Assim como na temporada passada, o Betis faz um excelente início de Campeonato Espanhol. Ocupa a quarta colocação com 19 pontos e tem mostrado um time organizado na defesa, habilidoso no meio-campo e capaz de decidir nos contra-ataques. Às vésperas do clássico local contra o Sevilla, a equipe só fala em vencer para se recuperar da derrota para o Granada por 2 a 1 na última rodada e manter contato com os líderes, além de continuar à frente do Málaga, quinto colocado.

Um dos principais jogadores do time é o zagueiro Paulão. Revelado no Atlético Mineiro em 2000 e pouco conhecido no Brasil, ele fez fama no Campeonato Português atuando por Naval e Braga, passou pelo Saint-Étienne e chegou ao Betis em 2012. Praticamente imbatível no jogo aéreo, o jogador de 30 anos se firmou rapidamente no time titular e já soma até dois gols na temporada, algo relativamente raro em sua carreira. Em entrevista à Trivela, ele fala sobre diversos assuntos importantes, como a crise econômica que assola a Espanha, a força de Barcelona e Real Madrid e as possibilidades do Beti na temporada. Confira.

O Betis faz uma boa campanha, mas foi derrotado em casa pelo Granada na última rodada. Como você analisa o atual momento da equipe?

Sabemos que fizemos um jogo ruim contra o Granada, mas já conversamos sobre isso e vamos buscar a recuperação já no clássico contra o Sevilla. Tivemos sorte, porque o Málaga também perdeu e conseguimos nos manter na quarta colocação, mas não podemos mais vacilar desta maneira. Creio que a equipe está focada para voltar a vencer rapidamente.

O Betis ocupa a quarta colocação. É possível sonhar com Liga dos Campeões ou os objetivos da temporada são outros?

O primeiro objetivo é ficar na primeira divisão. Depois que a permanência estiver garantida, vamos ver aos poucos o que dá para buscar. Sabemos que o campeonato está apenas começando e temos que manter os pés no chão para não sermos surpreendidos. O Campeonato Espanhol é muito difícil, equilibrado, e precisamos sempre estar atentos.

A Espanha atravessa uma crise econômica fortíssima, talvez a pior de sua história. É possível enxergar isso no dia a dia do Betis e da cidade de Sevilha?

Na cidade sim, é fácil perceber que a Espanha passa por uma crise fortíssima e as pessoas estão com muitas dificuldades. Mas no futebol isso não se reflete. Os clubes da primeira divisão precisam ter, antes da temporada começar, todo o dinheiro da folha salarial do ano todo disponível em caixa. Se isso não acontecer, é rebaixado. Por isso, recebemos em dia aqui no Betis e o impacto da crise nos times de futebol aqui é bem menor. Não nos falta nada por aqui.

Com a bipolarização da disputa do título entre Barcelona e Real Madrid, muitas pessoas falam que o nível dos outros clubes espanhóis é baixo. Você concorda com isso.

Não. Barcelona e Real Madrid estão em um nível acima e é muito difícil competir com eles, não há como contestar isso. Mas não são apenas os clubes espanhóis que estão muito abaixo deles. É o mundo inteiro. Uma prova disso é o Santos, que era tido como o melhor time do Brasil e tomou 4 a 0 do Barcelona no Mundial de Clubes, fora o baile. São dois timaços, e realmente é complicado jogar contra eles.

Você fez parte do Braga que foi vice-campeão da Liga Europa e teve a chance de continuar no clube com a saída do peruano Alberto Rodríguez para o Sporting. Por quê você trocou um clube de ponta em Portugal por uma equipe de meio de tabela, como o Saint-Étienne em 2011?

Tive várias propostas, inclusive a de renovar com o Braga mas buscava um novo desafio. A Ligue 1 é mais competitiva do que o Campeonato Português, e eu achava que, por ser um clube histórico, o Saint-Étienne seria o lugar ideal para jogar por lá. Mas me decepcionei muito.

Como assim?

Cheguei lá com minha família e o clube não ofereceu a mínima estrutura para mim, não colocou nenhum intérprete à disposição. Tive que resolver muitas coisas sozinho, sem saber falar o idioma e sem o apoio de ninguém. São coisas que parecem pequenas, mas fazem muita diferença no fim. Mas o que importa é que tive a oportunidade de vir para o Betis e estou muito feliz aqui.

Você já atuou em Portugal, França e Espanha. Como é a vida de um zagueiro nesses três países?

Aqui na Europa tudo é tática. Eles valorizam muito a parte tática. Na França é mais tranquilo, porque as equipes são mais defensivas, e os atacantes não têm tanta qualidade. Aqui na Espanha, às vezes você precisa marcar um Messi, um Cristiano Ronaldo, ou um Falcao, e as coisas se complicam um pouco mais (risos).

Um jogador do Betis sobre o qual se fala muito é o Beñat, que é visto no Barcelona como um possível substituto para Xavi. Como ele é dentro de campo e no dia a dia?

O Beñat é um cara muito humilde, e precisa ter paciência, pois não é da noite para o dia que se torna um grande jogador. Mas ele tem muito talento, e se continuar trabalhando forte o momento dele vai chegar

Pensas em voltar ao Brasil? Já apareceu alguma proposta?

Sim, já tive propostas, mas é difícil falar isso, porque a gente dá entrevista, e qualquer coisa nesse sentido ganha uma repercussão grande. Mas sim, tenho vontade de voltar ao Brasil, porque agora é mais fácil jogar. Quando subi no Atlético Mineiro, o time tinha Gilberto Silva, Célio Silva, Caçapa, então era muito complicado. Hoje eu acho que é bem mais tranquilo e eu teria mais espaço.