A revista Corner criou uma campanha que está ganhando repercussão pelo Brasil. Com a hashtag #pedea24, a revista publicou em suas redes sociais um manifesto contra a homofobia. A iniciativa é um movimento para quebrar um tabu do futebol, que associa o número 24 a homossexuais, de forma pejorativa. Quem assina o texto do manifesto, que terá espaço na edição #9 e tem chamada no Instagram no fim do texto, é o craque Mauro Beting, editor da revista. E que nós, aqui na Trivela, reforçamos.

A campanha repercutiu. No programa Redação, do SporTV, foi mostrada uma camisa da campanha, assim como no programa Jogo Aberto, da Band. Diversos jornalistas aderiram à campanha, como Milton Neves, PVC, Juca Kfouri, Bruno Formiga, Bruno Vicari, Ivan Bruno, Renato Peters, Paulo Soares, Gabriela Nolasco, Isabelly Morais, Fred Caldeira, Bolívia, do Desimpedidos e outros, capitaneados por Mauro Beting.

A discussão existe há muito tempo no futebol, mas ganhou muita repercussão com a contratação do meio-campista Victor Cantillo. O colombiano foi instruído a não vestir a camisa 24, número que usava no Junior Barranquilla, porque no Brasil era associado a homossexuais. Recebeu a camisa 8 na apresentação e o diretor do Corinthians, Duílio Monteiro Alves, disse “24 aqui não”. Justificou dizendo que era uma homenagem a Rincón, colombiano que vestiu o mesmo número no clube alvinegro. A ação do dirigente rendeu muitas críticas e trouxe o tema ao centro do debate.

Depois, Duílio admitiu o erro e pediu desculpas em um vídeo divulgado em suas redes sociais. O Corinthians decidiu, semanas depois, trocar o número do colombiano. Da sua apresentação, no dia 10 de janeiro, até a sua estreia oficial, no dia 30 de janeiro, contra a Ponte Preta, em derrota por 2 a 1. Em vez da camisa 8, vestirá o número 24, como tinha pedido inicialmente, na estreia dele pelo Campeonato Paulista – e estreia em jogos oficiais. O clube decidiu que ele passaria a vestir este número em todas as competições. Sentiu a pressão de uma discussão que se tornou pública e fez o clube ter que se posicionar e responder sobre a questão várias vezes.

O tabu do número 24

O número 24 é comumente associado a homossexuais no Brasil, em uma associação que remete ao Jogo do Bicho, jogo ilegal que existe desde o fim do século XIX. O 24 representa as dezenas correspondentes ao animal veado por ser o 24º grupo. Por sua vez, o animal é associado a homens homossexuais. Uma reportagem do Esporte Espetacular do dia 19 de janeiro mostra como há um estigma forte sobre o número no futebol brasileiro.

O futebol não é um caso isolado. É uma reprodução do que acontece na sociedade. Em 2015, o Congresso Nacional tirou o gabinete de número 24. Simplesmente não existe. Um ambiente majoritariamente masculino e que não parece aceitar qualquer coisa que seja minimamente associada aos homossexuais. Uma masculinidade mais frágil que papel molhado.

Como os clubes passaram a adotar numeração fixa nos últimos anos, esse é um número sempre evitado. Mesmo quando é obrigatório usá-lo, como nas competições da Conmebol (que exigem numeração consecutiva, de 1 a 25 nas fases preliminares e de 1 a 30 a partir da fase de grupos). A estratégia que a maioria dos clubes usava para inscrever um jogador com a 24 era colocar no terceiro goleiro, ou um jogador que tenha pouca chances de entrar em campo.

Foi o que aconteceu com Cássio, então terceiro goleiro do Corinthians, na Libertadores de 2012. O 1 era Júlio César, o 12 era o meia Alex e o 22 era Danilo Fernandes. Cássio recebeu a 24, porque o terceiro goleiro é um jogador com poucas chances de entrar. Acabou que ganhou a posição e jogou, a partir das oitavas de final, com esse número até a final. Logo depois da Libertadores, porém, ele assumiu a camisa 12, após a saída de Alex do clube. Nos demais campeonatos, ninguém vestia a 24.

