Por Marcus Vinícius Garcia

Quando o Tottenham entra em campo liderado pelo goleiro vestindo a camisa verde, os torcedores mais antigos se lembram de uma lenda. Eles se lembram de Patrick Anthony Jennings, conhecido mundialmente por Pat Jennings, ou simplesmente “Big Pat” – o melhor goleiro que vestiu a camisa dos Spurs e um dos melhores goleiros que o Reino Unido e o mundo já viram. Esguio, de mãos grandes, ele revolucionou a forma de atuar na posição com as famosas defesas de mãos trocadas e em dois tempos, dando um tapinha na bola antes de segurá-la definitivamente.

Nascido na cidade de Newry, sul da Irlanda do Norte, começou sua precoce carreira aos 16 anos num clube local. Em 1963, o jovem goleiro deixou o Newry City FC ao ser contratado pelo Watford, um clube de terceira divisão do futebol inglês. Nos Hornets, o goleiro atuou por um ano (48 jogos), tendo seu talento reconhecido por um grande clube, o londrino Tottenham Hotspur. Contratado aos 19 anos, por £ 27.000, Jennings chegou ao White Hart Lake – a casa dos Spurs – para fazer história. Em 13 anos no clube, ele atuou em 472 partidas, conquistando uma Copa da Inglaterra em 1967, uma Supercopa da Inglaterra no mesmo ano, duas Copas da Liga Inglesa em 1971 e 1973 e uma Copa da UEFA em 1972. Foi eleito o “Futebolista do Ano” na temporada 1972/73 pela FWA (sigla em inglês para Associação dos Cronistas Esportivos) e o PFA (Player of The Year – O jogador do ano) em 1975/76 pela Associação de Jogadores Profissionais da Inglaterra. Jennings foi o primeiro jogador a receber os dois prêmios mais importantes do futebol inglês. Em 1976, foi agraciado com a condecoração de MBE (Membro da Ordem do Império Britânico), um dos maiores títulos concedidos pela realeza britânica, por sua reputação dentro e fora dos gramados.

Não foram só defesas incríveis que caracterizaram a passagem de “Big Pat” com a camisa dos Spurs. Em 12 de agosto de 1967, contra o Manchester United de Matt Busby na disputa do FA Charity Shield (a Supercopa da Inglaterra), Jennings marcou um gol antológico: depois de fazer a defesa, ele deu um chutão para o ataque. O chute foi tão forte e preciso que encobriu o goleiro Alex Stepney. A partida terminou em 3×3 e os dois clubes dividiram o título.

Em 1977, o Arsenal – maior rival do Tottenham – levou o goleiro para Highbury. O presidente dos Spurs Keith Burkinshaw resolveu liberar o atleta acreditando que Jennings, com 32 anos, já tinha feito história e que estava em fim de carreira. Grande engano! Como de costume, “Big Pat” fez história também nos Gunners, atuando por nove temporadas (237 partidas) e conquistando uma Copa da Inglaterra em 1979. Jogou por lá até o ano de 1985. Com 40 anos, decidiu abandonar a carreira profissional por clubes e se dedicar somente à seleção. Após encerrar o vínculo com o Arsenal, retornou ao Tottenham para se condicionar fisicamente até o início da Copa do Mundo no México em 1986.

Em 2008, foi feita por torcedores associados do Arsenal, uma seleção dos 50 maiores jogadores que atuaram nos Gunners. Pat Jennings foi eleito o 10º maior jogador da história do clube, atrás de nomes como: Thierry Henry, Dennis Bergkamp, Tony Adams, Ian Wright, Patrick Vieira, Robert Pires, David Seaman, Liam Brady e Charlie George.

História com seu país

Jennings estreou na seleção da Irlanda do Norte no ano de 1964, aos 18 anos, numa partida válida pela British Home Championship (Torneio britânico entre seleções). Junto dele, outra lenda irlandesa: George Best. Vitória sobre País de Gales por 3×2. Em 22 anos de seleção, Pat jogou 112 partidas, com duas copas do mundo no currículo (82 e 86). Na Copa de 86, o goleiro bateu um recorde: foi o jogador mais velho a atuar num Mundial. Ele estava com 41 anos e sua última partida internacional (e também da sua longa carreira) foi contra o Brasil, pela 1ª fase – e foi dolorosa para ele, pois a Irlanda do Norte foi eliminada após a derrota por 3×0. Seu recorde durou por oito anos, sendo superado pelo camaronês Roger Milla na Copa dos Estados Unidos em 1994. Ele estava com 42 anos e 39 dias.

Mas outro recorde permanece: Pat Jennings é o único jogador que detém o maior número de participações em Mundiais (incluindo as eliminatórias). São seis no total: 1966, 1970, 1974, 1978, 1982, 1986. Esta marca já foi igualada pelos jogadores de Trinidad e Tobago Dwight Yorke e Russell Latapy que disputaram em 1990, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010.

Após sua aposentadoria, Jennings trabalhou como treinador de goleiros no Tottenham em 1993. No ano de 2003, o norte-irlandês foi incluído no Hall da Fama do futebol inglês pelos serviços prestados ao esporte mais popular do país. Em 2007 foi à vez dos Spurs incluir o ex-goleiro no seu Hall da Fama, como um dos maiores que passaram por White Hart Lane. Hoje, aos 65 anos, vive em Londres, onde trabalha em eventos relacionados ao futebol e ao Tottenham.