Paralisação faz clubes menores da Inglaterra temerem pela sua sobrevivência

Clubes da segunda divisão para baixo dependem de receitas de bilheteria e de aportes dos seus donos que podem ser prejudicados pelo coronavírus

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A Inglaterra demorou para paralisar o seu futebol por causa da pandemia de coronavírus. A Premier League chegou a anunciar, na quinta-feira da semana passada, que os jogos seriam realizados como programado e voltou atrás apenas depois de o técnico do Arsenal, Mikel Arteta, testar positivo para a COVID-19. Era necessário. O prazo das suspensões está em 4 de abril, mas, com o Reino Unido aproximadamente duas semanas atrás da Itália, é pouco provável que o futebol volte nessa data. E quanto mais tempo ele ficar parado, mais os clubes menores temerão pela sua sobrevivência.

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É bom deixar claro que não há outra alternativa. A prioridade é evitar a disseminação do vírus, evitar novos casos, evitar novas mortes. As medidas tomadas nesse sentido afetarão uma séria de indústrias e, evidentemente, o futebol não ficará isento, e à medida em que se vai descendo na pirâmide da Inglaterra, os danos ficam maiores.

A principal preocupação dos clubes da Premier League é não conseguirem cumprir os contratos de direitos de transmissão que assinaram, caso a temporada termine incompleta ou seja reduzida. Segundo uma reportagem do The Times, o prejuízo pode chegar a £ 750 milhões.

“A realidade comercial para a Premier League e a Uefa é que, se não completarem suas temporadas, eles estão violando contratos de transmissão. Também pode haver implicações financeiras se as competições forem enxugadas, com menos jogos. Novamente, as emissoras assinaram contrato por um número concordado de partidas e, se essas partidas não forem disputadas, pode ser argumentado que os contratos foram violados e que uma compensação precisa ser paga”, disse.

Sem partidas, o faturamento com bilheteria e outras receitas de dia de jogo – o famoso matchday – desaparecerão. No último relatório anual da Deloitte com as finanças dos principais clubes da Europa, essa grana representa, por exemplo, 17% de toda a arrecadação do Manchester United, o clube mais rico da Inglaterra, e chega a 25% no caso do Arsenal – outros exemplos: Manchester City (10%), Liverpool (16%), Tottenham (18%), Chelsea (15%),

Essa porcentagem, porém, chega a proporções muito mais altas da segunda divisão para baixo, cujos clubes têm condições financeiras muito mais vulneráveis, com um prejuízo acumulado de £ 510 milhões apenas na Championship na temporada 2018/19. “Para vários clubes da League One e da League Two (terceira e quarta divisões do país), 70% dos seu faturamento vem da venda de ingressos e de receitas associadas ao dia do jogo”, afirmou o doutor Rob Wilson, do colégio de negócios da universidade de Sheffield Hallam, ao Daily Mail.

“São pessoas comprando coisas no intervalo, comprando coisas nas lojas do clube, comprando o programa de jogo. Se você cortar isso, é que nem cortar um salva-vidas que mantém clubes flutuando financeiramente. Tem sido bem documentado que os clubes para baixo da Premier League apenas se viram financeiramente e são dependentes dessa receita. Se você a cortar, você essencialmente mata o clube”, completou.

A BBC questionou dirigentes de clubes em busca de números. O Rochdale, da terceira divisão, estima perdas de até £ 200 mil por seis jogos como mandante. O Portsmouth, também da League One, falou em £ 100 mil por partida. O Tranmere Rovers espera até £ 500 mil em perdas.

Em entrevista à Forbes, o executivo chefe da empresa de consultoria especializada em esportes Tifosy Capital and Advisory, Fausto Zanetto, afirmou que os clubes da Premier League, no geral, são capazes de absorver o choque, mas os menores precisarão de ajuda das ligas.

