É fácil criar simpatia por Papu Gómez. Primeiro, pela qualidade dentro de campo. O camisa 10 se projetou como um dos melhores armadores do futebol europeu, unindo habilidade e poder de decisão. Depois, por toda a irreverência do argentino, de suas braçadeiras personalizadas às tradicionais dancinhas. Também é preciso respeitar o capitão que mudou a Atalanta de dimensão, liderando a equipe rumo a fronteiras inéditas na Champions League. E, além de tudo que se nota na tela da TV, Papu ainda se mostra um craque nas palavras, nas ideias.

Às vésperas da partida contra o Valencia nas oitavas de final da Champions, Papu Gómez concedeu uma longa entrevista ao jornal espanhol El País. O argentino falou de tudo um pouco, e deu respostas muito interessantes sobre diversos assuntos. Explicou a tática da Atalanta sem apelar ao tatiquês, lembrou dos momentos de readaptação em sua vida, analisou o simbolismo do que experimenta… Visões que ajudam a simpatizar ainda mais com o meia de 32 anos. Abaixo, traduzimos parte das respostas.

O orgulho do que faz com a Atalanta

“O que mais me dá orgulho é o que construí. Eu poderei dizer: ‘Não joguei em um grande, mas pude, graças também a outras pessoas, construir aqui na Atalanta o clube grande que eu desejava. Pude jogar a Champions, que talvez tenha mais valor aqui do que fazer isso com um grande. Eu trabalho muitíssimo, porque é mais difícil”.

Os argentinos que criam dinastias em clubes europeus

“Em quatro das cinco ligas mais importantes da Europa, os maiores artilheiros estrangeiros são argentinos. É um pouco pelo caráter, pelo carisma, e um pouco porque estamos acostumados a tanta bagunça futebolística e social na Argentina que, quando vamos à tranquilidade europeia, trazemos toda essa pressão que recolhemos como experiência e colocamos a serviço da equipe, da cidade”.

“Elevamos um pouco o nível do clube e dos companheiros com esse desespero de não perder nunca. Transmitimos essa paixão, essa loucura. Chegam jogadores que ao melhor não são fenômenos, mas com essa dose de personalidade, isso de pedir sempre a bola sem se esconder, isso de perder e ir para sua casa com raiva… nós mamamos isso desde criança. Essa loucura te dá uma casca grossa, que nas situações de pressão ou dificuldade te ajuda a crescer”.

A relação com os donos da Atalanta

“Os Percassi são uma família com senso de pertencimento. São de Bérgamo, amam o clube. Antonio e seu filho, os principais dirigentes, foram jogadores. Vivem na cidade. São milionários, mas super humildes. Vêm ver o treinamento todos os dias. Estão metidos no clube, presentes. Não são como esses clubes que os americanos ou os chineses compram e não se sabe quem os administra. Aqui, você os vê todos os dias no centro de treinamentos”.

A estratégia da Atalanta no mercado

“A Atalanta nunca vendeu seus melhores jogadores e rentabilizou muito bem com a venda de vários jovens. Nos últimos quatro anos, a Atalanta vendeu 200 milhões de euros. O mais caro contratado foi Zapata, por 25 milhões. São todas compras muito calculadas, muito focalizadas no que se necessita. Nunca compraram por comprar e valorizaram muito os jovens, mas isso depende do técnico. Há técnicos que gostam de botar os jovens, outros não. A Atalanta tem a sorte de contar com Gasperini, que possui um ótimo olho aos jovens”

“A estrutura não se modificou com as vendas. O clube tem uma organização muito boa. Tem uma base que é a melhor da Itália há décadas: daqui saíram Vieri, Montolivo, Inzaghi, Donadoni… Há uma tradição. Só no meu primeiro e no meu segundo ano é que jogamos com vários italianos. Depois, foram vendendo: Caldara, Conti, Gagliardini, Cristante… Tudo isso foi investido em contratações. Agora somos 16-17 jogadores. Gasperini não gosta de ter um elenco muito grande”.

A diferença da Atalanta aos outros italianos

“Temos uma maneira atípica de jogar na Itália – especialmente no caso de um time do interior, como nós. Porém, isso nos dá resultados há anos: nos levou à Liga Europa depois de 30 anos, a uma final da Copa da Itália, à classificação inédita à Champions League e a estar sempre na briga com os grandes”.