O mesmo aconteceu com o Flamengo em 2019. Na lista de inscritos na fase de grupos, o camisa 24 era Thiago Rodrigues, quarto goleiro, que é da base. Nas oitavas de final, quando é permitido fazer alterações na lista, Thiago Rodrigues saiu e entrou Pablo Marí. O jogador inscrito precisa, necessariamente, ter o mesmo número do jogador que saiu. Por isso, Marí usou a camisa 24. No Campeonato Brasileiro, jogava com a camisa 4.

Bahia promove o #NúmeroDoRespeito

O episódio sobre a camisa de Cantillo e a declaração do dirigente corintiano colocaram luz sobre uma questão que é frequentemente motivo de debate. Homofobia, afinal, ainda é um problema sério quando se trata de futebol. O Bahia, clube que tem feito muitas ações afirmativas em prol de minorias, foi o primeiro clube a tentar quebrar o estigma do número. No jogo contra o Imperatriz, no dia 28 de janeiro, o meio-campista Flávio, que normalmente veste a camisa 5, usou a 24. com a hashtag #NúmeroDoRespeito. Foi feito também no Campeonato Baiano, que o time sub-23 é quem tem jogado.

A ação foi abraçada pela Brahma, parceira do clube baiano e que tem atuação forte no futebol, que convidou outros clubes para participarem da ação #NúmeroDoRespeito. Flamengo, Vasco, Botafogo, Fluminense e Santos foram os primeiros a aderirem. O Santos escolheu o garoto Tailson para vestir a camisa 24. Gabigol, do Flamengo, também usará a camisa 24 simbolicamente no jogo do próximo sábado, pelo Campeonato Carioca, contra o Resende. Botafogo e Vasco também fizeram manifestações em redes sociais a favor do número do respeito. O Fluminense decidiu adotar o número 24 para Nenê na Sul-Americana – onde é obrigatório inscrever jogadores com numeração de 1 a 30.

“O futebol é um canal que pode servir para acentuar o que há de pior na nossa sociedade, como o racismo, as agressões, a violência e a intolerância, mas também pode servir de uma forma diferente – para espalhar cultura, afeto, sensibilidade, melhoria das relações humanas. Por isso é importante ter um parceiro tão identificado com o futebol, como Brahma, para ampliar essa mensagem. Achamos que os clubes têm de escolher se serão canais de amor ou ódio. Escolhemos o amor”, disse Guilherme Bellintani, presidente do Bahia, na ação divulgada pela cervejaria.

É importante que os clubes e as marcas também abracem esse tipo de ação. É parte do papel social dos clubes incluírem as pessoas, abraçar seus torcedores e justamente buscar melhorar a sociedade. Afinal, os clubes são associações, são eminentemente sociais, que existem por causa da torcida. E mesmo que um dia cheguem a virar empresa, nunca podem esquecer que ao contrário de outras empresas, vivem por causa dos torcedores. Que as marcas continuem entrando nas questões como a Brahma fez neste caso e como tem se tornado mais comum. O futebol é de todos, mas precisa que os clubes garantam isso com ações afirmativas.

É preciso quebrar o estigma

Esse tipo de iniciativa é importante, com uma estrela vestindo a camisa 24 para chamar a atenção que não há nenhum problema com o número. Os jogadores por vezes escolhem números altos, como Hudson com a camisa 25 (e Dagoberto, antes dele, com este mesmo número), Pedrinho, que vestiu a 38 até o fim de 2019, ou mesmo Felipe Melo, do Palmeiras, que veste a 30 desde que chegou. O 24 tem que ser um número comum, como qualquer um desses outros.

Esse tipo de piada é nociva ao futebol. O esporte não tem restrições, mas esse tipo de estigma afasta as pessoas do esporte. O futebol tem que ser inclusivo, tem que abraçar todos e permitir que todos possam ser felizes acompanhando seus times de coração. Que sejam bem-vindos no estádio e em qualquer lugar que o clube esteja. Quando usamos a sexualidade como motivo de ofensa, estamos reforçando que essas pessoas não deveriam estar ali. Isso, definitivamente, não cabe mais no futebol – e na sociedade.

Veja o manifesto da Corner abaixo e aproveite para conhecer os planos de assinatura da revista. São três planos: Digital mensal (R$ 7,99 por mês), Digital anual (R$ 59,99 por ano) e Edições impressas (4 edições/2020) + versão digital (R$ 159,99 por ano). Clique aqui e saiba mais.

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Na próxima #corner, por @maurobetingoficial #PedeA24

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