Se ignorarmos a troca do futebol brasileiro pelo tailandês, a carreira de Diogo melhorou bastante nesse primeiro semestre de 2015. Das lesões que o impediram de ajudar mais o Palmeiras na luta contra o rebaixamento a uma fase artilheira pelo Buriram United. Já marcou dez vezes em dez partidas pelo campeonato nacional e tem 15 gols em 18 jogos no total, uma marca bem superior à do ano passado, por exemplo, quando balançou as redes apenas uma vez. Ele tenta deixar para trás as suas últimas temporadas no futebol brasileiro.

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Diogo não foi feliz no Brasil desde a primeira vez que voltou do Olympiakos. Não conseguiu render no Flamengo, machucou-se no Santos e salvou a Portuguesa da Série B apenas para vê-la rebaixada nos tribunais. Foi para o Palmeiras e mais uma vez teve que brigar pela própria vida. Embora justifique a transferência para um centro pouco tradicional do futebol pela questão financeira, talvez também esteja em busca de um pouco mais de tranquilidade.

Foi tudo que não teve no Palmeiras. Além de lesões, passou por três treinadores, um deles que literalmente não falava a sua língua. Ricardo Gareca foi a aposta da diretoria no diferente, mas não lhe deu tempo para trabalhar. “Víamos no dia a dia que ele entendia. Era um grande treinador. Pelo time que ele montou no Vélez, não tem como duvidar da capacidade dele”, afirmou em entrevista à Trivela.

Com Dorival Júnior, houve um momento em que a salvação parecia. Depois de vencer o Grêmio, de virada, no Pacaembu, a degola parecia problema dos outros, principalmente após empates dignos contra Cruzeiro e Corinthians. Mas vieram cinco derrotas seguidas, a partir do jogo contra os reservas do Atlético Mineiro, em casa. “Não que tenhamos menosprezado o time do Atlético, mas viriam os reservas, e acabou sendo um jogo muito difícil. Era um jogo que, se ganhássemos, estaríamos livres do rebaixamento”, afirmou.

Mas o Palmeiras perdeu e não vence desde então pelo Campeonato Brasileiro, mesmo com a contratação de duas dezenas de jogadores. Para abrir espaço na folha salarial, Diogo teve que sair, mesmo não tendo sido um dos piores do time na temporada. Se não era brilhante tecnicamente, sempre deixava o campo esgotado, e agora quem conta com essa entrega é o Buriram United. Confira o bate-papo que fizemos com ele:

Como vão as coisas na Tailândia?

Algumas coisas são bem diferentes. A cultura deles é bem diferente da do Brasil, mas eu me adaptei bem. Estou adaptado ao país e ao clube. Estou gostando bastante desse início. Todas as vezes antes dos jogos, por exemplo, eles param em um templo budista para fazer a oração deles. Os jogadores locais passam no templo rapidinho e vamos para o jogo. Isso é um pouquinho diferente do que estamos acostumados no Brasil.

Você teve outras propostas? Por que escolheu o Buriram e um país de pouca tradição no futebol?

Como no final do ano passado estava um pouco complicado, até pela situação do Palmeiras, esperei acabar o campeonato para a gente ver o que ia acontecer, e me passaram essa proposta do Buriram. No começo, o que me agradou mais foi a parte financeira, mas me impressionei pela estrutura do clube. Tem dois centros de treinamento. Um na capital para jogos em Bangcoc e temos o nosso aqui de Buriram. Não imaginava a estrutura que o time tem aqui.

É muito melhor que a do Brasil?

Acho que o Buriram tem uma estrutura que se compara à do Brasil. Devem haver três ou dois times que podem ter a estrutura que o Buriram tem.

Como é o nível do futebol?

Foi uma parte que me surpreendeu também. Eles jogam de uma forma bem competitiva. Na Champions League asiática, jogamos com times de mais investimento, que levam bastantes jogadores, até do Brasil. Foi até um pouco de azar nosso ficar fora da próxima fase do campeonato.

