Há duas semanas, a torcida do Lech Poznan boicotou a estreia do time na Liga Europa. Apenas 7,9 mil pessoas compareceram às arquibancadas para o empate ante o Belenenses. Os poloneses protestavam contra a decisão da Uefa de doar € 1 de cada ingresso aos refugiados sírios. Segundo o principal grupo de ultras do clube, a ação se contrapunha à hipocrisia das autoridades e da elite, que ajudavam os muçulmanos, mas ignoravam a situação de miséria de imigrantes poloneses espalhados pela Europa, no que deveria ser prioridade do país. Postura que, apesar do viés xenofóbico, se insere em um contexto bastante complexo no Leste Europeu, misturando questões históricas e levando as torcidas a tendências ultranacionalistas – algo que será tema de uma matéria aqui na Trivela nos próximos dias.

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A ação solidária dos clubes europeus se repetiu nesta quinta, na segunda rodada da Liga Europa. E, de novo, o boicote aconteceu no Leste Europeu, desta vez na República Tcheca. Em protesto que se concentrou especialmente entre os ultras, parte do estádio do Sparta Praga esteve vazio na vitória sobre o Apoel. Os tchecos, porém, não apresentaram argumentos tão estruturados quanto o Lech Poznan, em manifesto no qual declaravam o temor de “perder a Europa”. Já em mais um jogo ocorrido na Polônia, as arquibancadas estiveram cheias para a vitória do Napoli sobre o Legia Varsóvia por 2 a 0. Tudo porque a Uefa e o clube resolveram mudar o foco da ajuda humanitária.

A torcida do Legia é reconhecida por seu ultranacionalismo e também pela visão política de extrema direita – muitas vezes se misturando com manifestações racistas e antissemitas. Por isso mesmo, o clube se antecipou ao boicote, pedindo que os fundos levantados em seu estádio fossem redirecionados. Ao invés de ajudar os refugiados sírios, o dinheiro irá para as famílias polonesas em situação de risco na região de Donbass, leste da Ucrânia, que também vive um conflito civil. Motivo suficiente para que a torcida lotasse as arquibancadas para ajudar os seus compatriotas. Além disso, os ultras mandaram uma mensagem relacionada ao tema, levantando a faixa “você tem que lutar por seus direitos”.

Vale deixar claro: nada justifica os episódios de intolerância e violência contra os refugiados que entram na Europa, muitas vezes repetidos justamente nos países do leste – que acabam servindo de porta de entrada na travessia até a parte ocidental do continental. Entretanto, desde que os direitos humanos sejam respeitados, cada país está no direito de decidir sua política sobre o tema. Faz parte do jogo da democracia, por mais que falte solidariedade. Sendo assim, é bom ver que o dinheiro da Liga Europa continua indo para uma questão nobre, apesar dos preconceitos que possam estar embutidos. E que, ao invés das arquibancadas vazias para negar o próximo, o estádio esteve cheio justamente para ajudar.