As táticas da Atalanta

“Gasperini quer até mesmo que os defensores arrisquem um passe interno, que infiltrem as linhas. E, claro, dá toda a liberdade a nós do ataque. Mas isso é o que mais me toca: eu sei que preciso arriscar. O drible é o meu forte. E eu sei que, fazendo isso, rompemos as linhas. Se eu me livro de um cara em cima de mim, um mundo se abre. E mais na Itália, onde as partidas são muito táticas, todos com duas linhas de quatro, com oito defendendo. Se não rompe isso, pode tocar uma vida inteira, mas não superará nenhum esquema”.

“Sabemos que nos arriscamos ao contra-ataque rival. Mas isso nos dá mais benefícios que problemas. Por isso, marcamos tantos gols. Preferimos arriscar desta maneira e não estar recuados, sem ver a bola, esperando por uma situação de contragolpe… Você pode se defender com dez atrás, mas sem capacidade de contrastar, sem morder e nem pressionar, no dia em que pega um time com quatro jogadores de qualidade, eles entram por todos os lados”.

A forma de lidar com os adversários

“É nossa abordagem contra a Juventus: se você começa a morder, se não os deixa girar, se os obriga a atuar de costas, o que é fenômeno termina por ser um jogador normal a mais. Nós jogamos melhor quando nos esperam trancados atrás. É normal! Se cada vez que pego a bola me deixam olhar, e olhar, e olhar, e meu marcador nunca vem buscar a bola, eu a coloco onde quiser. Qualquer jogador com uma boa técnica manda onde quiser”.

“Os adversários se veem tão incomodados que a bola volta a nós rapidamente. A Inter tinha só uma jogada: sai de trás, joga do zagueiro para o ala, e do ala de primeira aos atacantes, Lukaku e Lautaro. Um não vai aguentar e o outro joga atrás. E aí a equipe sai. Nós jogamos com os zagueiros no mano a mano com Lukaku e Lautaro. Recuperávamos a bola e atacávamos. Preferimos arriscar desta maneira, sabendo que criaríamos dez situações de gol, que talvez faríamos dois ou três. Com um pouco de sorte, ganhamos. De tanto avançar, sai um pênalti, uma falta, um rebote, um gol. Ao fim, fizemos 150 gols em um ano e meio. Não é casualidade. Finalizamos em média 15 vezes por partida”.

A adaptação ao longo da carreira

“Eu nasci como enganche, na base do Arsenal de Sarandí. Mas o futebol argentino cada vez menos se jogava com esse armador e, por meu físico, passei a ser segundo atacante, atrás do centroavante. Era um 4-4-1-1, em que eu me movia por todo o ataque. Até que, no San Lorenzo, Simeone me colocou na ponta e disse: ‘Você vai à Europa e, por teu físico, vão de colocar na ponta’. Logo no Catania, ele me botou assim. E havia toda a lateral, porque defendíamos no 4-5-1”.

“Quando cheguei à Atalanta, Gasperini voltou a me colocar na ponta esquerda, mas em vez de jogar colado à linha, me moveu para dentro. Dizia: ‘Você tem que jogar entre o zagueiro e o lateral, para que nosso ala te passe e o zagueiro adversário não saiba o que fazer, se vai cobrir por fora ou te marcar’. Então, eu bailava aí. Fiz 16 gols no primeiro campeonato, com um atacante de área à frente. Estava acostumado a não passar de 10 gols, isso foi uma loucura”.

“O que se passou depois? Bryan Cristante, o armador que Gasperini punha, foi à Roma e ficou um buraco. Ninguém no elenco podia fazer isso e Gasperini me testou. As primeiras partidas foram custosas, porque, em vez de me afastar da marcação, eu ficava entre os zagueiros e os volantes. Não havia muito espaço para receber. Era muito difícil. O que fiz? Passei a recuar. Fui à linha dos nossos volantes. Pego a bola no meio e aí estou sempre de frente para começar a jogar”.

Como mais gosta de jogar

“No meio-campo, fica mais fácil de desequilibrar porque jogo e entro. Combinando. Para os meio-campistas, é difícil me pegar, porque eu venho de trás, de frente, e assim me perdem. Então apareço como atacante. Porque se saio de trás, o volante não vem me buscar porque deixa um buraco às costas. E, se vem, espetacular, deixo toda a zona livre para os atacantes. Se não vem me buscar, pego a bola com liberdade. Quando você tem dois atacantes que jogam entre os zagueiros e os laterais adversários, então estão com espaços ali. E, se os alas sobem, se jogo para frente e avanço, é difícil ser pego. Um pouco me ensinou Gasperini e outro pouco fui descobrindo no momento”.

