue trazer algo que não seja o sensacionalista. Poderia trabalhar mais com história, como são os campeonatos. Algo que interesse a todo mundo que goste de futebol.

Trivela: O Campeonato Brasileiro feminino teve uma inovação importante neste ano, o draft com as jogadoras da seleção permanente. O que você achou da iniciativa?

Júlia: Acho que é um modelo, há muitas opções de como fazer, mas para este momento é um modelo interessante e é interessante que a CBF esteja pensando. Eu acho válido, tanto pelo lado das jogadoras da seleção, quanto pelo lado das jogadoras dos times terem a oportunidade de jogarem ao lado de jogadoras da seleção. Porque a gente sabe que é sofrido, a estrutura é ruim, o salário é baixo. É mais uma motivação, é uma forma de ver que a carreira é possível, que dá para ser feliz fazendo isso. Para o Campeonato em geral, sobe muito a qualidade, as jogadas ficam mais organizadas. Para o campeonato em si, leva a outro nível, tanto para as equipes quanto para as jogadoras.

Trivela: O que falta para o Campeonato Brasileiro Feminino? O pode ser melhorado?

Júlia: Em termos de fórmula de disputa, não tem muito o que mudar. Não temos muitas equipes, o campeonato é curto. Talvez fosse interessante se pudesse ser um pouco mais longo, porque para os clubes é difícil ser tão curto, muitos acabam fechando atividades quando acabam. O masculino dura quase o ano inteiro, o feminino dura dois meses. Em termos de número de equipes, já daria para fazer um campeonato maior.

O principal fator a mudar é visibilidade. A CBF tem um papel gigantesco para fazer um lobby para que as emissoras transmitam os jogos. Qualquer esporte que não passe na TV não tem visibilidade. Sem isso, é difícil que o ciclo funcione. A CBF deveria investir muito mais esforços para fazer isso funcionar.

Trivela: Em alguns lugares no mundo, como na Inglaterra, campeonatos menores são vendidos junto com os direitos de campeonatos maiores. Você acha que pode ser um caminho?

Júlia: Esse é um modelo ideal, fazer um pacote. A Fifa mesmo poderia fazer isso, quem transmite a Copa masculina transite a feminina, ou a Uefa com a Champions League feminina também. Basta querer fazer, modelos existem, outros países fazem coisas legais no futebol feminino. Falta propor algo e executar. O próprio Marco Aurélio Cunha, mesmo controverso, está conseguindo algumas coisas. Mesmo que ele não tenha os valores que consideramos ideais e que não concordemos.

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Trivela: Como você avalia a gestão do Marco Aurélio Cunha até aqui?

Júlia: O positivo é a atuação junto à seleção principal. Raramente a seleção tinha a chance de disputar amistosos e campeonatos ao longo do ano. Normalmente só esporádicos. Esse ano não, elas estão permanente lá em Itu, treinando, existe uma rotatividade de jogadoras, jogaram o Pan, a Copa, tem vários amistosos programados. Não sei se isso é algo que é só por causa das Olimpíadas e depois vai morrer. A gente sabe que o foco é a Olimpíada, mas isso de fato tem sido muito bom. Tanto para elas, que tem ganhado físico, quanto para o futebol feminino, como visibilidade.

O ponto negativo é o de valores mesmo, ele tem uma visão que as meninas devem ser mais femininas, se preocupa em mostrar que há jogadoras casadas, com filhos, naquela estrutura tradicional. Quando tem coletiva quer colocar as meninas mais bonitas para falar. Essa é a parte ruim, porque reforça muitas das coisas que combatemos.

Trivela: Quando você acha que teremos uma técnica mulher na seleção brasileira feminina?

Machismo é o principal problema que impede que isso aconteça. As pessoas esquecem um pouco que existem diferenças. Uma coisa é você abrir um curso genérico para treinadores se formarem. Outra coisa é formar um curso mais específico para mulheres serem técnicas.  O machismo já começa aí, na formação. As formadas enfrentam o machismo dentro dos clubes. O futebol gira muito em torno de contatos. Como o futebol é um meio com muitos homens, os contatos são muitos homens também, são pessoas que eles conhecem.

