Por Beatriz Pinheiro, do Papo de Mina

Na última terça-feira (08), o anúncio da parceria entre Puma e a equipe de futebol feminino do Palmeiras gerou grande repercussão. A empresa patrocinará 23 atletas do elenco, que, além de utilizarem o material esportivo, participarão de campanhas e estratégia da marca, em ação inédita no futebol brasileiro. O acordo reacendeu o debate sobre patrocínio nos esportes femininos, o que foi tema do sexto episódio do podcast Papo de Mina.

De acordo com o diretor de marketing da Puma Brasil, Fabio Kadow, a parceria com o Palmeiras “agrega valor à modalidade no Brasil, abrindo diversas possibilidades para as atletas ao mesmo tempo que oferece condições para desenvolverem o trabalho”. De fato, o posicionamento da marca, que em 2019 foi a sexta entre as 10 mais valiosas do esporte, segundo a Forbes, abre caminho para que concorrentes também invistam no futebol feminino. Além disso, é mais um fator para derrubar as falácias de que a modalidade não é um produto atrativo para grandes empresas.

O Papo de Mina já tratou do assunto quando foi anunciado o patrocínio de Guaraná Antárctica ao Brasileirão Feminino, em julho deste ano, já apontando uma tendência de que o investimento de uma marca atrai outras no mercado. Nas placas de publicidade dos jogos do Brasileirão, Guaraná deixou um espaço aberto, convidando o próximo patrocinador para investir no futebol feminino. No Twitter, rede social com grande engajamento da modalidade, a conta oficial da marca desafiou os fãs a mencionarem empresas que também pudessem patrocinar a competição.

Quando se fala em tendência, é válido lembrar que a mudança no olhar das grandes empresas para o futebol feminino também é fruto de cobranças, seja dos fãs do esporte, que se engajam e se organizam principalmente nas redes sociais, seja das atletas. Na Copa do Mundo de 2019, Marta entrou em campo com chuteiras sem patrocínio e com o símbolo do movimento Go Equal, que aponta para a igualdade de gêneros. Na ocasião, a ação alertava também para a diferença entre patrocínio para atletas homens e mulheres, que atinge até mesmo Marta, eleita seis vezes a melhor do mundo. Em uma competição que teve audiência de mais de 1 bilhão de pessoas, segundo a Fifa, ações como essa fazem um tremendo barulho.

Mesmo assim, não se pode perder de vista que uma mudança sólida no cenário dos esportes femininos, inclusive em relação a investimento, passa também por uma questão social. Ainda há disparidade salarial entre homens e mulheres no mercado de trabalho tradicional; ainda há mais homens do que mulheres em cargos de alta gestão.

Por isso, também é importante destacar o papel das instituições no fomento ao esporte. Anúncios como os feitos pela CBF na última semana, colocando Duda Luizelli e Aline Pellegrino nas coordenações da seleção e de competições femininas, respectivamente, além da equiparação das diárias da seleções feminina e masculina, apontam para um olhar de desenvolvimento do futebol feminino e das mulheres no esporte, proporcionando condições para que o produto se torne ainda mais atrativo também para investimento.

É hora de observar as tendências e abandonar a ideia ultrapassada de que os esportes femininos não dão visibilidade; grandes marcas estão investindo e isso aponta para uma questão de mudança social. Ao passo que se aumentam as discussões e busca pelo direito das mulheres, o movimento também precisa acontecer no ambiente do esporte e as grandes marcas e investidores têm papel fundamental nisso. Saem na frente aqueles que melhor enxergaram a oportunidade.

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