Mundial de Clubes, um torneio para inglês (não) ver

Muito se fala do desinteresse dos clubes europeus sobre o Mundial Interclubes. E, durante algum tempo, houve razão para isso. Na verdade, por um bom tempo, os ingleses passaram a não gostar do torneio. E tudo começa com um confronto épico.

1968 – Manchester United x Estudiantes

Um dos maiores times da história do Manchester United ganhou o título da então Copa dos Campeões e decidiu o Mundial com o Estudiantes. Foi uma das maiores batalhas da história do confronto, que marcaria o Mundial Interclubes e o mudaria para sempre – e afetaria especialmente os clubes ingleses.

Nessa época, a decisão do Mundial Interclubes era disputada em jogos de ida e volta. A primeira partida foi na Bombonera, estádio do Boca Juniors, porque o seu estádio não era compatível com jogos internacionais – tinha capacidade para apenas 23 mil pessoas. O histórico naquela competição era de violência do duelo entre Celtic e Racing.

Um detalhe que explica parte do que aconteceria em seguida foram as entrevistas de Otto Glória, então técnico do Benfica, acusando o meio-campista Nobby Stiles de ser “um assassino”. Stiles estava na seleção inglesa que enfrentou a Argentina na Copa de 1966 e que causou grande controvérsia – e fez o técnico Alf Ramsey, da Inglaterra, chamar os argentinos de “animais”.

Cartaz do jogo com o ídolo Bob Charlton: partida teve maior arrecadação de um clube inglês até então

Com essa atmosfera, o jogo para 25.134 pessoas foi violento. Sir Matt Busby, técnico do United, disse após o jogo que “prender a bola ali colocava a sua vida em risco”. Especialmente pela violência de Carlos Bilardo, que depois teve carreira como técnico. Stiles foi o alvo preferido dos jogadores do Estudiantes. O árbitro Hugo Sosa Miranda, do Paraguai, permitiu o jogo violento dos argentinos, mas assim que o inglês revidou, foi expulso. E apesar da pressão e do jogo duro do Estudiantes, o Manchester United resistiu bem defensivamente e só sofreu um gol, de Marcos Coniglaro, após cobrança de escanteio de Juan Ramón Verón, pai de Juan Sebastián Verón, que mais tarde defenderia o mesmo time e também o levaria à conquista da Libertadores.

A partida de voltar seria no dia 16 de outubro, em Old Trafford. Cerca de 300 argentinos viajaram até Manchester para assistir à partida. Com lotação no estádio, 63.428 pessoas, o United pressionou, mas acabou tomando um gol aos 25 minutos da etapa final, com Juan Ramón Verón, após cruzamento de Raúl Madero. E em uma confusão de José Hugo Medina com George Best, ambos acabaram expulsos, já no fim do jogo. Medina não conseguiu voltar ao vestiário, porque os torcedores do United atiravam objetivos incessantemente. No fim, Willie Morgan acertou um bom chute e marcou o gol de empate. Seria insuficiente. Depois do apito final, um jogador do United acertou um soco no do Estudiantes. O time argentino tentou dar a volta olímpica, mas a torcida do time da casa seguia atirando objetos em campo.

Os melhores momentos do jogo de volta foram registrados em vídeo, com narração de uma TV inglesa:

Os jogos, que já eram violentos antes desse confrontos, tornaram-se menos atrativos para os clubes europeus, que passaram a boicotá-lo. O efeito já seria sentido nos confrontos seguintes.

1977 – Liverpool abdicou da disputa

Liverpool ganhou a Liga dos Campeões, mas não quis decidir com o Boca Juniors. Borussia Mönchengladbach foi em seu lugar. Empatou o primeiro jogo na Bombonera por 2 a 2, mas perdeu por 3 a 0 em casa.

1978 – O ano que o Mundial Interclubes não foi disputado

Como os europeus não aceitaram jogar contra os sul-americanos, como vinha acontecendo em anos anteriores, o jogo não foi realizado. O Boca Juniores, campeão da Libertadores, não enfrentou o bicampeão europeu, o Liverpool.

