Como um técnico que é odiado por sua torcida e tem a sua demissão pedida em todos os jogos torna-se a salvação de outro clube, que ainda paga uma multa milionária para contratá-lo? É um caso curioso esse de Alan Pardew, que deixou o Newcastle e foi apresentado neste sábado como novo técnico do Crystal Palace. É algo incomum  porque os torcedores dos dois clubes estão comemorando. Os do Newcastle, que queriam a demissão de Pardew, viram o time se livrar dele e ainda ganhar € 3,5 milhões em compensação financeira por quebra de contrato. Os do Crystal Palace depositam fé no técnico que defendeu o clube como jogador e que tinha começado a recuperar o Newcastle nas últimas rodadas.

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Alan Pardew é um desses casos curiosos. Desde a sua chegada ao Newcastle, muita coisa foi estranho. Ele assinou com o time em dezembro de 2010 um contrato de sete anos, algo altamente incomum. Conseguiu boas campanhas, como um quinto lugar na temporada 2011/12, mas também foi quase rebaixado na temporada seguinte. Na temporada passada, terminou em 10º, mas o desempenho na segunda metade foi muito ruim. O início desta temporada também não foi tão bom e o time ficou quase todo o ano de 2014 sem sentir gosto de vitórias.

A demissão de Pardew era um pedido tão intenso da torcida que chegaram a criar um site só para isso. Não funcionou. O dono do Newcastle, Mike Ashley, sempre pareceu um entusiasta de Pardew. O técnico tinha um salário baixo (cerca de € 84 mil por mês) e trazia os resultados que o dono queria. Ashley não está preocupado em ganhar um título das Copas, onde o time teria uma pequena chance. Está satisfeito com o time no meio da tabela, sem correr riscos de rebaixamento.

Como homem de negócios, é o que faz sentido: mantém a exposição da sua rede de lojas de esporte, consegue um lucro razoável com os enormes direitos de transmissão e consegue vender alguns jogadores comprados por preço baixo a um alto valor. Para ele, está ótimo. Para a torcida não. Por isso, encontrar um substituto para o técnico será uma tarefa árdua. Qualquer um pedirá mais que Pardew ganhava e, provavelmente, não aceitará de tão bom grado que o time é só para ficar no meio da tabela. Os times ingleses que não lutam pelo título sonham com a Copa da Liga e a Copa da Inglaterra, como aconteceu com o Swansea, Birmingham e tantos outros nos últimos anos. Até o Sunderland, maior rival do Newcastle, chegou a uma final de Copa na temporada passada. Os torcedores querem ter essa chance.

Pardew, por outro lado, sai muito bem do Newcastle. O time está em décimo e conseguiu algumas vitórias nos últimos jogos, como os 2 a 1 no Chelsea no começo de dezembro e o triunfo sobre o Everton, no dia 28, em meio à maratona de fim de ano. Foi o triunfo final de Pardew, que chega ao Newcastle com todo apoio, não só da diretoria, mas dos torcedores. Pardew jogou no Crystal Palace entre 1987 e 1991. Era chamado de “Super Alan Pardew”,por ter marcado o gol da vitória por 4 a 3 sobre o Liverpool na semifinal da Copa da Inglaterra de 1990. Um gol que o colocou imediatamente como ídolo.

Só que a tarefa de Pardew está longe de ser simples. O Palace é o 18º colocado da Premier League e vem mal das pernas. O time tinha o rebaixamento como destino quase selado na temporada passada, mas foi salvo por uma campanha incrível comandada pelo técnico Tony Pulis, que deixou o clube pouco antes do início da atual temporada por desavenças com a diretoria. Com 17 pontos em 20 jogos, o Crystal Palace terá a necessidade de arrancar pontos mesmo de onde parece improvável. Uma missão dura, embora possível. Lá, ao contrário do Newcastle, Pardew terá todo apoio que quer, o nome gritado pelas arquibancadas e alegria de trabalhar em casa – ele é de Londres e sua família ainda mora lá. No fim, talvez ele seja quem mais tenha saído feliz dessa história.