Durante um tempo, o Bayern de Munique ficou conhecido como Hollywood FC. O apelido foi dado pelas costumeiras picuinhas nos bastidores do clube ao longo da década passada, em tempos de craques geniosos. Os sucessos recentes e a chegada de treinadores experientes, no entanto, ajudaram a contornar esses problemas – que voltam à tona diante da falta de pulsos de Niko Kovac e dos resultados ruins ao longo das últimas semanas. A situação é tão patética que nesta sexta-feira a diretoria bávara convocou uma coletiva de imprensa. Uli Hoeness, Karl-Heinz Rummenigge e Hasan Salihamidzic se sentaram diante dos microfones para questionar os jornalistas. O motivo? Acham que as críticas aos jogadores andam sendo desmedidas. Gestão de crise é bobagem, já que o reflexo foi uma enxurrada de críticas ainda maior, ao que soou como uma intimidação à imprensa.

Seria cômico, se não fosse trágico o que ocorreu na Baviera. Rummenigge foi o primeiro a falar. O dirigente disse que o problema ficou evidente depois da derrota da Alemanha para a Holanda pela Liga das Nações e, então, o Bayern resolveu dar um basta. “Estão cobrando demais os jogadores individualmente, especialmente os do Bayern. A dignidade do homem é inviolável. As leis não devem ser diferentes se tratando de futebol, ainda mais na imprensa. Não aceitaremos mais isso, há notícias erradas sobre o clube. Hoje é um dia importante no Bayern, porque não permitiremos que essa cobertura degradante e sarcástica seja oferecida”, apontou o veterano, declarando que o clube começará a processar os jornalistas.

“Parece óbvio que vocês não se preocupam com valores como a dignidade e a decência. Não há limites para as polêmicas. Isso se aplica à mídia e aos comentaristas, acima de tudo aos comentaristas que jogaram neste clube. Vamos proteger nossos jogadores, nosso técnico e nosso clube. Isso não significa que estamos procurando culpados aos nossos resultados ruins, que a culpa disso é da imprensa. Não queremos ser elogiados quando perdemos, ninguém espera isso. Queremos ter relatos sobre o factual”, complementou Rummenigge, aludindo a Lothar Matthäus e Olaf Thon como os tais comentaristas que jogaram pelo clube.

Hoeness, por sua vez, mostrou como há dois pesos e duas medidas. Chegou rebatendo o desrespeito a Joachim Löw e disse que segue apoiando Kovac, apesar das suspeitas de que já planejaria mudanças no clube. Além disso, demonstrou justamente a falta de respeito que Rummenigge condenou. Ao ser perguntado sobre as críticas feitas a Mesut Özil depois da Copa do Mundo, o presidente declarou: “Não deveria ter dito que ele não jogou merda nenhuma, e sim porcaria”. Como se tudo fosse apenas uma questão de palavras.

E pior ainda foi o tratamento dado por Hoeness a Juan Bernat, direcionando uma culpa individualizada ao defensor. A venda do lateral foi muito indagada na Baviera, especialmente nas últimas semanas, quando David Alaba se lesionou e não existia reposição no setor. Tentando esconder o próprio erro no mercado, o presidente quis jogar a culpa sobre o espanhol: “Quando jogamos em Sevilha pela Liga dos Campeões, ele sozinho quase foi o responsável pela nossa eliminação. Naquele dia, decidimos que seria vendido, porque quase nos custou o resultado”. Depois, o cartola bateu boca com um repórter da Sky.

A imprensa, de fato, pode exagerar nas críticas e tal exagero não é exclusividade dos alemães. Contudo, muito mais exagerada é a reação do Bayern ao convocar esta coletiva de imprensa. É como avaliou Jörg Jakob, editor da Kicker, em uma análise especial: “A coletiva de imprensa memorável dos chefes do Bayern foi algo cômico, mas também um sinal: o campeão tão soberano tornou-se vulnerável e seu cobertor é curto”.