Com o crescimento das redes sociais, ficou fácil estar ligado, de alguma forma, à vida pessoal de pessoas famosas. Vira e mexe jogadores de futebol pousam para fotos com suas namoradas e esposas, expondo, dessa forma, suas relações amorosas na internet em forma de cliques. Mas não é com frequência que esses atletas assumem relacionamentos homossexuais. Isso praticamente não acontece. Não é nem um pouco comum ver jogadores demonstrando carinho por seus companheiros, em vez de companheiras. E isso não quer dizer que nenhum deles gosta de pessoas do mesmo sexo. Que nenhum deles já esteve ou está em um relacionamento gay. O problema está na exibição dessa forma de amor especificamente. O que, na verdade, nunca deveria ser um problema.

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“Eu ficaria espantado se nós não tivéssemos jogadores homossexuais na Premier League, e confesso que me sinto envergonhado por eles existirem e não poderem se assumir”, falou Greg Clarke, presidente da federação inglesa, durante comitê realizado no mês passado. “Eu acho que o que temos no futebol é um reflexo do que acontece na sociedade. Há uma minoria muito, muito pequena que é abusiva com pessoas que eles percebem que são diferentes”, acrescentou. As declarações de Clarke sucederam um acontecimento bastante desagradável no futebol inglês. Na terceira divisão do campeonato da Inglaterra, torcedores do Luton deram uma demonstração de que a homofobia está presente em todo lugar, sobretudo no futebol, que é um meio um tanto intolerante com homossexuais.

“Teve um exemplo disso há pouco tempo. Houve alegações que no jogo entre Leyton Orient e Luton, os torcedores do segundo time estavam disparando comentários homofóbicos contra um grupo de homens que eles perceberam que eram gays. Esse comportamento é repugnante, e eu estou absolutamente determinado a acabar com ele”, afirmou o presidente da FA. “Nosso trabalho é identificar os culpados por perseguir, de alguma forma, membros de uma minoria étnica ou de gênero. Afinal, mulheres também sofrem abusos. Temos que nos certificar de que esses tipos de comportamentos abomináveis não acontecerão mais”, disse, antes de fazer o seguinte questionamento: “se você tivesse um filho que fosse homossexual e jogasse na elite do futebol, você o encorajaria a se assumir com a expectativa de abuso que ele irá sofrer?”.

Mesmo com várias barreiras sendo quebradas em termos de preconceito no Ocidente, Justin Fashanu foi o único jogador inglês a expor sua orientação sexual durante sua carreira. Ele foi, aliás, o primeiro atleta do futebol a ter essa coragem, e a lutar para que outros também a tivessem. Fashanu, no entanto, se suicidou oito anos após confessar ser homossexual. Não suportou ter que lidar com a hostilidade e a intolerância por parte de seus companheiros de time, de jogadores rivais e de torcedores. Thomas Hitzlsperger, da Alemanha, e Robbie Rogers, dos Estados Unidos, também tomaram doses de bravura para saírem do armário. Mas isso só depois de terem anunciado aposentadoria dos gramados (Rogers retomou a carreira no seu país natal, os Estados Unidos, onde atualmente defende o Los Angeles Galaxy).

Já no basquete, um nome notável nesse contexto é o de John Amaechi. O ex-jogador britânico assumiu ser gay em 2007, e apesar de ter sofrido uma forte opressão em função disso, diz que “estar fora do armário é melhor do que estar dentro dele, pois isso te liberta de muitas maneiras”. Enquanto Clarke pensa que ainda não é a hora certa para jogadores se assumirem homossexuais, já que, para ele, “deve-se criar um ambiente seguro onde as pessoas esperam ser respeitadas, e não abusadas”, Amaechi acredita que o momento é agora, e que falta coragem por parte das pessoas que têm poder de punição para combater a homofobia no futebol. “Isso é uma questão de vontade. Essas pessoas têm acesso a todos os recursos de que necessitam e poderiam fazê-lo agora. Eles simplesmente não têm a vontade de fazê-lo”.

Na concepção do ex-jogador da NBA, que já jogou no Cleveland Cavaliers, cabe aos dirigentes frearem as manifestações de ódio contra homossexuais no futebol. Eles, contudo, quase sempre tiram o seu da reta e só fazem reproduzir discursos de que existe preconceito. Na prática, não são tomadas medidas efetivas em relação a isso. Ou seja, é difícil mesmo que jogadores se sintam à vontade para exporem uma orientação sexual que já não é bem recebida no mundo como um todo dentro de um universo de repreensões e preconceitos banalizados. “Esses homens que têm o poder no futebol são responsáveis pelo que eles definem e por permitirem o que eles permitem”, concluiu Amaechi durante comitê realizado esta semana.