Em nenhum lugar da Itália, país mais afetado fora da China, a situação da pandemia de coronavírus é pior do que em Bergamo. A província com cerca de um milhão de habitantes teve mais de 6 mil casos confirmados. É a cidade com os caminhões do exército carregando caixões porque as funerárias locais não estão dando conta do número de mortos – por volta de 500. A cidade cujo jornal aumentou seu obituário para 11 páginas. E é forte a tese de que um jogo de futebol foi um vetor para a disseminação da COVID-19 na região.

Cerca de um mês atrás, quando as medidas de restrição, se existiam, ainda eram mínimas, a Atalanta venceu o Valencia, por 4 a 1, em Milão, e 45 mil pessoas foram à capital financeira da Itália e voltaram para Bergamo. Em 10 de março, a equipe italiana foi à Espanha para o jogo de volta das oitavas de final da Champions League, pouco antes de quase todos os campeonatos interromperem suas atividades. Sabe-se agora que pelo menos 35% do elenco do Valencia testou positivo para a doença.

Papu Gómez não é médico, mas é a estrela da Atalanta e concorda que um dos fatores de Bergamo ter se tornado uma das cidades mais afetada foi a partida contra o Valencia, especialmente a disputada em Milão, como contou em entrevista ao diário Olé.

“Ter feito esses jogos foi horrível”, afirmou. “Naquele momento, não havia muitos casos e ninguém tinha muita ideia do que fazia esse vírus. Não sabíamos bem a gravidade e o contágio, então não se tomou dimensão do que poderia acontecer. Na volta, já estava tudo podre aqui na Itália, mas a Espanha estava como estávamos antes. Fomos a Valencia e não havia controle, estavam relaxados. Agora é o segundo país da Europa com mais contágios”.

“Eu acredito que a situação de Bergamo pode ter a ver com ter um dos melhores hospitais da região da Lombardia, e muita gente vem ser atendida aqui, mas também com o jogo de ida contra o Valencia. Aqui há 120 mil habitantes (na cidade em si) e naquele dia 45 mil foram ao San Siro. Foi uma partida histórica para a Atalanta, algo único, e foi uma loucura. Para se ter uma ideia, minha mulher demorou três horas para chegar a Milão, que normalmente fica a 40 minutos daqui”, completou.

Papu Gómez não sabe dizer se a Itália demorou para tomar medidas para limitar a disseminação do vírus, mas notou que demorou para cair a ficha de que a situação era séria. “Não sei se administraram bem, mal ou se demorou muito. Acredito que no começo havia muita desinformação e que não levamos a sério. Pensávamos que era mais uma gripe, um vírus como os que há em qualquer outro inverno, então continuamos fazendo a vida normalmente. Depois, quando apareceram as zonas vermelhas no país todo e a crise sanitária, tomou-se consciência do que estava acontecendo. Mas há 20 ou 25 dias, não sabíamos nada. Quando começou a haver mortos, começamos a nos assustar e coincidiu também que começou a haver mais informações”, explicou.

Agora, com medidas cada vez mais restritivas, Papu Gómez conta que a maioria respeita todas elas, mas ainda há algumas pessoas nas ruas, fazendo exercícios ou passeando uma hora com o cachorro. “Eu não corro e eu sou atleta, é meu trabalho. Tem os que saem para correr, os que vão ao parque fazer abdominais, os que estão entediados em casa e dizem que vão ao supermercado, mas é mentira. Aqui dizem que pode levar o cachorro à porta, para fazer o que tem que fazer, e voltar para dentro. Pode ir à farmácia ou ao supermercado, mas tem que baixar um formulário na internet e mostrar à polícia quando for parado e completá-lo diante deles”, disse.

Papu Gómez contou que sua esposa foi uma vez à farmácia recentemente e que as compras de supermercado estão sendo feitas via internet, mas até isso está difícil porque os sites estão sobrecarregados, o que os leva a ter que racionar um pouco a comida para durar mais tempo. Por ter um quintal, com gramado e luz do sol, o jogador ainda consegue manter um pouco da forma com exercícios físicos ao fim da tarde.

“De manhã eu me levanto, tomamos mates com minha mulher enquanto olhamos as notícias. Meu filho mais velho tem aulas online, fica no computador das 8h às 13h. Nos dias que estão bonitos, saímos um pouco ao ar livre, fazemos coisas de casa. Outro dia eu cortei as folhas, às vezes lixo alguma coisa.  Estou fazendo coisas que jamais fiz eu minha vida. Aproveito agora que tenho tempo. Depois, às quatro ou cinco da tarde, começo a treinar. As crianças veem televisão ou algum filme, cozinhamos, jogamos alguma coisa. Tentamos matar o tempo…”, encerrou.