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Pelado Real
"Nem toda menina nasceu para ser bailarina", uma das camisetas do Pelado Real
“Nem toda menina nasceu para ser bailarina”, uma das camisetas do Pelado Real

Trivela: Por que esse nome, Pelado Real?

Júlia: Se os homens jogam a pelada, a gente joga o pelado. O Real foi uma coisa muito besta, logo no começo, no primeiro grupo de formação de times, como o boleiros.com. Primeiro criamos um grupo, depois criamos outro. E aí queríamos migrar. O primeiro era Pelados e o segundo foi Pelado Real, e aí ficou. Aí aproveitamos o nome, o escudo.

Trivela: Vocês já disputaram algum campeonato? Como foi?

Júlia: Foi uma coisa natural, porque tanto eu quanto a Bibi tínhamos um histórico de jogar, jogávamos pela escola, pela faculdade. A gente sabia que a competição seria uma ótima forma de fazer as meninas gostarem mais do esporte, se esforçar mais nos treinos. Foi meio automática, começamos a receber convites e a gente foi. No começo era meio difícil, muita menina era muito iniciante. Essa era uma ideia, iniciar muitas meninas. Hoje temos muitas meninas avançadas, times fortes, que jogam campeonatos.

Trivela: Que tipo de pergunta vocês mais ouvem quando as meninas procuram vocês?

Júlia: A gente mais ouve é um “finalmente achei um lugar para jogar”, que a pessoa procurava muito. Elas têm muito receio de entrar em um time e não ajudar. Será que vou atrapalhar, será que sou boa o suficiente para o time? O que sempre acaba agradando é que dividimos as pessoas pelo nível e pelo perfil, umas mais competitivas, outras mais para brincar. E outras pela técnica, porque elas se sentem mais seguras. E quando começam, elas sentem uma evolução.

Trivela: Como surgiu a separação por níveis?

Júlia: A separação pelos níveis foi pela experiência. Aí percebemos que não dava para ficar misturado, porque tinha muitas diferenças. A partir do momento que teve.

Trivela: Vocês começaram com uma turma, mas hoje já estão em várias turmas. Como aconteceu?

A expansão das turmas em uma região acabou sendo bem automática. Começou na Vila Leopoldina, mas aí depois de termos muitas aparições na imprensa, começamos a ouvir muitos pedidos, de São Paulo inteira. A principal demanda que veio foi mais para a zona leste ou do centro, que ficava longe pra ir para a Vila Leopoldina. Aí propusemos a parceria com o Playball Pompeia. Foi pela demanda, 20 meninas que nos pediram por e-mail e aí fomos criando turmas, em um horário que desse para a maioria. Depois fomos para a zona sul, também por demanda. Hoje são cerca de 250 meninas, em 14 turmas, com em torno de 20 meninas em cada. E tem menina que joga em mais de uma turma.

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Juventus Camp

Trivela: Como se deu a parceria com a Juventus para o Juventus Camp feminino?

Júlia: A gente já tinha ideia de trabalhar com público infantil, desde que entrei no Pelado Real. A gente sempre queria, era uma ideia que eu tinha levado para a Bibi desde o começo, mas ainda não tínhamos nem estrutura, nem braços para isso.Eu fui visitar o Camp da Juventus, porque eu sou muito apaixonada pela Juventus, é o meu time da Europa, por assim dizer. Eles estavam fazendo a clínica na Arena Neymar, onde a gente já jogava também e fui ver se tinha menina jogando.

Aí conheci o presidente da Juventus Camp no Brasil. A ideia era até fazer um Camp para as nossas meninas adultas, mas eles não trabalham com adultas. A gente acabou rechaçada (risos). Mas este ano eu resolvi retomar o contato e ver se existe essa demanda para as meninas. Assim como existe para as adultas na Pelado Real, ter para crianças e adolescentes no Juve Camp. É uma aposta da Juventus, nunca fizeram isso, em nenhum dos 30 países. A gente torce para que dê muito certo.

Juventus Camp

Quando: 16 a 19 de dezembro
Onde: Ipê Clube, R. Ipê, 103 – Ibirapuera, São Paulo – SP
Quem pode se inscrever: Meninas de 06 a 17 anos
Turmas: das 9:00 às 11:00 / 15h30 às 17h30
Inscrições: Até o dia 9 de dezembro, pelo site do Juventus Camp

Juve Camp feminino