O Buriram foi um dos primeiros times da Tailândia a fazerem uma boa campanha na Liga dos Campeões asiática. Que que está dando certo?

Nosso time tem bastante jogadores da seleção. A Tailândia agora tem jogadores muito jovens na equipe principal. Falam que é uma fase muito boa do país. Eles jogam juntos há muito tempo. O lateral esquerdo do nosso time tem muita qualidade. Acabou encaixando com os outros estrangeiros, o Gilberto Macena [atacante brasileiro], o Andrés Túñez [zagueiro venezuelano] e um coreano [Ko Seul-Ki].

Você está voando! Dez gols em dez jogos no Tailandês?

Estou em uma fase boa. Acredito bastante também pelo posicionamento. Eu jogo um pouquinho diferente da minha última temporada.

Está jogando mais como centroavante?

A gente joga com dois atacantes. Tanto eu quanto o Macena não somos camisas 9 fixos, que ficam parados, então acabamos dando certo, nos movimentando bastante. Quando eu estou fazendo a jogada pelo lado, ele fica mais centralizado. Isso ajuda bastante porque enquanto um faz a jogada o outro descansa mais um pouco.

Diogo com o filho depois de um jogo contra o Guanghzou
Diogo com o filho depois de um jogo contra o Guanghzou

Deve ser um alívio depois de uma temporada complicada pelo Palmeiras, não?

Eu não digo um alívio. No Brasil, nessa última temporada pelo Palmeiras, o time inteiro sofreu pela campanha. Lutamos bastante. Foi um ano bem complicado. Ter vindo para cá e entrar nessa boa fase é muito bom para todo jogador.

O que aconteceu com o Palmeiras ano passado?

Acredito em algumas questões. Antes da parada da Copa, o Palmeiras vinha em uma sequência boa no Brasileiro. Chegou treinador novo, jogadores novos e acabou não dando certo. São coisas do futebol, que não deu certo, e acabou se transformando em uma bola de neve. Quando você não consegue os resultados, troca de treinador, a confiança acaba baixando. Às vezes você está ganhando por 1 a 0, sofre o empate e já vem na cabeça: “será que vai acontecer tudo de novo?”. Acho que foi uma série de fatores que levaram a isso.

Acha que foi um erro ter contratado um técnico estrangeiro? 

Tanto podia dar certo quanto não podia. O Palmeiras buscou um treinador vencedor. Ele realmente é um treinador vencedor. No dia a dia, a gente via que ele entendia. Acabaram vindo outros jogadores, e quando se contrata novos jogadores, tem que colocar para jogar. Estava no meio do campeonato e precisava de um tempo maior para entrosar o time. O Gareca era um grande treinador. Pelo time que ele montou no Vélez, não tem como duvidar da capacidade dele.

Depois daquela vitória sobre o Grêmio, o Palmeiras parecia salvo, mas depois caiu demais de rendimento. O que aconteceu ali no final?

Eu acho que estávamos passando um sufoco e conseguimos uma sequência de vitórias. Precisávamos de uma vitória. Fomos jogar contra o Atlético Mineiro em casa. Não que tenhamos menosprezado o time do Atlético, mas viriam os reservas, e acabou sendo um jogo muito difícil. Era um jogo que, se ganhássemos, estaríamos livres do rebaixamento. Perdemos aquele jogo e abalou bastante todo mundo. Era um jogo muito importante. Não sei se seria chave ou não, até porque houve outros jogos que não conseguimos vencer também. Foi um jogo que poderíamos ter ganho.

E como foi aquela última rodada?

Claro que a gente dependia só da gente, mas mesmo assim, pesa muito o lado psicológico nesse jogo. Isso pesa mais. O torcedor ansioso no lado de fora, a gente também ansioso para fazer o resultado rápido, e futebol não é assim, tem que ter calma. É uma partida difícil, que não envolve só o que acontece dentro de campo, envolve fora também. Graças a Deus deu tudo certo.

