Com dinheiro de sobra, astros na equipe e uma imensa fome de títulos, o Paris Saint-Germain começou a temporada 2012 mostrando que o caminho ainda é longo e tortuoso. Assim como aconteceu com o Manchester City, o clube precisará ter paciência até que o elenco de estrelas se transforme em time.

Na arquibancada do Parc des Princes, além dos esperançosos torcedores fanáticos, muitas celebridades e franceses ilustres para acompanhar a estreia do time mais badalado da Europa no momento. Em campo, pela primeira vez entre Les Rouge-et-Bleu estavam Ibrahimovic, Lavezzi e Verratti. Um trio trazido da Itália pelo diretor Leonardo por nada menos que 58 milhões de euros.

Carlo Ancelotti pensou sua equipe em um 4-3-3. Ainda sem contar com pelo menos três prováveis titulares pelas ausências de Thiago Silva (na seleção), Thiago Motta (lesionado desde a final da Euro) e Pastore (suspenso), o treinador mandou a campo uma equipe articulada por trás, com estratégia de municiar um tridente formado por dois atacantes muito dinâmicos e um de referência.

O capitão Jallet e o brasileiro Maxwell começaram com uma função muito ofensiva, abrindo bastante o campo e, por muitas vezes, se posicionando à frente dos volantes. Verratti, revelação do Pescara e atual sub-21 da Itália, era o articulador da equipe, pelo fundo, executando uma função chamada pelos ingleses de Deep-Lying Playmaker. O expoente mundial dessa função é Andrea Pirlo, o qual atingiu seu ápice no Milan de Ancelotti.

Na frente, Ménez e Lavezzi se movimentam muito, sempre ao redor de Ibrahimovic. Mesmo sendo referência, o sueco tem qualidade técnica e por vezes vem buscar o jogo, agregando um dinamismo interessante ao setor ofensivo.

No Lorient, Christian Gourcuff trouxe a campo um time mais entrosado, com duas linhas muito rígidas, um meia de muita qualidade e um atacante rápido na frente. A estratégia clara era compactar as linhas no campo defensivo, em meia pressão, para dificultar a transição ofensiva dos donos da casa. Uma vez recuperada a bola, contra-ataque rápido pelo lado esquerdo.

Recém-contratado, o meia Alain Traoré é o principal jogador da equipe. A sua intensa movimentação e capacidade de desmarque, facilitam seu trabalho de ser o protagonista dos contra-ataques, saindo pela esquerda e abusando da companhia dos velozes Monnet-Paquet e Aliadière. Jouffre, pela direita mas também canhoto, é o quarto elemento de ataque, fechando para o meio para dar opção do tiro de média distância. Os demais seis jogadores, a linha defensiva e os dois volantes, funcionam pragmaticamente para defender.

Logo de cara, o PSG tentou valorizar a posse de bola e trocar passes entre os três volantes e os laterais, mas com dificuldade de fazer a bola chegar aos atacantes. A meia pressão do Lorient é muito bem treinada e os volantes Romao e Mvuemba excelentes na antecipação e desarme. No primeiro contra-ataque dos visitantes, aos cinco minutos, Traoré e Monnet-Paquet arrancaram pela esquerda e abriram o placar, em uma infelicidade do brasileiro Maxwell, que fez contra.

O PSG, perdendo o jogo, passou a abusar das bolas longas, buscando o trio de frente e depois ocupando o campo de ataque, como mostra a imagem abaixo.

Ainda com uma equipe nitidamente desentrosada, o time de Ancelotti carece de jogadas coletivas e depende basicamente das individualidades. Como Lavezzi e Ménez tem qualidade no um contra um, algumas vezes levaram vantagem, mas nenhuma chance clara chegou a ser criada.

O grave problema do PSG, no entanto, é defensivo. Desorganizado, o time ataca praticamente com sete jogadores e sem nenhuma cautela. Os laterais avançam ao campo de ataque com a bola ainda na defesa. Os apoiadores abrem o campo buscando espaço e Verratti acaba vendo-se isolado e sem opção a não ser um lançamento.A imagem abaixo mostra o PSG com posse no campo de defesa, onde os dois zagueiros e Verratti tem a companhia de Traoré e Aliadière. Todos os demais estão no campo de ataque. As duas linhas do Lorient mantém-se sólidas e compactas. Nesse lance, Sakho tentou passe para Lavezzi, que foi desarmado de costas e propiciou um contra-ataque pela direita. Aliadière perdeu chance clara e o segundo gol só não saiu porque Traoré estava impedido ao completar o rebote para o gol.

