Quando a fase do time não é boa e, a bem da verdade, o próprio time não é bom, resta ao torcedor se agarrar na crença. Agarrar-se na confiança de que o grupo limitado vai se conscientizar sobre suas limitações e terá o espírito necessário para segurar o resultado. Agarrar-se na fé de que um lampejo poderá render o gol. Sobretudo, agarrar-se na esperança de que um herói repentino surgirá. O futebol, afinal, tem alguns de seus episódios mais grandiosos escritos a partir da pequenez. Pequenez esta, ainda assim, que nunca é de espírito. O Corinthians possui seu elenco mais fraco em algum tempo. Não vem em fase boa e muito menos dá sinais de ter uma boa equipe para pensar grande. Mas fica a crença, a confiança, a fé, a esperança. E nesta quarta-feira, em Itaquera, veio também a certeza. Certeza de que, mesmo com um time tecnicamente inferior, o alvinegros podiam ser melhores que o Flamengo, e graças a um salvador. Pedrinho saiu do banco para mudar a história do jogo. Ainda mais xodó da torcida corintiana depois do que fez nestas semifinais da Copa do Brasil: precisou de segundos em campo para, em sua primeira participação no duelo, determinar a vitória alvinegra por 2 a 1. Para levar os paulistas a mais uma final, quando tudo parecia improvável.

Se o Corinthians superou todas as expectativas para conquistar o Campeonato Brasileiro em 2017, misturando uma autoconfiança absurda com a sua eficiência, o cenário se tornou árido ao longo dos últimos meses. A fraca campanha no Brasileirão é a prova disso, assim como a inconsistência em jogos importantes. Após a saída de Fábio Carille, Osmar Loss não durou no cargo. E o próprio Jair Ventura não parece ser capaz de um passe de mágica tão grande assim. No entanto, cumprir seu primeiro objetivo. A final da Copa do Brasil soa como a maravilha de um ano abaixo do que os corintianos vinham vivendo anteriormente. E que contrasta diametralmente com o sentimento que prevalece no Flamengo.

A decisão da Copa do Brasil, se viesse, não pareceria mais do que a obrigação ao Flamengo. É um clube com investimento bem maior em seu departamento de futebol, mas que não sabe montar um time eficiente e nem aproveitar da melhor forma as suas peças. Pior, não se vê tal autoconfiança exalando sobre os rubro-negros, que pressionam no final das partidas mais por obrigação do que propriamente por vocação. Uma equipe sem voracidade, que não depende necessariamente de mais raça, mas carece de clareza para pensar o seu jogo além do trabalho mecânico de trocar passes incessantemente – como bem se viu no 0 a 0 dentro do Maracanã. A classificação na Arena Corinthians até poderia vir, em uma bola fortuita. Não veio, e os alvinegros foram mais conscientes de si.

Sem muitas opções para o ataque, Jair Ventura escalou o Corinthians como dava. Lotou a linha de frentes de meias e pontas, precisando de inteligência para saber o que fazer com a bola. Enquanto isso, em um Flamengo que já sofre com a falta de ideias, há a insistência em jogadores que claramente já se desgastaram, mas voltam a aparecer no 11 inicial em ciclos. Era o caso de Pará e Trauco nas laterais, de William Arão no meio-campo ou de Henrique Dourado no ataque.

O Corinthians começou o duelo empurrado por sua torcida. Um impulso que vinha desde a véspera, quando as arquibancadas lotaram no treino aberto. E continuavam pulsando em alvinegro para mais um jogo, com uma trepidante recepção aos times. Os corintianos tentavam iniciar a partida buscando o ataque. Insistiam nos cruzamentos, o que não parecia a melhor alternativa sem um atacante de ofício. Mas foi assim que uma bela jogada rendeu o primeiro gol, aos 13 minutos. Jadson deu um lançamento primoroso da intermediária. Danilo Avelar se projetou às costas de Éverton Ribeiro e, no rombo deixado por Pará na segunda trave, apareceu livre para fuzilar. Diego Alves tocou na bola, mas não salvou. Já um alívio aos anfitriões.

O problema é que o Corinthians se retraiu demais depois do gol. E o empate do Flamengo seria praticamente instantâneo, aos 17 minutos. Arão deu um ótimo passe a Pará, agora aproveitando as brechas de Avelar. O lateral cruzou e teve a sorte de ver a bola desviando em Henrique antes de entrar. De qualquer maneira, o primeiro tempo continuou tenso. Os corintianos não demonstravam muita capacidade para atacar em velocidade, quase sempre se preocupando mais em marcar do que em avançar. Já os flamenguistas eram estéreis em seu toque de bola pouco funcional, sem conexões, sem que os meio-campistas se aproximassem de Henrique Dourado. Um problema crônico dos rubro-negros, que parece se escancarar mais nas semanas recentes. As emoções eram raras. Digna de nota, a substituição de Fágner por sentir lesão, dando lugar a Gabriel. E dois lances do Fla bem anulados por impedimento, um deles com Dourado balançando as redes. Pouquíssimo a um time que, de novo, controlava a bola e não era incisivo o suficiente, se contentando em vencer na porcentagem de posse.

