O Grêmio sabia que o seu sucesso talvez tivesse um preço. E em um mercado tão feroz na Europa, seria difícil segurar todos os seus destaques durante a janela de transferências. O Spartak Moscou veio com tudo para cima de Luan. Diante do mal início no Campeonato Russo, os atuais campeões nacionais precisavam de uma resposta urgente rumo à fase de grupos da Liga dos Campeões. O atacante viria neste intuito, mas ele resistiu a todas as investidas e propostas. Diante da recusa de Luan, os moscovitas permaneceram na mesa de negociações em Porto Alegre. Acertaram nesta quarta a contratação de Pedro Rocha, em transação estimada em €12 milhões.

Pedro Rocha viveu uma ascensão meteórica em seus anos com a camisa tricolor. Destaque do Juventus na Copa São Paulo, o atacante chamou a atenção dos dirigentes gremistas, que o levaram ao Rio Grande do Sul em 2014. Atuou nas categorias de base, até ganhar uma chance no profissional com Felipão em 2015. O garoto promissor precisou de meses para se firmar na equipe. E mesmo sem gozar de total confiança, mesmo demonstrando algumas deficiências, faria história no ano seguinte. A gratidão dos torcedores por aquilo que aconteceu na Copa do Brasil de 2016 será eterna. Pedro Rocha incorporou a gana do Grêmio para encerrar o jejum de 15 anos sem um título de primeira grandeza. Teve papel importante na classificação contra o Palmeiras. Mas nada se compara ao que aconteceu no primeiro duelo da final, contra o Atlético Mineiro. Dois golaços impregnados na retina de qualquer gremista.

Que fosse apenas um lampejo, Pedro Rocha já teria o seu lugar eterno no imaginário do Grêmio. Mas ele faria mais. Havia quem duvidasse de seu potencial? Sim. Mas Renato bancou o atacante. Deu créditos e incentivou para que ele pudesse evoluir. O jovem passou a trabalhar incessantemente as suas finalizações, carência de seu jogo. Então, o capixaba passou a atravessar um momento ainda mais decisivo. Fez os tricolores sonharem mais alto no Campeonato Brasileiro, na Copa do Brasil e (principalmente) na Libertadores. Foram quatro tentos na competição continental. Em especial, os dois que valeram a benção contra o Godoy Cruz, rumo às quartas de final. Ninguém imaginaria, mas aquele seria o adeus em grande estilo.

Aos 23 anos, Pedro Rocha apresenta toda a vontade e a capacidade de seguir desenvolvendo o seu futebol. É um jogador que sabe se movimentar e criar jogadas para os seus companheiros. Que se empenha muito sem a bola, inclusive na marcação. Tem ótima capacidade física. Vai apurando o seu faro de artilheiro. E mesmo que nem sempre consiga ser tão efetivo nas partidas, é iluminado. Não se trata, porém, de uma questão de mera sorte. A confiança em seu próprio futebol, conquistada no trabalho do dia a dia, é o que acabou se refletindo nos jogos durante os últimos meses – e especialmente em alguns dos mais importantes.

Por mais que lamente a ausência de Pedro Rocha na reta final da Libertadores, boa parte dos gremistas se despedem desejando boa sorte. O atacante poderia também bater o pé contra Spartak? Poderia, mas falar de fora costuma ser simples, quando não se tem dimensão do que passa na cabeça do atleta. E, de qualquer maneira, os tricolores não podem virar suas costas a tudo o que o jovem ofereceu a eles. Se a ambição continental neste momento é tão grande, Pedro Rocha tem sua parte nisso.

O Grêmio pode ter candidatos a ocupar a posição na linha de frente, mas é difícil imaginar outro jogador que entregue o mesmo que Pedro Rocha – em intensidade, em abnegação e em poder de decisão. Algumas características do ataque acabarão mudando. Enquanto isso, o Spartak Moscou faz um ótimo acerto, diante dos valores postos à mesa. A Champions será a maior vitrine ao capixaba, se ele quiser aproveitar o clube russo como um trampolim para centro maiores. Potencial para isso ele tem, especialmente se a sua ascensão continuar em uma curva cada vez maior, como foi nos últimos tempos.