Duas Copas do Mundo, cinco Copas Africanas de Nações, uma Copa das Confederações, uma Olimpíada. O currículo de John Obi Mikel fala por si e dimensiona a importância do meio-campista à história da seleção nigeriana. O camisa 10 pode não ter feito parte de gerações tão brilhantes das Super Águias ou provocado os mesmos sonhos de seus antecessores. No entanto, como grande nome do futebol local ao longo da década, liderou a Nigéria rumo ao título da CAN em 2013 e tornou-se o terceiro jogador com mais partidas pela equipe nacional. De um prodígio intempestivo, virou um enorme exemplo aos companheiros por seu talento e por suas atitudes. Assim, aos 32 anos, a despedida do veterano na seleção merece suas devidas reverências.

A primeira competição de Mikel com a Nigéria aconteceu em 2003, quando participou do Mundial Sub-17. Descoberto por um projeto da Pepsi em seu país, naquela época atuava pelo Plateau United, dono de um referendado trabalho de base. A ascensão com as Super Águias abriu as portas na Europa, com a transferência do adolescente ao Lyn em 2004. E foi como jogador do clube norueguês que o meia se tornou um dos juniores mais cobiçados do planeta. Em 2005, impulsionou os nigerianos à decisão do Mundial Sub-20, na qual foram derrotados pela Argentina. O garoto seria eleito o segundo melhor jogador do torneio, superado apenas por Lionel Messi. Na mesma época, recebeu prêmios como o maior talento jovem da África.

O sucesso de Mikel logo se refletiu na seleção principal. Fez sua estreia um mês depois do Mundial, em agosto de 2005, durante amistoso contra a Líbia. Aos 18 anos, teria a chance de compor o elenco na Copa Africana de Nações de 2006. As Super Águias caíram nas semifinais e o novato deu sua contribuição, conquistando seu espaço. Já na sequência do ano, depois de uma intrincada disputa com o Manchester United que teve reflexo até nos tribunais, o Chelsea acertou a contratação do prodígio. Se não foi exatamente um protagonista dos Blues, o meio-campista manteve-se como uma peça importante ao longo de 10 anos no clube, adaptando-se como volante.

O problema é que o sucesso pareceu subir à cabeça de Mikel e ele também acumulou seus problemas na seleção nigeriana. Acusado de simular uma lesão, recusou um chamado ao time olímpico e passou meses suspenso, até retornar à Copa Africana de Nações de 2008. Depois, o meio-campista seria excluído da convocação aos Jogos Olímpicos de Pequim por razões disciplinares. Até voltaria a tempo de mais uma Copa Africana de Nações em 2010, mas perderia a Copa do Mundo por conta das lesões. Só então o amadurecimento pareceu beneficiar o astro, tomando consciência de seu peso à seleção.

O ponto de virada aconteceu justamente na Copa Africana de 2013. A Nigéria não figurava exatamente entre as favoritas ao título, mas fez uma grande campanha. Eliminou Costa do Marfim e Mali nos mata-matas, até a decisão contra Burkina Faso. Pela primeira vez desde 1994, as Super Águias recobraram a glória continental graças à vitória por 1 a 0 sobre os burquinenses – gol de Sunday Mba, mas partidaça de Mikel. O camisa 10 seria eleito o melhor em campo na final e também terminou eleito para a seleção da competição. Aos 25 anos, atingia o reconhecimento que tanto se esperou na seleção. Era o esteio do meio-campo por sua combatividade e também pela qualidade nos passes.

Desde então, Mikel seguiu como a principal estrela da Nigéria. Houve uma lacuna contínua do país na CAN, sem que os nigerianos se classificassem às duas edições seguintes do torneio, em 2015 e 2017. Em compensação, o veterano brilharia em outras frentes. Participou da Copa das Confederações em 2013, arrebentando no torneio, enquanto sua estreia na Copa do Mundo se deu em 2014. Foi um dos melhores jogadores de sua seleção, classificada aos mata-matas pela primeira vez desde 1998. Já a partir de 2016, o volante ganhou a braçadeira de capitão.