Independentemente dos receios, os dois times precisariam partir para cima no segundo tempo se quisessem evitar os pênaltis. Virou um jogo mais pegado, mesmo que não fosse tecnicamente bom. Com dificuldades para finalizar, o Flamengo passou a criar um pouco mais nos tiros de longe. O burocrata Diego, em mais uma exibição insossa, quase anotou um belo gol de falta em cobrança fechada, que passou ao lado da meta do Corinthians. Pouco depois, seria a vez de Lucas Paquetá aparecer, um jogador que muito tenta, embora erre mais do que acerte neste segundo semestre. Sua finalização rasteira rendeu uma boa defesa de Cássio. O momento dos rubro-negros era melhor. Prévia das mudanças que ocorreriam.

Primeiro, Diego pediu para sair. Sentiu lesão justamente em momento no qual o Corinthians levava perigo, com Diego Alves socando um cruzamento e Gabriel desperdiçando o rebote. Vitinho entrou em seu lugar e, logo na primeira oportunidade, não bateu com tanta força, facilitando a defesa de Cássio. Já o Corinthians faria sua primeira troca aos 22 minutos. O apagadíssimo Clayson sairia para que Pedrinho, pedido pela torcida, entrasse. Era quem suscitava a tal crença entre os alvinegros. O garoto nem vive a sua melhor fase, mas já bagunçou vários jogos desde 2017 e possui aquele DNA de quem conhece o clube a fundo, de quem ralou no terrão para se profissionalizar. Tinha a tal estrela.

Pedrinho precisou de segundos para resolver. O ataque rápido do Corinthians pegou a defesa do Flamengo aberta. O avanço de Romero pela esquerda deslocou Cuéllar para cobrir o espaço onde Pará não estava. O paraguaio tocou para o meio e, depois do desvio de Jadson, Pedrinho recebeu na meia-lua. O substituto encarou a marcação de Trauco e deu uma finta de corpo. Ajeitou o chute e, mesmo cercado por três adversários, encontrou o mínimo espaço para que a bola passasse. A certeza. Sob as traves, Diego Alves deu um infeliz passo para a direita, tentando visualizar melhor o lance, no exato momento em que o corintiano disparava o gatilho. Quando se movimentou para a esquerda e tentou recuperar, já não teve impulso o suficiente. Ele não conseguiu alcançar a bola no canto. Predestinado talismã alvinegro.

Era tudo o que o Corinthians precisava. Tinha pouco mais de 20 minutos no relógio e um placar favorável para fazer seu jogo, dentro de suas limitações. Pior, o Flamengo sentiu o baque e quase os paulistas ampliaram aos 26 minutos, em cabeçada de Henrique para fora. Já não surgia outra opção a Barbieri senão mudar. Tirou Arão, um jogador de chegada ao ataque, para a entrada de Lincoln. Logo percebeu que deixar Henrique Dourado não adiantaria e apostou em Marlos Moreno. De qualquer maneira, ter jogadores de movimentação na linha de frente não surtiu efeito, quando a equipe pouco se organizava. Paquetá passou a buscar mais a bola atrás, sem acertar muitos lances. Éverton Ribeiro era outro com problemas para encontrar os espaços e criar. E Vitinho, que por enquanto se mostra como um dinheiro jogado no lixo, se repetia como o atleta sem sangue que não buscava um drible e nem tentava chutar de longe.

Preso em seu ciclo vicioso, o Flamengo insistia nas bolas forçadas pelo meio da área. Via os jogadores do Corinthians se desdobrando para fazer cortes providenciais. Era um ataque contra defesa, de fato, mas com pouco para que os rubro-negros se dissessem realmente ofensivos. Insistiam a esmo, esperando que um lance caísse do céu. Os corintianos quase mataram a partida em um contra-ataque, em que Pedrinho cruzou e Léo Duarte salvou. Já na metade do campo onde o jogo acontecia, sobrava aos rubro-negros baterem a cabeça contra a parede. Os chutes de Trauco, Pará e quem mais arriscasse iam tortos demais. Lincoln, que tentou ser o escolhido como ocorrerá contra o Grêmio, foi bem travado. Por fim, o suspiro final aconteceu nos acréscimos. Uma falta erguida na área sobrou a Pará do outro lado e o lateral bateu, em cruzamento que poderia dar sorte. A bola passou longe do alcance de Cássio e estalou a trave. Logo depois, a defesa do Corinthians neutralizou. Centímetros que mudam a história de um confronto, provocando taquicardia em qualquer lado. Mas, ao apito final, permitiu a festa de um Corinthians muito mais ciente de si.

Ao Flamengo, a eliminação soa como mais uma frustração, depois da queda inquestionável na Libertadores. Resta mudar a história no Brasileiro, em um momento no qual o time enfrenta dificuldades para resolver as partidas. Não será fácil transformar o clima nos próximos meses, até porque a pressão sobre Maurício Barbieri é enorme. Ao Corinthians, a presença na final garante um bom motivo para comemorar. O favoritismo estará com o Cruzeiro. Mas diante de todos os prognósticos, quando a situação na Série A pode se tornar complicada sem um pouco de cuidado, a vitória em Itaquera estanca qualquer sangria. E pode render além a Jair Ventura neste começo no clube, em que tenta tapar os buracos de uma equipe remendada.

Por fim, sonho mais vivo é o que experimenta Pedrinho. Dentre todos os jogos importantes que já tinha feito, nenhum se equipara a esta semifinal da Copa do Brasil. Consegue dar energia ao time saindo do banco e, com um toque de talento, fazer a jogada que nenhum outro vinha conseguindo na partida. Já é um lugar especial nas lembranças da torcida, pela classificação emocionante. E poderá ser mais, dependendo do desfecho na competição. Depois de vários pesadelos, é um sopro de tranquilidade que vem daquele que mais representa a fé alvinegra.