Logo mais, acontecem as semifinais do torneio olímpico de futebol feminino. As americanas, que buscam a quarta medalha de ouro na modalidade, enfrentam o Canadá. Mesmo não sendo as atuais campeãs mundiais, mantêm o status de grande força e carregam grande favoritismo. Não à toa, já que as mulheres só começaram a bater sua bolinha em Olimpíadas na edição de Atlanta 1996 e, desde então, os Estados Unidos só não ficaram no topo do pódio em Sydney 2000, quando acabaram com a medalha de prata, superados pela Noruega. No outro confronto, as japonesas, vencedoras da Copa do Mundo e algozes das brasileiras nas quartas de final, buscam confirmar seu bom momento e encaram as francesas, que também começam a construir uma tradição no futebol feminino.

Ao contrário do torneio masculino, que não tem nem um centésimo da relevância de uma Copa do Mundo, as Olimpíadas ainda são essenciais para as seleções femininas. A última Copa delas foi um sucesso, realizada na Alemanha da agora aposentada Birgit Prinz, que vinha de um bicampeonato consecutivo. Com transmissão de TV e em horários pertinentes, alguns bons jogos chamaram inclusive a atenção do público brasileiro, com destaque para o emocionante confronto entre Brasil e EUA nas quartas de final, que só foi decidido nos pênaltis, e a grande decisão que coroou as nipônicas, impedindo o que seria um tricampeonato yankee. Mas foi nos Jogos Olímpicos que a modalidade verdadeiramente mostrou a sua cara para o mundo. Por isso, o ouro ainda é mais cobiçado do que entre os homens e deve gerar partidas bastante acirradas na tarde de hoje.

Depois desta introdução toda, você deve estar pensando que eu estou ansioso pelos confrontos semifinais. Não estou. Pelo contrário, eu tenho sérias dificuldades em acompanhar um jogo de futebol disputado por mulheres. Mas alto lá: não se trata de machismo. Acho excelente que as moças pratiquem o mais difundido e apaixonante esporte já surgido. Já admirei grandes lances de atletas como Marta, Prinz, Mia Hamm, Cristiane, Homare Sawa e, a mais nova da turma, Alex Morgan (que, além de jogar muito, é um dos mais refrescantes colírios do esporte mundial, em lista onde também ocuparia posição de destaque a sua colega de seleção Hope Solo). E como todo gaiato que se preza, já disse que elas teriam lugar entre os titulares de muitos times de marmanjos, em um misto de reconhecimento e, claro, galhofa. Ou você acha que a Cristiane é pior que o Willian José?

Mas ainda são poucas as jogadoras capazes de dar um bom espetáculo. É bem difícil achar onze acima de qualquer suspeita para formar um time forte. Imagine achar outras onze para também montar um adversário que não faça feio. Os mais afoitos (para não dizer outra coisa) podem sair por aí gritando que mulheres não conseguem jogar futebol. Se não insistirem no desrespeito (mais uma vez, para não dizer outra coisa) e refletirem com mais calma, possivelmente chegarão à conclusão de que o maior problema do futebol feminino é que ele é um esporte preso sob o regulamento de outro. Não é o mesmo jogo feito pelos homens. É pior, mas não precisa continuar sendo. Talvez nunca venha a ser melhor, mas pelo menos pode ser diferente. E, por consequência, desenvolver uma personalidade própria.

Mudanças seriam bem vindas

Se no no vôlei a altura da rede muda para as mulheres, qual é a lógica de manter a barra do mesmo tamanho no futebol? Pobres goleiras. As partidas muitas vezes lembram as de campeonatos de categoria de base, porque as jogadoras, assim como os juniores, não têm o condicionamento físico ideal para correr e preencher um gramado do mesmo tamanho onde os homens jogam. Não se trata de uma diferenciação preconceituosa entre os gêneros, mas sim o reconhecimento de que os corpos são diferentes e as exigências devem ser outras. Na ginástica, um esporte onde o espetáculo das moças dá de goleada no dos rapazes, os aparelhos são bem distintos, voltados para as capacidades delas. Com campos e barras menores, as mulheres poderiam até ensinar uma coisa ou outra aos homens. Atualmente, já dão lição de civilidade esportiva ao não se jogarem a cada trinta segundos para cavar infrações e punições aos oponentes.

Nada disso vai acontecer, claro. Porque o futebol feminino também está nas mãos da Fifa, uma instituição muito moderninha na hora de fazer conchavos e negociatas obscuras, mas bem arcaica na hora de lidar com as regras da modalidade. As mulheres usam as instalações esportivas idealizadas para os homens, o que dificulta que o futebol feminino se torne o que o softbol é em comparação ao beisebol. A Fifa poderia pelo menos testar novidades em jogos disputados por mulheres, onde a pressão vinda de torcedores seria bem menor. Mesmo que novas regras se provassem inadequadas para aplicação no futebol masculino, poderiam ajudar a dar uma nova dinâmica ao desempenho das senhoritas.

Isso tornaria os campeonatos delas mais interessantes e tirariam as mulheres da aba dos marmanjos. A comparação entre o futebol jogado pelos dois gêneros só complica a popularização do feminino. Fazendo uso de uma metáfora carnavalesca: é o que acontece quando as escolas de samba de São Paulo tentam copiar as do Rio, que estão em outro patamar, em lugar de apostar nos eu próprio jeito de fazer as coisas. Não adianta também cair na ilusão de que o futebol feminino possa ter campeonato de clubes muito bem sucedidos e que estes passem a rivalizar em atenção com os jogos da seleção. No Brasil, a modalidade será sempre como o handebol e mesmo os mais praticados vôlei e basquete. O público em geral só acompanhará mesmo a equipe nacional em grandes sorteios, enquanto os mais aficcionados poderão ir além disso, prestigiando um campeonato interno de futebol feminino, nos moldes de uma Superliga ou de um NBB.

Inclusive, seria importante para o futebol feminino que não se dependesse mais da boa vontade dos grandes clubes, pois estes desmontarão os times na primeira oportunidade em que as contas apertarem, como o Santos fez quando sacrificou sua equipe feminina para ajudar a segurar Neymar. O caminho é o do interior. Ou de capitais órfãs de futebol masculino de primeira qualidade, como Brasília, João Pessoa, Manaus, Cuiabá e Aracaju. A ideia de usar o futebol das mulheres como preliminar dos jogos de nossos clubes mais tradicionais é bem intencionada, mas transformar um esporte em aperitivo não é ajudá-lo a se desenvolver, é relegá-lo ao eterno papel de coadjuvante.

Mudando algumas coisas e deixando as mulheres mais à vontade em campo, o nível dos jogos aumentará e mais gente parará para assistir o que elas podem fazer dentro das quatro linhas. Mais meninas sentirão vontade de praticar o esporte e a renovação trará, aos poucos, outras Martas, novas Prinz, muitas Mias Hamms. As seleções nacionais se fortaleceriam, criariam ídolos nos grandes torneios e despertariam a curiosidade natural de acompanhar o que aquelas craques fazem entre uma Copa e uma edição das Olimpíadas. Talvez assim, as jogadoras parem de reclamar, com alguma razão, da falta de apoio. E tais reclamações parem de mascarar problemas como a falta de organização tática e conhecimento dos adversários demonstrada pela decadente seleção brasileira nos Jogos de Londres. Afinal, quem quer se mostrar na vitrine não pode se apresentar atrás de um vidro todo sujo.