Desde que Stamford Bridge se tornou um anexo do império de Roman Abramovich, o banco do Chelsea se consagrou como uma panela de pressão. Roberto Di Matteo foi o oitavo técnico degolado pelo magnata desde 2003, que não se contenta apenas com o brilho dos troféus. Seu sonho é o jogo bonito, ainda que o título mais marcante de sua era não tenha vindo desta maneira. O italiano tentava moldar um time para cumprir os anseios do patrão, mas não resistiu à primeira sequência ruim.

Rafa Benítez foi o substituto escolhido por Abramovich. O bode expiatório da vez chegou já com o rótulo de interino, símbolo da transitoriedade do cargo nos Blues. E, neste início, a cobrança não deverá vir do camarote principal, como de costume, mas sim das arquibancadas. Os torcedores recepcionaram o espanhol sob vaias e xingamentos – curiosamente, interrompidos apenas por conta da homenagem a Dave Sexton, terceiro técnico com mais jogos à frente do clube, falecido no final de semana.

A torcida tem seus motivos para a aversão, remoendo as provocações feitas por Benítez nos encontros recorrentes de Chelsea e Liverpool na Liga dos Campeões. Além disso, pesa o moral que Di Matteo desfrutava em Londres, idolatrado desde os tempos de jogador. A mistura de sentimentos acaba por encobrir a impulsividade de Abramovich, naquela que talvez tenha sido a demissão mais repentina de sua gestão.

Com a paciência cada vez mais curta, o russo apostou na fórmula que, por mais controversa que seja, deu certo nos últimos anos. Sempre que trocou de técnico, o Chelsea terminou a temporada melhor que começou. Avram Grant chegou à final da Champions, Guus Hiddink faturou a FA Cup e Di Matteo combinou o sucesso dos dois. Todos eles com mais de 70% de aproveitamento nos meses seguintes à mudança.

O problema maior de Benítez será assumir um time sem um estilo definido. A falta de preocupação em repor as saídas de Didier Drogba, Romelu Lukaku, Michael Essien e Raul Meireles proporcionou carências graves. Di Matteo tentava remodelar o bonde que levou a Champions em trio elétrico e sai do clube sem concluir seu projeto. E a gota d’água veio justamente quando o italiano demonstrou não ter pulso para bancar sua estratégia, ao improvisar com Azpilicueta e Hazard contra a Juventus, expondo também Fernando Torres em novo jejum de gols.

O único legado positivo do novo time esboçado de Di Matteo é a trinca composta por Mata, Oscar e Hazard. E que também corre riscos de se perder. O meio de campo técnico não funcionou nos últimos jogos, embora não tenha sido o problema mais chamativo no novembro negro dos Blues. Pior foi a vulnerabilidade defensiva, com volantes que ofereciam pouca proteção e uma linha defensiva com erros recorrentes de posicionamento.

Depois de dois dias de trabalho, Benítez foi cauteloso em seu primeiro teste, contra o Manchester City. Manteve o esquema tático, só fez duas alterações significativas entre os titulares (com Torres de volta e Ivanovic deslocado para a zaga) e suas substituições foram pouco criativas. O Chelsea foi burocrático, retraído em seu campo e com poucos jogadores tendo permissão para se mandar ao ataque. A organização valeu o primeiro jogo sem sofrer gols desde o início de outubro. Em contrapartida, com apenas três chances mais claras de gol, o time passou em branco em casa pela primeira vez desde maio.

A compactação e o pragmatismo, aliás, devem ser os lemas da cartilha implantada por Benítez no Chelsea, assim como foi em outros trabalhos, especialmente no Liverpool. A fluidez vista entre Mata, Oscar e Hazard deve ser menos constante nos próximos jogos. Em compensação, os Blues devem ser menos permissivos aos adversários e mais verticais em suas subidas ao ataque.