)

Mikel voltaria ao Brasil para finalmente jogar as Olimpíadas em 2016. O treinador era o mesmo Samson Siasia que o barrara em 2008. E o exemplo, agora, ia além das quatro linhas. O camisa 10 chegou a desembolsar US$30 mil para auxiliar na conturbada preparação de seu time, durante a qual chegou a faltar comida, transporte e local para treino. O time desembarcou em Manaus apenas no dia da estreia contra a Suécia. Apesar das dificuldades, as Super Águias fizeram uma campanha acima das expectativas e ficaram com o bronze. E Mikel, destaque individual da jornada, comprou outras brigas para encabeçar a seleção. Abriu mão da pré-temporada com o Chelsea para estar no Rio de Janeiro e desagradou o técnico Antonio Conte. Por conta da rusga, não atuou mais pelo clube, despedindo-se dos Blues em janeiro de 2007. Em seu adeus rumo ao Tianjin Teda, escreveu uma bonita carta à torcida.

Já na caminhada à Copa de 2018, Mikel viveu momentos mais intensos. Muitas vezes atuando em posições ofensivas, o meio-campista foi um dos destaques na classificação das Super Águias – em campanha na qual superaram o chamado “grupo da morte” das Eliminatórias, que ainda contava com Argélia, Camarões e Zâmbia. Durante o Mundial, além de servir como principal nome de seu time, o veterano ainda precisou lidar com uma situação delicada. Seu pai chegou a ser sequestrado horas antes da partida decisiva contra a Argentina, no fechamento da fase de grupos.

Pa Michael Obi já havia sido sequestrado outra vez, em 2011. Nesta segunda ocasião, os criminosos exigiram que Mikel não contasse nada às autoridades, cobrando aproximadamente R$110 mil para o resgate. O capitão da seleção preferiu manter o sigilo até mesmo junto aos companheiros, à comissão técnica e à federação, temendo que seu drama pudesse atrapalhar a Nigéria no importante duelo. As Super Águias perderam o confronto e terminaram eliminadas da Copa, mas ao menos o veterano teve seu alívio. Seis dias depois, a polícia libertou seu pai. Torturado, Pa Michael Obi precisou ser levado ao hospital e tomar pontos.

“Eu joguei com meu pai nas mãos de bandidos”, disse Mikel, na época, ao Guardian. “Tive que internalizar o trauma. Recebi a ligação quatro horas antes do começo da partida. Eu fiquei emocionalmente abalado e tive que decidir se estava mentalmente pronto para jogar. Fiquei confuso. Não sabia o que fazer, mas, no fim, sabia que não podia decepcionar 180 milhões de nigerianos. Tinha que bloquear isso da minha cabeça e representar o meu país”. Três meses depois, ele contribuiria a outra Copa do Mundo: o capitão financiou parte da preparação da seleção de amputados no Mundial da categoria, que ocorreu no México.

Depois de deixar o Tianjin Teda e se juntar ao Middlesbrough no início de 2019, Mikel ajeitava o terreno para o adeus da seleção. Teria sua despedida nesta Copa Africana de Nações, de volta ao Egito, onde estreara no torneio em 2006. Mesmo perdendo a posição durante o torneio, o capitão se manteve como um exemplo ao grupo. Outra vez ganharia a medalha de bronze na competição continental, após a vitória sobre a Tunísia nesta quarta. Com 89 partidas pelas Super Águias, atrás apenas de Joseph Yobo e Vincent Enyeama, chegou a hora de parar.

“Minha carreira pela seleção começou em 2003 e sou grato à Nigéria por me colocar no cenário internacional e me dar uma oportunidade de mostrar minha qualidade. Aos 32 anos, é o momento de me despedir e deixar os jovens assumirem, após o ótimo trabalho com o bronze na CAN 2019. Obrigado a todos os torcedores nigerianos e ao meu país por toda a confiança, apoio e amor que vocês demonstraram ao longo dos últimos 16 anos”, escreveu Mikel, em suas redes sociais. O veterano defenderá o Trabzonspor, da Turquia, na próxima temporada.

A superação da imagem intempestiva dos primeiros anos de carreira e a importante liderança nos últimos tempos colocam Mikel em um lugar privilegiado na história da seleção. Não foi um talento arrebatador como Rashidi Yekini, Jay-Jay Okocha ou Nwankwo Kanu. Porém, não se menospreza o protagonismo que teve em grandes campanhas, em especial pelo título continental que o país passou 19 anos sem faturar. Ainda que o sucesso nos clubes tenha sido limitado em relação às expectativas iniciais, a promessa do Mundial Sub-20 se viu cumprida por aquilo que ofereceu às Super Águias. O passado fala por si.