É natural criar uma afeição pelos jogadores que surgem a partir das categorias de base. Saber que o garoto, mesmo recebendo um bom salário desde cedo e tendo uma boa estrutura por trás, perseverou durante anos para honrar a camisa no time principal. Além do mais, a eclosão de uma promessa se torna o rito de ver um ídolo surgindo diante dos próprios olhos. E no Corinthians, onde a mística do “terrão” envolve muitos garotos, certamente há uma boa vontade com Pedrinho. O meia não demorou a se tornar xodó dos alvinegros. Pois tem correspondido com grandes atuações e, neste domingo, deixou uma partida para a lembrança. Foi o diferencial na vitória por 1 a 0 sobre o Palmeiras, em um dérbi quente na Arena Corinthians, por todo o contexto recente entre os clubes.

A própria trajetória de Pedrinho, independentemente do clube, merece consideração. Quando tinha 15 anos, o alagoano foi dispensado pelo Vitória e esnobado em testes no São Paulo. Já pensava em desistir da carreira, até ganhar uma oportunidade no Corinthians. E mesmo desesperançoso nos dois dias que passou com os alvinegros, pouco mais de cinco minutos bastaram para convencer os avaliadores da base. Então, o garoto tratou de agarrar a chance, brilhando desde cedo. O título na Copa São Paulo, ano passado, valeu a sua ascensão aos profissionais.

A exaltação a Pedrinho se conquistou aos poucos junto à torcida do Corinthians. Em seletas aparições no Brasileirão de 2017, teve sua contribuição ao título, principalmente pela forma como bagunçou o difícil jogo contra o Botafogo. Depois, virou um talismã ainda maior no Paulistão. E dentro do trabalho de fortalecimento feito pelo clube, uma preocupação clara de Fábio Carille em suas entrevistas, o novato ganhou sua primeira sequência como titular nesta semana. Disputou 80 minutos do jogo contra o Ceará e 75 em sua “revanche pessoal” contra o Vitória, quando quase marcou um golaço. Já no Dérbi, foram 87 minutos bastante intensos a Pedrinho.

Em um primeiro tempo bastante travado, com o Corinthians mantendo o seu tradicional pragmatismo e o Palmeiras pouco se expondo, a emoção começou mesmo depois dos 35 minutos. E a falta de precisão de Thiago Santos, acertando a trave de Cássio, logo se transformou em pesadelo por conta de Pedrinho. A jogada do gol do Corinthians teve todos os méritos do jovem. Com uma sequência de dribles, o meia passou como quis por Thiago Santos e Bruno Henrique, gerando a vantagem numérica aos alvinegros. Ainda assim, o lance necessitou da calma de Jadson, do apoio de Maycon e do oportunismo de Rodriguinho, que terminou por balançar as redes. Mas nas arquibancadas, o nome que ecoava era o de Pedrinho, logo respondendo com o chapéu aplicado sobre Diogo Barbosa.

No segundo tempo, o Palmeiras tentou sair mais ao jogo e criou incômodo nos primeiros minutos, com Bruno Henrique carimbando a trave mais uma vez. Só que logo o Corinthians cresceria e passaria mandar nas ações. Pedrinho era fundamental neste trabalho, por seus avanços pela direita. Não à toa, o duelo do garoto com Jaílson se tornou uma das principais nuances do Dérbi. O goleiro salvou um chute de primeira do meia, após grande jogada de Maycon, e depois buscou na gaveta um ousado arremate do bico da grande área. Aos 42, por fim, o xodó saiu aplaudidíssimo pela torcida em Itaquera. Do banco, ainda viu Antônio Carlos acertar a trave pela terceira vez, em uma tarde que definitivamente não era dos alviverdes.

Dá até para discutir se Pedrinho foi o melhor em campo. Maycon teve uma atuação muito dinâmica no meio e Jadson ajudou a ditar o ritmo. O próprio coletivo funcionou bem, com Carille avaliando esta como a melhor partida da equipe em 2018. De qualquer maneira, o grande diferencial veio do garoto, que desequilibrou quando necessário e poderia ter marcado o seu. Se já cumpre o requisito de ser um prata da casa, o alagoano subiu mais um degrau em sua escalada rumo à idolatria, tendo um Dérbi para chamar de seu. Quando se lembrarem desse jogo, os corintianos provavelmente falarão da partida em que o menino infernizou os rivais.

Há muito a Pedrinho amadurecer, como o próprio aspecto físico ou a maneira como ele se apresenta à partida. Mas a velocidade de raciocínio e a qualidade técnica, desde já, são virtudes que o jovem não tem travas para utilizar. Em um time bem montado como o Corinthians, que por vezes sofre com os jogos mais fechados, esta imprevisibilidade é importantíssima. Com certeza, um trunfo a mais à equipe que vem forte nas três frentes que disputa na temporada. É um toque de malícia ao estrategismo alvinegro.