Com o calendário apertado do fim de ano, o maior intervalo entre jogos do Chelsea em dezembro será de cinco dias, justamente quando o time precisará viajar para a disputa do Mundial de Clubes. Se quiser fazer mudanças, o treinador precisará conciliá-las com três riscos. Pela falta de valor dada ao torneio, um vexame no Japão não deve ser tão impactante quanto a crise atual, assim como a provável eliminação na Liga dos Campeões, que só será surpreendente se não acontecer. Pior será perder o fôlego na Premier League, na qual o United já abre cinco pontos de distância na liderança.

Ao menos a tabela da competição é generosa diante da maratona dos londrinos. São três jogos contra times que tentam se aproximar do Top Four (Fulham, West Ham e Everton) e outros cinco contra quem é ameaçado ou tenta se distanciar da zona de rebaixamento (Sunderland, Aston Villa, Norwich, Stoke e QPR). Desafio grande só no dia 20 de janeiro, quando o Arsenal visita Stamford Bridge.

Sexto técnico com melhor aproveitamento na história da Premier League, mesmo sem nunca ter conquistado o título, Benítez possui a regularidade de seus resultados como credencial para a recuperação do Chelsea.  Só precisa ter em consciência que, pegando uma transformação no meio do caminho, terá que ajustar o time para fugir das oscilações. E que não poderá contar com a paciência da torcida para isso.

Kick and Rush

– O Manchester City fez uma partida tão fraca com o Chelsea, mas também aproveitou o jogo de Stamford Bridge para se refazer dos pesadelos defensivos. Ao menos desta vez Roberto Mancini parece convencido sobre as falhas do sistema com três zagueiros, que custaram o sonho do milagre na Liga dos Campeões.

– A liderança da Premier League caiu no colo do Manchester United, que, depois do susto, teve um estalo para vencer o QPR. Foi a sexta vitória de virada dos Red Devils na competição, mais uma vez alcançada pela efetividade dos substitutos de Sir Alex Ferguson. O “garçom” Rooney também contribuiu, participando das jogadas dos dois primeiros gols graças à precisão nas bolas paradas.

– Já Harry Redknapp vai ter trabalho para mudar a mentalidade do Queens Park Rangers, admitindo até mesmo que este será o maior desafio de sua carreira. Os londrinos até se empenharam em Old Trafford, mas se comprometeram outra vez por conta da falta de organização do time, retraído demais até quando joga em casa.

– O Tottenham interrompeu a série de três derrotas mais uma vez com o selo de qualidade “Bale + Defoe”, autores dos três gols contra o West Ham. A esperança dos Spurs, entretanto, se concentrou na boa atuação de Clint Dempsey, que ainda está devendo em White Hart Lane.

– Sensação da temporada, o West Brom emendou a quarta vitória consecutiva e tomou a terceira colocação do Chelsea. Nesta rodada, os destaques foram Shane Long e Romelu Lukaku, com um gol cada. Os centroavantes dividiram o campo apenas por 31 minutos nesta EPL, mas garante uma boa referência ofensiva em 100% do tempo, com nove gols e cinco assistências.

– O Southampton respirou fora da zona de rebaixamento graças a sua segunda vitória consecutiva, em um convincente 2 a 0 sobre o Newcastle – que poderia ser mais. Engrenando, os Saints começam a deixar a perigo Aston Villa e Sunderland, que ainda não mostraram suas credenciais na Premier League.

– Quem também escapa de maneira consistente é o Norwich, que não perde há seis jogos graças uma fórmula simples: faz o dever em casa e segura o empate fora. No fim, os Canaries arrancaram um ponto importante do Everton em Goodison Park. Os méritos vão principalmente para a defesa, que sofreu só dois gols desde então.

– A Championship tem um novo milionário: o Leeds, vendido para um grupo de investimentos de Dubai. A notícia motivou uma vitória dos Whites sobre o Crystal Palace no final de semana, embora dificilmente esta seja a temporada do retorno. O clube ocupa apenas a 16ª colocação na tabela. Não será nada mal se as petrolibras começarem a fazer a diferença em janeiro.

– E, para quem reclamava sobre a visualização das últimas colunas, elas podem ser conferidas neste endereço: http://trivela.uol.com.br/inglaterra/colunas/