A partida desta segunda-feira pelas Eliminatórias Europeias entre Bulgária e Inglaterra era de risco. O estádio Vasil Levski, em Sofia, já estaria parcialmente fechado por ofensas racistas da torcida da casa contra República Tcheca e Kosovo, em junho, e a última vez que os ingleses jogaram na cidade, em 2011, houve preconceito direcionado a Ashley Young, Theo Walcott e Ashley Cole. E o risco se cumpriu.

Ao longo do primeiro tempo, houve saudações nazistas e audíveis gritos de macaco enquanto a Inglaterra enfileirava gol atrás de gol para eventualmente vencer por 6 a 0. Na etapa final, depois de duas paralisações e grandes grupos de locais vestidos de preto saírem do estádio, os ânimos se acalmaram, embora ofensas racistas continuassem a serem ouvidas.

Foi uma oportunidade para, enfim, uma partida ser abandonada de vez por causa de racismo, mas o time inglês decidiu continuar em campo e terminar a partida. Se os jogadores negros afetados pelas ofensas foram ouvidos e tiveram peso no que ficou concordado, a decisão é mesmo da equipe, embora o problema esteja, há algum tempo, em um ponto no qual medidas drásticas são necessárias.

Antecipando problemas, jogadores da Inglaterra e o técnico Gareht Southgate reuniram-se durante a semana passada para deixar alinhado o que fariam em caso de novas ofensas racistas, como na viagem a Montenegro, em março. A Uefa tem orientações. Um protocolo de três passos: primeiro, uma rápida paralisação seguida de anúncio nos alto-falantes; segundo, os jogadores retiram-se aos vestiários para uma pausa mais longa e um segundo alerta sonoro de que a partida pode ser abandonada se não houver uma mudança de atitude; terceiro, fim de jogo.

Tammy Abraham relatou que os jogadores haviam decidido em grupo abandonar o gramado, caso fossem alvos de racismo, e deixou aberta a possibilidade de sequer seguir os três passos do protocolo. Houve reação por parte da Bulgária, com o seu treinador Krasimir Balakov dizendo que o problema é pior na Inglaterra do que na Bulgária – e, sem entrar no mérito da comparação, o problema está realmente grave no Reino Unido.

A partida entre Bulgária e Inglaterra chegou mais ou menos ao primeiro passo e meio. A paralisação número um aconteceu por volta dos 28 minutos da etapa inicial, com a Inglaterra vencendo por 2 a 0. Tyrone Mings e Raheem Sterling pareciam os alvos preferidos. Foi realizado o alerta pelos alto falantes, mas, quinze minutos depois, a bola novamente parou.

Esse seria o momento de os jogadores deixarem o campo para o segundo anúncio nos alto-falantes – parênteses: a Uefa parece colocar muita fé no poder de anúncios em alto-falantes – e pareceu que isso aconteceria quando Jordan Pickford pegou sua toalha e se dirigiu à lateral do gramado, junto com seus companheiros.

Paralelamente, os grupos de torcedores vestidos de preto deixavam as arquibancadas, e Gareth Southgate, Harry Kane e o árbitro conversavam, com oficiais da Uefa e o presidente da Federação Inglesa, Greg Clarke, também nas redondezas. Depois de alguns minutos, o jogo seguiu e, no intervalo, Southgate continuou batendo papo, agora com o quarto árbitro, e o capitão búlgaro Ivelin Popov foi às arquibancadas tentar falar com os torcedores da casa.

Segundo o Guardian, imagens da ITV mostraram ofensas racistas a Sterling no segundo tempo, e o próprio Mings confirmou que os cantos apenas diminuíram, mas Clarke afirmou, à mesma emissora, que Southgate e os jogadores decidiram levar o jogo até o fim.

“Os oficiais nos disseram que 500 pessoas no canto do estádio causaram muito do problema e foram expulsos no intervalo”, disse. “Disseram depois que foram exemplos isolados de comportamento racista, não exemplos em massa, e que o protocolo lida com exemplos de massa de comportamento racista. Terão que coletar mais informações nas imagens da transmissão do jogo”.

“Estou feliz que Gareth estava no controle pelo nosso lado. Ele reuniu os jogadores quando o primeiro incidente aconteceu. Depois, quando aconteceu o segundo incidente, o árbitro disse: ‘você quer continuar?’. Ele disse: ‘vamos chegar ao intervalo e revisar’. Ele se sentou com os jogadores: eles quiseram continuar e jogar. E eu acho – e isso é apenas minha opinião – que houve menos racismo no segundo tempo. Qualquer é apavorante. Eu conversei com Gareth ao fim do jogo e ele sentiu que tomou a decisão correta de levar o jogo ao fim”.

Clarke cobrou uma revisão mais rigorosa da Uefa e que, se a ideia é adotar uma postura de tolerância zero contra o racismo, então “uma pessoa fazendo barulho de macaco é a mesma coisa que cem”, no que ele tem toda razão, e também deixou muito claro que a Inglaterra não pretende assumir a “superioridade moral” porque também tem o problema em sua pirâmide de futebol. “Devemos nos juntar ao movimento para levar o racismo para fora do jogo”, afirmou. “A Uefa terá que pensar com muito cuidado sobre o nível de abuso que ela está disposta a deixar os jogadores tolerarem e eles terão que usar alguém como exemplo um dia”, completou.

Southgate assegurou que os oficiais da Uefa foram muito prestativos e que manteve comunicação constante com o quarto árbitro e o principal. “Eu estava em contato com os jogadores o tempo inteiro, especialmente durante o primeiro tempo, e novamente no intervalo”, disse. “Sabemos que é uma situação inaceitável. Acho que conseguimos fazer duas afirmações: ganhando o jogo e conscientizando sobre a situação. O jogo foi parado duas vezes. Eu sei que para algumas pessoas isso não será o bastante, mas, como um grupo, concordamos com esse processo”.

O treinador continuou, à BBC: “Vocês ouviram o anúncio no primeiro incidente. No segundo, poderíamos ter deixado o gramado, mas os jogadores queriam muito terminar o primeiro tempo e depois conversar. Nenhum jogador queria parar, eles foram absolutamente firmes nisso. Eu expliquei aos jogadores que, se alguma coisa acontecesse no segundo tempo, nós sairíamos. Todos vimos um segundo tempo muito mais calmo e isso permitiu que nossos jogadores falassem jogando futebol”.

Tyrone Mings, um dos principais alvos das ofensas e um estreante pela seleção inglesa naquela partida, disse que, no fim das contas, o time se posicionou por meio do futebol: “Acho que o protocolo foi eficiente. Huve menos gritos depois daquilo. Tomamos uma decisão no intervalo e continuar jogando, o que pensamos que fosse a coisa certa a fazer.

Marcus Rashford, Ross Barkley e Sterling, duas vezes cada, e Harry Kane fizeram os gols da goleada inglesa que deixa o país perto da vaga na Eurocopa de 2020, mas ainda não a garante, o que, no contexto mais amplo da partida, parece ser o menos importante.

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