A terça-feira será decisiva ao futebol europeu. Enfim, a Uefa realizará sua tão aguardada (e tardia) reunião por videoconferência para discutir a continuidade das competições continentais, bem como o futuro da Euro 2020. Parece bastante claro que Champions League e Liga Europa não terminarão normalmente nesta temporada, por mais que a confederação tenha negligenciado uma posição mais contundente sobre o assunto. Neste momento, o adiamento da Eurocopa é o mais importante, para que os clubes readequem seus calendários e a própria população evite problemas. No entanto, segundo apuração exclusiva do site The Athletic, a Uefa cobrará para fazer o básico e pedirá £275 milhões aos seus filiados.

A matéria é assinada pelo jornalista David Ornstein. Conforme o relato, a Uefa está disposta a exigir uma “compensação” de seus clubes e ligas para adiar a Eurocopa. A mudança de datas na competição rumo a 2021 custará £275 milhões à entidade e ela não está disposta a perder esse dinheiro. Será esta a condição para a mudança, a ser declarada na reunião desta terça-feira.

A prioridade das ligas e dos clubes é completar a temporada atual, para reduzir suas próprias perdas. O adiamento da Eurocopa seria fundamental neste sentido, não apenas para que a Europa controle a pandemia durante as próximas semanas, mas também para que os clubes readequem seu calendário. Todavia, a Uefa não está disposta a ceder, quando sua posição deveria ser diferente.

A esta altura, a Euro 2020 se mostra inviável pela própria questão de saúde pública. Serão apenas três meses até o início do torneio em junho e parece difícil imaginar que diferentes países estejam aptos ao torneio, sobretudo quando a competição se espalhará por 12 cidades-sede. Há restrições de viagem entre diversas nações. O intuito básico da Uefa deveria ser primeiro pensar na população, e depois proteger seus filiados, e não agir apenas por seus próprios interesses.

A importância dos £275 milhões para fazer a máquina da Uefa girar parece mínima. O momento é de exceção e a confederação deveria compreender isso, buscando outros meios para contornar suas perdas. Sobretudo, porque os débitos das principais ligas nacionais mais que dobram a estimativa de perda da Euro 2020, caso não consigam terminar a temporada. A Premier League calcula um rombo de £675 milhões. Em La Liga, este valor chega a £620 milhões. As maiores perdas são relativas à televisão. E o cenário piora em divisões de acesso e países periféricos.

Mais alarmante é a condição específica dos clubes, principalmente os menores, que precisarão pagar seus funcionários. Segundo a FifPRO, que representa os futebolistas profissionais ao redor do mundo, já há casos de contratos de jogadores sendo encerrados para reduzir custos durante a paralisação. A situação de outros funcionários se torna ainda mais frágil. Um cenário de insolvência e demissões coletivas é o que mais preocupa neste momento de incerteza.

Secretário geral da FifPRO, Jonas Baer-Hoffman aponta que o futebol deve olhar às suas próprias cifras, num momento em que a economia europeia será impactada de uma forma geral. “O futebol deve considerar como pode sustentar os clubes, para usar sua liquidez e manter sua pirâmide. Depois de um período recente em que discutimos o calendário depois de 2024, é necessário um diálogo responsável e um trabalho em conjunto”, analisou, em entrevista ao jornal The Guardian.

As ideias iniciais da Uefa serão analisadas por suas 55 federações. Também haverá uma conversa com a Associação de Clubes Europeus e a Ligas Europeias, as principais entidades representativas de ambas as categorias, além da FifPRO. A ideia é produzir um calendário emergencial durante os próximos dias. Segundo a BBC, a realização de jogos únicos e a criação de um mini-torneio para definir os vencedores da Champions League e da Liga Europa é cogitada pela confederação continental.

A Uefa tomou decisões bastante questionáveis ao longo das últimas semanas. A entidade europeia manteve uma letargia condenável para adiar os seus jogos e, em alguns casos, não agiu nem mesmo conforme as autoridades sanitárias dos países. Neste momento, parece ainda mais absurdo que há menos de uma semana a Champions e a Liga Europa tenham realizado partidas com público. Prevaleceram os próprios interesses, para atender as demandas financeiras. E é isso que a confederação tentará preservar com suas próximas propostas. A ver como será a reação de clubes e ligas nesta terça-feira.