Para Rodgers, falta apoio da Premier League para os ingleses voltarem a triunfar na Europa

Treinador reclama da falta de flexibilização nas datas do Campeonato Inglês e cita exemplos do exterior como comparação

Dos seis jogos que disputaram na Champions League até agora, os ingleses foram derrotados em cinco deles. O medo de perder a quarta vaga na competição, que já era grande antes do início do torneio, está ainda maior diante do desempenho mais uma vez decepcionante das equipes do Campeonato Inglês neste início de nova temporada. Para Brendan Rodgers, que nesta semana terá seu segundo jogo pela Liga Europa, contra o Sion, na quinta-feira, as equipes inglesas poderiam ter um desempenho melhor se tivessem a contribuição da Premier League, com uma maior flexibilidade nas datas das partidas da competição nacional.

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Em entrevista coletiva prévia ao duelo contra os suíços, o técnico do Liverpool reclamou da falta de apoio da liga inglesa a seus times, afirmando que em outros países a flexibilidade de datas existe. “Acho que a Premier League pode fazer mais para apoiar os times (ingleses) nas competições europeias. Isso acontece com outras federações de outros países. Elas realmente ajudam, mas isso não acontece neste país. A fisicalidade da Premier League é diferente de qualquer outra. Em outros países, alguns dos clubes grandes podem trocar cinco, seis, sete jogadores e ainda vencerem nas competições europeias”, reclamou

Alguns exemplos mostram que a comparação de Rodgers está correta. A vitória do Porto sobre o Chelsea por 2 a 1, nesta terça-feira, pode ser explicada pela boa fase vivida pelos portugueses e o momento instável da equipe de José Mourinho, mas o fato é que os Dragões tiveram um dia a mais de descanso que os londrinos já que a Federação Portuguesa adiou a partida contra o Moreirense, pela sexta rodada, para a sexta-feira, para que o time tivesse um dia a mais de recuperação.

Na rodada de estreia da Liga Europa, o Liverpool foi até à França encarar o Bordeaux, que, dias antes, disputara um duelo duro com o Paris Saint-Germain, pela Ligue 1, em uma sexta-feira, em vez de fazê-lo no fim de semana como todas as outras equipes. Por outro lado, em um exemplo contrário, Bayern de Munique e Bayer Leverkusen, que jogaram nesta terça-feira pela Liga dos Campeões, enfrentaram Mainz e Werder Bremen no sábado, sem mudança no calendário para auxiliá-los.

O descontentamento dos principais clubes ingleses não é novo, e Richard Scudamore, diretor-executivo da Premier League, já teve que lidar com o assunto antes do início da atual temporada. No fim de julho, o dirigente reconheceu a preocupação, sobretudo pelo desempenho fraco dos ingleses em competições europeias nas últimas campanhas. Em 2014/15, nenhum time inglês esteve nas quartas de final da Champions League, a segunda vez que isso acontece nas últimas três temproadas. Apesar de admitir a preocupação com o coeficiente inglês no ranking da Uefa, Scudamore disse à época que não havia nada que pudesse fazer.

“Sim, há uma preocupação. Uma preocupação prática, já que, se continuarmos em queda, isso será ruim para o nosso coeficiente, e perderemos uma das quatro vagas na Champions League. Precisamos ser cuidadosos. É uma preocupação, mas é difícil ver o que podemos fazer sobre isso”, afirmou.

Scudamore lembrou que, a partir da próxima temporada, a Premier League terá jogos às sextas-feiras, mas apenas um por dia (e por questões comerciais, de acordos de direitos de televisão), e reforçou a impossibilidade de se flexibilizar as datas: “A partir de 2016/17, jogaremos algumas partidas nas sextas-feiras à noite, mas não mudaremos jogos individuais, já que não podemos fazer isso por todos. Os times na Champions League jogam na terça e na quarta-feira, então não dá para realocar partidas apenas para atender a uma equipe. Isso arruína completamente tudo o que você faz.”

“Todo o calendário de jogos no Reino Unido é feito para que os clubes tenham um intervalo de três dias, então não dá para adiar jogos para a sexta-feira. Talvez porque normalmente há algo rolando na quarta-feira anterior. Olhamos isso, mas é praticamente impossível fazer algo a respeito”, completou.

Ao falar em relação aos times que estão na Europa League, Scudamore chama atenção para a diferença dos casos. “A questão é um pouco diferente na Liga Europa, acho. Os clubes que estão na Champions League são grandes o bastante e têm elencos preparados para jogar neste ciclo ‘quarta-domingo’. É um problema diferente quando um time como o Stoke ou o Everton, que não têm elencos vastos, de repente precisam lidar com a Liga Europa e a Premier League simultaneamente.”

A questão que o dirigente levanta é pertinente. Embora Rodgers esteja certo em reclamar das datas e do calendário apertado, os times que representam a Inglaterra na Champions League têm dinheiro em caixa suficiente para montar um elenco com profundidade e com atletas de qualidade para todas as posições. O próprio treinador teve milhões e milhões de libras à sua disposição nas últimas duas temporadas e gastou mal esse dinheiro. O planejamento e o acerto nas contratações são essenciais para que haja sucesso em mais de uma competição.

Entretanto, um último ponto levantado por Rodgers deve ser mesmo levado em conta. Dentre as quatro grandes ligas europeias, apenas a inglesa tem uma Copa da Liga em seu calendário, e, se a competição não existisse, seria mais fácil fazer a rotação do elenco. “Eles têm uma competição nacional a menos. Temos duas copas nacionais neste país, enquanto os outros têm uma. Tudo soma para tornar fisicamente difícil para os times da Premier League em competições europeias, mas é algo com que temos que lidar.”

E têm mesmo. O Real Madrid frequentemente enfrentou o Ajax, que vencia tudo na Holanda nos últimos anos, e venceu tranquilamente mesmo com times mistos. O Manchester United, por outro lado, enfrentou o atual campeão holandês na rodada inicial e acabou derrotado, mesmo com a equipe principal em campo. O Chelsea, ainda que sem seus jogadores mais técnicos na escalação contra o Porto, por opção de Mourinho, tinha gente boa o suficiente para passar por cima dos portugueses. Pelo menos a curto prazo, os clubes precisam assumir sua responsabilidade em seu fracasso.