O Valencia se afundou numa grande crise institucional justamente depois de conquistar o seu primeiro título na década. A prioridade dada à Copa do Rei não comprometeu a classificação à Liga dos Campeões, mas criou um atrito entre o técnico Marcelino García Toral e a diretoria dos Ches, que preferia ver o time com reservas na reta final da competição nacional. Diante da falta de investimentos no elenco e da possibilidade de vender jogadores-chave, a situação se deteriorou nos meses seguintes à taça e o treinador acabou demitido. Desde então, o Mestalla virou palco de intensos protestos, que pedem a saída de Peter Lim (o acionista majoritário do clube) e de seus homens de confiança na direção. Uma queda de braço que rende cenas vexatórias dos cartolas.

Durante o último sábado, o Valencia recebeu o Alavés pelo Campeonato Espanhol. Os torcedores aproveitaram a ocasião para clamar contra Lim e o presidente Anil Murthy. Dentro de campo, a equipe treinada por Albert Celades cumpriu sua parte, ao vencer por 2 a 1. Todavia, Murthy perdeu totalmente sua compostura ante as críticas. Pediu silêncio à torcida e mandou se sentarem, mais parecendo um déspota à frente de seus subalternos. Ouviu mais vaias e causou um visível desconforto nos demais dirigentes ao seu lado na tribuna – entre eles o diretor esportivo Mateu Alemany, outro a entrar em rota de colisão com Peter Lim.

Murthy não é inocente, embora também seja vítima das tensões ao redor do Valencia. Após a notícia de que o clube teria cortado o apoio prometido ao ex-goleiro Santiago Cañizares numa campanha para arrecadar fundos a crianças com câncer, em represália às críticas feitas pelo agora comentarista à gestão dos Ches, o presidente recebeu ameaças de morte anônimas em seu celular. Logo depois, o Valencia comunicou que já havia reportado o caso à polícia e prometeu processar os responsáveis. No entanto, Murthy não se ajudou ao seguir provocando os torcedores. Como resposta, ouviu o Mestalla também cantar o nome de Cañizares e homenagear o antigo ídolo.

Horas depois do jogo, Murthy falou sobre o episódio em suas redes sociais. E a explicação soou mais como um cinismo: “Quero esclarecer que os gestos de hoje no estádio só buscavam uma coisa: pedir calma e pedir especialmente à torcida, à qual tenho máximo respeito, que dirigisse seus esforços a ajudar o time em campo, durante um momento de dificuldade em busca da importante vitória conquistada”. Nada inteligente a quem, antes de assumir o Valencia, trabalhou por 16 anos como diplomata do governo de Cingapura.

Já nesta terça, Murthy se reuniu com os funcionários do Valencia. Queria transmitir uma mensagem de “unidade e tranquilidade”. Afirmou que a imprensa está contando mentiras sobre o clube e disse que o caso de Cañizares foi “fake news”, embora o goleiro tenha fechado seu projeto com o Real Madrid. Quando abriu espaço a perguntas, o presidente apenas ouviu o silêncio dos funcionários, o que demonstra a falta de confiança nos bastidores. A reunião terminou em apenas meia hora.

Além do mais, a rádio Onda Cero afirma que os dirigentes do Valencia solicitaram que a transmissão oficial do Campeonato Espanhol não exiba os protestos contra o clube. Os cartolas teriam contatado a Mediapro, empresa responsável pela geração de imagens, e pediram para que não se cubra as manifestações durante as partidas. A postura enfatiza a intransigência e o autoritarismo ao redor do Mestalla. E, perante a falta de diálogo, a voz dos torcedores tende a se tornar ainda mais audível a cada compromisso em casa.