“Está claro que haverá perda de receitas para todos. Se houver seguro, isso pode ajudar, mas em uma situação em que as seguradoras estão lidando com milhares de reivindicações, pode haver desacordos legais e muitos clubes podem ficar sem dinheiro enquanto isso”, afirmou. “E há o fato de que muitos clubes têm obrigações financeiras com outros, como taxas de transferências. Se clubes começarem a não pagar, pode haver um efeito dominó”.

“Para os clubes da Football League (organizadora da segunda à quarta divisão), pode ser significativo. As receitas de dia de jogo compõem grande parte do faturamento total e a perda mesmo que de poucos jogos terá um impacto material neles”, completou.

E há um outro aspecto, destacado pelo especialista em finanças de futebol Kieran Maguire, em entrevista ao Independent: muitos clubes da Football League dependem de aportes de seus donos. E muitos desses donos têm negócios locais, que podem ser afetados pelas necessárias medidas de isolamento contra o coronavírus.

“Dois terços dos clubes da EFL estão perdendo dinheiro e dependem de contribuições regulares dos donos. Minha preocupação agora é que os donos possam relutar em pagar esse dinheiro. E muitos donos são empresários locais administrando suas próprias empresas e eles também sofrerão problemas financeiros como resultado da COVID-19. Eles podem sofrer para pagar seus funcionários porque perderam pedidos ou não conseguiram cumprir contratos”, disse.

“Historicamente, esses donos têm subsidiado o clube de futebol com as receitas de seus próprios negócios. Se esses negócios começarem a sofrer, que é o que aconteceu com o Bury ano passado, você pode facilmente ver a situação sendo repetida de uma maneira mais regular”, acrescentou.

O diretor-administrativo do Dangenham & Redbrige, Steve Thompson, 18º colocado da NationaL League, equivalente à quinta divisão inglesa, que manteve alguns de seus jogos no último fim de semana, aluga a instalação dos clubes para eventos sociais e teme, naturalmente, que a demanda seja menor nos próximos meses.

“Potencialmente, alguns clubes não sobreviverão a isto. Muitas das funções que temos são aniversários de 50 anos e festas de aniversários. As pessoas vão querer que os mais velhos compareçam? Não é apenas o futebol, é tudo em torno dele. Não somos diferentes de restaurantes, bares e hotéis que estão vendo uma queda nos seus números. Estamos todos na indústria da hospitalidade”, afirmou, ao Guardian.

E o que fazer? O especialista Kieran Maguire acredita que os clubes da Premier League podem ajudar com uma porção de seus faturamentos. “Nas contas mais recentes da Premier League, havia £ 1,5 bilhão sentado nos balanços. Entendo que esse dinheiro é alocado para distribuir entre os membros, mas, se a Premier League disser ‘em um ato de boa fé à comunidade do futebol, vamos dar £ 250 mil para cada clube da League One e League Two’. Isso custaria £ 12 milhões. Não dá para comprar um lateral reserva (para os clubes da Premier League), mas ganharia tempo – e isso é o mais importante”, afirmou.

“Pode ser feito de graça, para dizer ‘bom, vamos ajudar os clubes das ligas menores’ ou pode ser um empréstimo sem juros. Isso diria: ‘Estamos vivendo circunstâncias excepcionais e sentimos a responsabilidade para a comunidade do futebol de mostrar liderança e solidariedade com esses clubes’”, completou.

Mas o dirigente do Degenham & Redbrige não acha que a solução é tão fácil assim e que será necessária ajuda do governo. “Estamos falando de £ 10 milhões ou £ 20 milhões para financiar os clubes da National League por três ou quatro meses. Os clubes da Premier League gastam centenas de milhões, mas a grande maioria é com salários de jogadores que estão sob contrato. Todos dizem que podemos pegar o dinheiro da Premier League, mas eles o gastam. Eles não podem virar e dizer ‘vamos cortar salários pela metade e pagar pelos problemas do resto do futebol pro causa do coronavírus’. A Federação Inglesa tem dinheiro, nem tanto para apoiar todos os clubes do país, mas podem ajudar. O resto dependeria do governo”, afirmou.