Roy Hodgson não cansa de ser treinador de futebol. Aos 70 anos, depois de treinar dezenas de equipes e a seleção do seu país, embarcou em uma nova jornada: assumiu um Crystal Palace que havia passado as sete primeiras rodadas da Premier League sem fazer nenhum gol, e colecionando sete derrotas. Conseguiu uma reviravolta que poucos acreditariam e já colocou a equipe de Londres na 12ª posição. Apesar de tanto tempo na estrada, afirmou em entrevista ao Guardian que ainda sente prazer na profissão. Um prazer peculiar.

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Nota da redação: Hodgson, na entrevista, diz que treinar clubes de futebol “it is a sadistic pleasure”, mas, pelo contexto, ele claramente quis dizer “masoquista”, o prazer de quem gosta de receber dor, não de infligir dor.

“É um prazer masoquista. O sofrimento nunca termina, este é o problema. Muitos jovens treinadores que respeitam o fato de que estou fazendo isso há muito tempo me perguntam. Fica mais fácil? Você consegue relaxar um pouco mais durante os jogos? Consegue colocar as coisas em perspectiva, lidar com o trabalho mais filosoficamente? A tragédia é que eu tenho que dizer para eles: ‘Não, se alguma coisa, fica pior'”, afirmou.

O treinador, segundo ele, cria uma casca com o passar dos anos, mas nunca deixa de passar desespero durante as partidas. “Mesmo que você não esteja ganhando, pode tirar satisfação do fato de estar trabalhando direito. Mas eu sofro durante os jogos. Acompanho a ação, chuto cada bola, penso se nossos zagueiros conseguem parar o cruzamento… Em algumas maneiras, você se diverte, mas seu coração está sempre batendo forte”, disse.

Para Hodgson, a pressão é muito menor quando a carreira está no começo. Uma vez no auge, é palpável a consciência de que o caminho mais provável é para baixo. “Quando você coloca o pé no primeiro degrau da escada é quando você lida com mais facilidade quando seu pé escorrega e você precisa se começar novamente. Quando teve a sorte de subir, tudo o que você vê é a queda. Você não consegue ver os degraus que estão acima”, explicou.

O experiente treinador está surpreso por ainda estar no ofício mesmo aos 70 anos. “Eu teria dado risada se tivessem me dito, em 1976, que eu ainda estaria fazendo isso. Eu era assistente de Bobby Hoghton no Halmstads (da Suécia) e nós dois tínhamos menos de 30 anos. Nós costumávamos dizer: ‘Não seria ótimo se pudéssemos fazer isso por talvez 10 anos, guardar algum dinheiro e talvez começar um negócio juntos?’. Algum tipo de agência de viagens. Não tínhamos pensamentos de futebol além disso, mas era um plano muito frouxo que desandou muitos anos atrás”, afirmou.

A missão clara que Hodgson recebeu no Selhurst Park parece muito bem encaminhada. Com seis vitórias, inclusive sobre o Chelsea, sete empates, um deles contra o Manchester City, e três derrotas desde aquela sequência inicial, o Palace está a cinco pontos e seis posições distante da zona de rebaixamento.

“Estou trabalhando em um clube que tem um potencial muito bom, com donos que tem as ideias certas. A única coisa que está faltando é ter certeza que temos 11 jogadores que podem fornecer estabilidade total na Premier League, sem que você precise olhar por cima do ombro todos os anos pensando: ‘Estamos dentro ou estamos fora?'”, encerrou.