Para diminuir chiadeira dos clubes, Fifa gastou R$ 72 milhões em indenizações em 2013

Às vésperas do início de uma data Fifa, o torcedor tira o terço da gaveta, pega o tapete de oração ou simplesmente veste a camisa da sorte, dependendo da religião de cada um, e pensa positivo o mais forte que pode para nada dar errado. O maior medo que nutre dentro de si não é perder para as Ilhas Faroe ou ser derrotado pela Escócia no clássico britânico, mas ver o craque do seu time se machucar e ficar um bom tempo afastado dos gramados.

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Cada parada de futebol internacional produz algumas vítimas, e a de novembro não foi exceção. O Manchester United não sabe se contará com David de Gea para enfrentar o Arsenal, e o zagueiro/volante Daley Blind pode perder mais de um mês de ação.  O meia Modric, do Real Madrid, deve parar por três meses. Mas não é só o torcedor que fica de cabelo em pé. Nas diretorias dos clubes, o desespero é ainda maior. Não apenas pelo desfalque em campo, mas por ver aquele jogador no qual se investe tanto dinheiro ficar no departamento médico.

Essa é a principal causa do atrito que crescente entre clubes e seleção. Os primeiros sentem-se explorados porque pagam salários astronômicos para as suas estrelas, deixam-nas aos cuidados de terceiros (nem sempre tão cuidadosos assim), e podem passar meses sem contar com eles. Algo como emprestar o seu caro videogame para o amigo e recebê-lo com um defeito. E você mesmo banca a assistência técnica.

Os clubes fechavam seguros privados para proteger os seus patrimônios, mas a conta bancária de quem organiza as partidas entre seleções continuava a apenas crescer às custas de jogadores bancados pelos clubes. Essa situação insustentável mudou apenas em setembro de 2012, quando a Associação dos Clubes Europeus negociou um acordo com a Uefa e com a Fifa.

Passou a existir um mecanismo chamado Programa de Proteção ao Clube (CPP, sigla em inglês), que ressarce as equipes com um valor proporcional ao salário caso a lesão, contraída em partidas de times principais organizadas pela Fifa, afaste o jogador das atividades do clube (treinos e partidas) por pelo menos 28 dias. Esse montante não pode ultrapassar os € 20.568 (aproximadamente R$ 66 mil) diários nem os € 7,5 milhões (R$ 24,2 milhões) no período de um ano. O reembolso é pago por no máximo 365 dias.

Em 2013, primeiro ano cheio dessa brincadeira, a Fifa desembolsou R$ 72 milhões em indenizações, segundo o seu relatório financeiro. A entidade ainda não divulgou os números da atual temporada, mas a Copa do Mundo não deve fazer com que ele seja muito mais alto que isso porque esse torneio antecede as férias, muitas equipes são eliminadas ainda nas primeiras semanas e o período de 28 dias começa a contar apenas a partir da data em que o jogador deveria se reapresentar. Com um salário enorme, Neymar tirou aproximadamente R$ 700 mil da conta da Fifa, mesmo machucando-se nas quartas de final.

Esse acordo entre clubes e federação internacional termina em 31 de dezembro de 2014, mas tudo indica que será renovado. O orçamento para o período entre 2015 e 2018 prevê R$ 309 milhões para o CPP, R$ 108 milhões apenas para 2015. Sem contar uma verba fixa de R$ 226,70 que a Fifa dividiu entre os clubes que emprestaram seus jogadores para a Copa do Mundo de 2014.

As reclamações vão continuar quando o Real Madrid perder o seu articulador por três meses, ou quando a já frágil defesa do Manchester United ficar desfalcada de um dos seus zagueiros, mas pelo menos os clubes agora ganham uma compensação financeira por esse incômodo.

CBF também deveria pagar, mas na prática…

Se a lei internacional que regulariza as indenizações a clubes não tem nem dois anos, a brasileira já fez até festa de debutante. Esse mecanismo está previsto na Lei Pelé de 1998 e nem exige que o jogador se machuque. A mera convocação deveria fazer a CBF arcar com os salários proporcionalmente ao tempo em que fica com o atleta. Deveria.

§ 1o A entidade convocadora indenizará a cedente dos encargos previstos no contrato de trabalho, pelo período em que durar a convocação do atleta, sem prejuízo de eventuais ajustes celebrados entre este e a entidade convocadora.

O problema é que, no Brasil, uma lei existir não costuma ser garantia de que ela será cumprida. Como se diz, essa não “pegou”. Os clubes precisam cobrar a CBF para receber esse dinheiro, mas como a entidade é credora da maioria deles, essa quantia muitas vezes acaba sendo esquecida ou colocada em negociações de adiantamento de receitas ou empréstimos. Sempre o cobertor curto.

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Até para não se indispor com os principais dirigentes do futebol brasileiro, dentro do jogo político de praxe, ninguém entra na Justiça para buscar os seus direitos. De acordo com o diretor de futebol do Atlético Mineiro, Eduardo Maluf, a CBF “demora bastante, mas paga”. Outro incômodo: paga apenas o proporcional ao salário registrado na carteira de trabalho, mas como sabemos, grande parte dos vencimentos dos jogadores são os “direitos de imagem”, uma artimanha para fugir dos impostos.

Quem quebrou esse tabu foi Carlos Miguel Aidar, presidente do São Paulo. Em outubro deste ano, após as convocações de Souza e Kaká pelo técnico Dunga, informou que o departamento jurídico do clube notificou a CBF com a cobrança de R$ 20 milhões, equivalente a todos os jogadores que foram convocados enquanto vestiam as cores tricolores desde 1998. Foi a primeira ação jurídica nesse sentido.

Para os clubes brasileiros, a sensação de que estão roubando os seus brinquedos é ainda mais presente porque o nosso calendário não respeita as datas Fifa. Não só os jogadores ficam sujeitos a lesões quando estão com a Seleção como também perdem partidas importantes de Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil ou Libertadores, nem sempre com compensação financeira. E estamos falando de uma entidade que lucrou R$ 436 milhões apenas em 2013 explorando os amistosos da seleção brasileira e a imagem do time pentacampeão mundial, duas coisas que não existiriam se não fossem os jogadores e os clubes que pagam seus salários.

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