1979 – Nottingham Forest abdica da disputa com o Olimpia

O surpreendente Nottingham Forest foi mais um europeu a se recusar a jogar o Mundial Interclubes. Por isso, o Malmö, vice-campeão, foi designado a enfrentar o time paraguaio. Depois de perder por 1 a 0 na Suécia, o vice-campeão europeu perdeu por 2 a 1 no Paraguai. O Olimpia era campeão mundial.

1980, 1981, 1982, 1984: desdém e derrotas

Com um certo desdém pela competição, os ingleses não assumiam, mas perderam de grandes times que, talvez, não tivessem mesmo condição de vencer. A disputa em 1980 teve vitória do Nacional sobre o Nottingham Forest por 1 a 0. Em 1981, o Flamengo de Zico atropelou o Liverpool. Em 1982, foi a vez do Pañarol vencer o Aston Villa por 2 a 0 e os ingleses deixaram o torneio. Em 1984, o último vitória do Independiente sobre o Liverpool. E novamente os ingleses ficavam sem título Mundial.

1999 – Manchester United 1×0 Palmeiras

O Manchester United campeão da Tríplice Coroa enfrentou o Palmeiras em Tóquio. O jogo foi equilibrado, mas com os palmeirenses sendo melhores na maior parte do confronto. Apesar do bom time do Manchester, o Palmeiras de Luiz Felipe Scolari mostrou força e, por pouco, não chegou ao gol de empate, que parecia que seria o natural no andamento da partida.

A vitória, porém, foi inglesa, após cruzamento de Ryan Giggs e falha do ídolo Marcos, que Roy Keane aproveitou e marcou o único gol daquele confronto. Foi o primeiro clube inglês a levantar o título de campeão mundial, depois de muitas tentativas.

2000 – Manchester United na fase de grupos

No primeiro Mundial que teve organização da Fifa, o Manchester United ganhou a vaga por ser o campeão da Liga dos Campeões de 1999. A disputa começou um mês e seis dias depois do jogo contra o Palmeiras, no Japão – o que  desagradava os ingleses, que preferiam não disputar a competição.

Desinteressado, o time ficou no 1 a 1 com o Necaxa na estreia, tomou 3 a 1 do Vasco de Romário de Edmundo e venceu o South Melbourne por 2 a 0. Acabou eliminado como terceiro colocado do Grupo B, sequer disputando o terceiro lugar.

2005 – Liverpool 0x1 São Paulo

O Liverpool surpreendentemente conquistou a Liga dos Campeões após uma final inexplicável contra o Milan, que perdia por 3 a 0 e arrancou o empate, antes de vencer nos pênaltis. No Japão, venceu o Saprissa, da Costa Rica, com facilidade por 3 a 0. Do outro lado da chave, o São Paulo venceu o Al Ittihad, da Arábia Saudita, por 3 a 2.

Na final, enfrentou um São Paulo que se defendeu como pode, tomou pressão, e, com um ataque surpresa de Mineiro, marcou o gol da vitória do time. Os ingleses ainda viram três gols anulados em lances difíceis – mas a arbitragem acabou acertando em todos eles. E os ingleses, comandados por Rafa Benítez, deixaram o campo derrotados.

2008 – Manchester United x LDU Quito

O Manchester United de Cristiano Ronaldo era o finalista desta vez, depois de ganhar um jogo maluco contra o Gamba Osaka por 5 a 3. A final era contra a LDU, que surpreendeu ao ser campeã da Libertadores e venceu o Pachuca na semifinal.

Se esperava um passeio do United, mas não aconteceu. O time jogou com um certo desdém e a LDU chegou a ameaçar. No fim, vitória por 1 a 0 sem graça, gol de Wayne Rooney. E os ingleses deixaram o gramado tão animados que pareciam ter ganhado um dos jogos mundiais de verão de futebol de areia. É, aqueles que passa domingo de manhã e tal.

2012

Em 2012, será a vez do Chelsea. E com uma situação conturbada, os indicativos é que os ingleses novamente terá muito trabalho pela frente. E com o Corinthians forte, será que outro inglês além do Manchester United levantará a taça?

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