Audacioso demais, Ancelotti pagou o preço ainda no primeiro tempo. Aos 45, o PSG perde bola no campo de ataque, mais uma vez com Lavezzi, e Aliadière é lançado na esquerda, praticamente no mano a mano com Alex. Traoré arranca pelo meio chamando a marcação de Verratti. Ao entrar na área, o camisa 11 passa pelos dois zagueiros e fuzila o goleiro Douchez. O espantoso é o flagrante do momento em que Aliadière recebe a bola. Chantôme está mal posicionado, sem dar nenhuma cobertura ao lateral que subiu. Maxwell está na esquerda à 50 metros do lance e Lavezzi  é o único outro jogador no campo de defesa dos donos da casa. Kamikaze.

O Paris Saint-Germain deu sorte e contou com a ajuda do adversário no intervalo. O zagueiro Ecuélé Manga, que vinha fazendo ótimo trabalho no combate a Ibra teve que sair lesionado. Rompeu ligamentos colateral medial e cruzado anterior do joelho esquerdo e só volta em seis meses. Talvez atordoado pela notícia, o técnico Gourcuff promoveu a entrada do meio-campista Coutadeur e mudou a maneira de jogar do Lorient.

Romao passou a ser zagueiro e a segunda linha de meio perdeu sua força de antecipação e desarme. Coutadeur é um jogador técnico, mais afeito ao passe do que à marcação. O visitante abriu mão também das saídas rápidas e passou a trabalhar a bola com paciência, administrando o jogo.

A consequência foi um amplo domínio do PSG, que agora além de ter a bola longa, passou a avançar com ela dominada pelos laterais e a criar diversas situações pelo lado direito. Ainda deixando espaços nas suas costas, os laterais Jallet e Maxwell passaram a ser mais úteis no âmbito ofensivo. Em menos de 10 minutos, Ibrahimovic já havia concluído três vezes com perigo, duas de cabeça e um chute na trave após jogada de Lavezzi.Ancelotti percebeu a chance de crescer e fez duas mudanças na equipe no minuto 57. Saíram Verratti e Bodmer, entraram Matuidi e Nenê.
A formação seguiu sendo o 4-3-3, mas agora com a base baixa. Matuidi, um volante de marcação e muita mobilidade, fez parceria com Chantôme para resguardar o brasileiro Nenê, o novo articulador. O PSG cresceu muito e não demorou a descontar. O camisa 10 achou belo passe longo na área para Zlatan. O sueco dominou no peito, usou o corpo para proteger a bola e apenas desviou de Audard.A entrada de Nenê, com dois volantes por trás, melhorou muito a criação de jogadas e a manutenção da posse de bola. Ainda desorganizado, sem zona de pressão, o PSG agora pelo menos oferecia pouco a bola ao adversário.De aí em diante, os parisienses começaram a apressar o jogo e perder gols. Gameiro, que entrou no lugar de Lavezzi, e Chantôme perderam as melhores oportunidades. Aos 81, o auxiliar acertou ao anular um gol de Chantôme, marcando impedimento de Ibrahimovic no primeiro passe.Sem desistir, o PSG conseguiu empatar aos 88. Chantôme lançou Matuidi em uma surpeendente infiltração. O volante da seleção francesa foi derrubado na área por Bourillon e Ibra converteu. Resultado justo pelo que as equipes apresentaram: primeiro tempo do Lorient, segundo do PSG.O empate não arrefece a esperança da torcida de que o PSG irá sair da fila e conquistar um título de grande porte. Pode acontecer, uma vez que a Ligue 1 não está entre as mais competitivas na Europa. Na Liga dos Campeões, o time de Ancelotti certamente terá muitas dificuldades. Se não ajustar o sistema defensivo, o PSG pode até ser eliminado na fase de grupos. Muita dor de cabeça para o italiano pela frente.