Você sempre se doou muito nas partidas, mas foi dispensado quando a situação do clube mudou, com várias contratações e mais investimentos. Ficou chateado de ter perdido o filé mignon?

Não, de forma alguma. Toda vez que eu vinha emplacando uma sequência de bons jogos no Palmeiras, eu tive algumas lesões que realmente me atrapalharam um pouco. Mas até tivemos uma conversa para renovar no meio do ano, mas começou aquela fase do Palmeiras e encerraram as negociações para manter a cabeça só no futebol. Isso acontece. Estou feliz também por estar aqui e estar jogando um bom futebol também.

Diogo, na Portuguesa
Diogo, na Portuguesa

Na verdade, os últimos dois clubes que você defendeu no Brasil passaram por situações complicadas. Acompanhou a situação da Portuguesa nesse começo de ano, rebaixada no Paulistão?

Acho que ela não foi rebaixada nesse Paulistão. Foi rebaixada desde que houve aquele problema do Brasileirão. Na minha opinião, depois que aquilo prejudicou muito a Portuguesa. Eu espero que mude, que a Portuguesa volte à primeira divisão. A Portuguesa já vem há anos tendo complicações. Aquele ano foi bem difícil para mim e para nós. Conseguimos fazer uma ótima campanha. É uma pena.

Por que você acha não foi uma surpresa?

O clube já tinha muita dificuldades financeiras, para contratar, pagar salários. Depois do caso Héverton… Quem sofre somos nós que trabalhamos o ano inteiro para tirar o clube daquela situação. Até hoje, não tem nenhuma resposta sobre o caso. Isso é uma pena.

Como que você viu esse caso?

De dentro eu não vi, porque acabou o campeonato, eu não tinha mais contrato com a Portuguesa. Fiquei sabendo em um jogo que eu fiz no Pacaembu, do Graac [Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer], até tomei um susto. Para falar a verdade, achei que não aconteceria, que a Portuguesa não seria rebaixada. Depois que a coisa começou a ficar séria, ficamos muito tristes com o que aconteceu.

Como prata da casa e identificado com a Lusa, que que ela deveria fazer para se reerguer?

É difícil falar. Realmente, eu não sei. O clube passa por um momento muito delicado. Acredito que financeiramente também. Para o clube se reerguer dessa forma, eu sinceramente não sei o que possa ser feito. Espero que a Portuguesa volte, fazendo as coisas corretas, tudo caminhando bem para que suba.

Naquela época que você surgiu, era uma das revelações mais promissoras do futebol brasileiro. Você acha que sua carreira não explodiu como se esperava?

Eu saí muito novo do Brasil. Saí com 21 anos. Foi uma escolha certa que eu fiz porque foi um momento bom para o clube, foi um dinheiro bom que entrou para o clube. Para mim também, para minha família. Eu amei viver na Grécia. O Olympiakos é um clube maravilhoso de jogar, muitos brasileiros passaram por lá e gostaram também. No Flamengo, foi um ano profissionalmente ruim. Foi uma fase muito complicada que eu peguei lá. Uma semana antes de eu chegar no clube, teve o caso do Bruno, o Adriano tinha acabado de sair. Ninguém se sobressaiu naquele ano. No Santos, eu tive uma contusão muito séria. Tinha tudo para ser um grande ano. Eu tive um pouco de azar. Eu sempre dei o meu melhor, poderia ter feito mais ou menos, não sei. Acho que na vida as coisas acontecem como tem que acontecer. Mas estou feliz no momento.

Dois anos de contrato. Quais os seus planos para o futuro? Quer continuar muito tempo por aí?

Claro que no futebol, nunca sabemos o que vai acontecer. Sempre tem algumas novidades. De início, eu pretendo cumprir o meu contrato.