Driblador, mas não individualista

“A palavra que me vem à mente é italiana: convolgere. Envolver! Quando você envolve toda uma equipe, quando faz todos participarem… Eu sei que sou importante por minha forma de jogar, como é Ilicic, que talvez dribla um e então se abre tudo. Mas eu sei que aqui também são muito importantes os alas, que um cruza e outro chega ao gol na mesma jogada. Igual os meio-campistas, um para chegar ao arremate e outro para buscar o equilíbrio. Inclusive os zagueiros chegam ao gol. Tolói tem quatro assistências, porque chega com a bola dominada perto da área e busca o passe por dentro”.

‘Xavi ou Iniesta são inspirações que você observa?’

“Sabe o que eu olho? Onde está o árbitro. Quem é o melhor posicionado em todo o campo? O árbitro! Está sempre sozinho, longe de toda a bagunça, quase sempre livre. Por isso eu geralmente olho para ele e avanço para onde está o árbitro. Fazendo coisas como essa, fui aperfeiçoando minha nova função”.

O período “sumido” no Metalist Kharkiv

“Em 2013, eu havia passado três anos muito bons no Catania. Havia me apresentado ao futebol italiano e era bastante jovem, com 25-26 anos. A Inter me queria e também o Atlético de Cholo, mas não estavam tão bem economicamente como agora e não podiam pagar a cifra que pedia o Catania. Ofereciam seis, o Catania queria dez. Ao final, o Atlético levou Villa por quatro. Agora, está na moda isso de não se apresentar à pré-temporada, de brigar com o presidente ou dizer algo contra o clube para que te vendam. Eu me considero muito querido no Catania, nunca faria isso”.

“Levamos o Catania à Liga Europa, depois de fazer o recorde do clube na Serie A, e eu sentia que meu ciclo estava cumprido. Então chegou uma oferta do Metalist: estava na Champions, brigava pelo campeonato com o Shakhtar, tinha muitos argentinos, me oferecia um salário três vezes maior… E disse: bom, se não posso ir ao Atlético, se não surgiu nada na Itália, pelo menos vou jogar as competições europeias e ganharei mais dinheiro. Mas não tive essa cota de sorte, nem de maldade para forçar minha saída. Tive um ano terrível. Só me serviu economicamente. Começou a guerra da Ucrânia em dezembro e eu saí em setembro. Precisei começar de novo, fazer meu nome na Itália, numa época em que a Atalanta não era o que é hoje”.

A volta a Kharkiv para conquistar a classificação contra o Shakhtar

“Como é o destino e os caminhos da vida! A última partida da Atalanta em busca da classificação na Champions foi em Kharkiv, no estádio onde eu jogava. Via que os jornais falavam da volta de Papu à cidade onde sofreu tanto. Eu dizia: ‘Que pressão, todos estão esperando que Papu volte para onde viveu mal, sofreu, não escapou da guerra’. Eu dizia: ‘Algo bom tem que sair disso tudo. Não pode ser por acaso que tenhamos perdido as três primeiras partidas do grupo, depois empatemos com o City, ganhemos do Dinamo e venhamos jogar a classificação na cidade onde eu queria jogar a Champions, mas não pudemos por culpa do clube’. Graças a Deus, fizemos uma partida incrível”.

O caráter moldado em Kharkiv

“Seguramente, a passagem pelo Metalist me deu algo a mais. Porque, de verdade, eu sofri muito. Não podíamos tomar banho porque a água estava contaminada, minha mulher estava em depressão total e caía o cabelo, não podíamos cozinhar nem escovar os dentes, a guerra, um mundo desconhecido… Talvez mentalmente isso me completou como jogador. Quem sabe o sofrimento me deu mais caráter”.

“Com os anos, você ocupa um papel entre seus companheiros. Eles se apoiam muito em mim e eu trato de dar uma mão em qualquer situação. Quando o time está em dificuldades, trato de me verem: ‘Deem a bola a mim, não te preocupas. Você perdeu várias bolas, basta, solte e dê a mim que eu me encarrego. Que os demais joguem tranquilos’. Prefiro errar cinco passes e que as pessoas fiquem bravas comigo do que peguem no pé de outro. Porque, a mim, isso não vai afetar”.