A divisão do futebol argentino já se desenhara nas últimas semanas. Enquanto um grupo formado pelos principais clubes do país passou a pleitear a criação de uma “SuperLiga”, outras tantas equipes médias e pequenas preferiram se agarrar aos benefícios que desfrutam junto à AFA. E, nesta segunda, uma reunião do comitê executivo da federação foi o estopim para a ruptura. Presidente de La Liga, Javier Tebas apresentava detalhes do modelo espanhol para que fosse adaptado ao Campeonato Argentino. No entanto, sem o quórum mínimo para convocar uma Assembleia Extraordinária, que poderia ratificar as mudanças, os cartolas iniciaram o levante. Os presidentes de Boca Juniors, Racing, River Plate e San Lorenzo anunciaram a renúncia de seus cargos na AFA. Assim, esperam forçar o caminho para a criação da nova liga.

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Os mecanismos oferecidos pela AFA, atualmente, travam as mudanças. Os partidários da SuperLiga não têm apoio o suficiente dos 44 membros do Comitê Executivo, até porque a proposta desagrada muitas das equipes menores, temerosas de sofrerem a supressão de seu atual status. Neste cenário, os quatro grandes preferiram a saída massiva da federação, sob as expectativas de que haja uma intervenção estatal no futebol. Caso avalie que a representação democrática na AFA esteja ameaçada, o governo possui mecanismos legais para agir. O que, de certa forma, tende a pender a queda de braço para o lado dos rebeldes. O presidente Mauricio Macri já manifestou sua simpatia com o projeto da SuperLiga, assim como tem realizado mudanças para diminuir a influência do Fútbol para Todos – que, com Cristina Kirchner, submetia os direitos de transmissão ao governo.

A imobilidade nos debates sobre a SuperLiga é evidente. Os grandes só admitem a imposição de suas ideias sobre a nova competição, sem se abrir àqueles que discordam das propostas. Por outro lado, os que se prendem à AFA acabam encampando as velhas estruturas que prometem ser quebradas. E, assim, o futuro do futebol argentino fica à deriva, dependente dos interesses de quem não cede nada à oposição. No atual cenário, a intervenção estatal se sugere como um caminho para a solução. O que não agrada principalmente os que resistem à liga. Afinal, ela impactaria diretamente nas eleições da federação, que devem ser adiadas (de junho para novembro) em caso de interferência do governo. E, neste momento, a vitória dos pequenos na presidência da AFA parece certa, seja com Hugo Moyano ou Chiqui Tapia – ambos, além de dirigentes, também líderes sindicais, o que não agrada a Casa Rosada.

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O cenário é bastante intrincado, com relações que fogem até mesmo do futebol. E, por isso, não deve se resolver tão cedo. A intervenção do governo, caso seja compreendida como um movimento político ou econômico (e não só administrativo), pode ser punida pela Fifa com sanções. Enquanto isso, a falta de reconhecimento da liga junto às organizações internacionais pode alijar os grandes argentinos de competições como a Libertadores e a Copa Sul-Americana.

Os interessados na SuperLiga defendem que ela poderá gerar o triplo de ganhos aos clubes a partir das negociações dos direitos de TV. Todavia, a maioria das equipes se preocupa que a maior fatia do bolo acabe nas mãos dos grandes, como acontece na Espanha. Além dos quatro dissidentes, outros clubes de peso indicam simpatizar com a ideia – como Vélez, Huracán, Estudiantes e Banfield. O cenário, de qualquer forma, não está totalmente definido. Mesmo com a liga, a AFA seguiria comandando as divisões inferiores, a arbitragem e a seleção argentina. O projeto liberal, entretanto, vai na contramão da abertura a outros rincões nacionais ocorridos nos últimos anos. E ambos, por um lado ou por outro, acabam atendendo projetos políticos.

Nesta terça, haverá um novo encontro decisivo na sede da AFA. Com a presença massiva do “Ascenso Unido”, grupo formado pelos médios e pequenos, e também dos quatro dissidentes, a federação discutirá a realização da Assembleia Extraordinária para reformar o estatuto e votar a criação da nova liga. Se somarem os 33 votos necessários para a aprovação da assembleia, a disputa interna pelo poder deverá se desdobrar por mais algumas semanas. Senão, a ruptura será definitiva.

Vale ressaltar que a ruptura acontece há exatos 85 anos da divisão na Argentina que rumou ao estabelecimento do profissionalismo. Sobre o assunto, vale ler o texto de Caio Brandão no Futebol Portenho.