Coronavírus no Catar: falta de água, isolamento de setores infectados e aglomeração em dormitórios

Proibição de aglomerações no país não inclui obras e trabalhadores imigrantes continuam trabalhando nos canteiros de obras

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O mundo inteiro está combatendo a pandemia do novo coronavírus e o Catar não é diferente. Segundo levantamento de casos da COVID-19 do Bing, o Catar, no momento de fechamento da reportagem, tem 949 casos confirmados da doença, com três mortes. Vale lembrar que é um país de 11.437 km² (quase metade do tamanho de Sergipe, menor estado braileiro com 21.915 km²), com população estimada em 2,5 milhões de pessoas.

O governo do país definiu medidas de contenção do vírus no dia 21 de março e proibiu aglomerações de pessoas. Só que as restrições não chegaram aos trabalhadores de obras, inclusive da Copa do Mundo. Mais do que isso: os trabalhadores estão aglomerados em seus dormitórios, amontoados em más condições de higiene e alguns até sem água corrente.

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As medidas anunciadas pelo governo do Catar no dia 21 de março incluem manter um policiamento nas ruas para deter qualquer um que viole a quarentena; estabelecer pontos de controle em todo país; uma linha direta para receber denúncias e reclamações de violações. Assim como em outros países, só serviços essenciais foram mantidos, como farmácias e mercados que vendem alimentação. Os serviços de entrega, incluindo de restaurantes, continuam permitidos.

Serviços como shoppings, academias, cinemas e bancos estão fechados no Catar. Os parques também estão fechados e foi orientado à população que não fique mas praias. As restrições, porém, não parecem se aplicar a operários da construção civil, seja do setor público, seja do privado.

Milhares de operários seguem trabalhando normalmente, apesar da pandemia. “Como trabalhadores da construção civil irão manter distanciamento social? Ninguém se importa com a nossa segurança… Vocês acham que não queremos viver? Vocês acham que não queremos ver nossas famílias?”, dizia uma pessoa em resposta à publicação do governo nas redes sociais. Um outro também reclamou. “Nós não somos robôs. Nós não estamos imunes ao vírus”.

Segundo relato do jornal Guardian, há ônibus lotados de trabalhadores sendo enviados aos locais de obras, com jornadas de trabalho longas e sendo examinados bastante superficialmente. Em alguns locais, são medidas tomadas são verificar a temperatura dos trabalhadores. Em outros, nem isso. E, assim, o chamado distanciamento social, no Catar, é impossível de ser realizado pelos trabalhadores das grandes obras do país.

Os trabalhadores vivem em dormitórios lotados, com diversas pessoas por cômodo e condições sanitárias muito longe das ideais. Mais do que isso: alguns sequer possuem água corrente onde moram. Como, então, esses trabalhadores podem seguir as orientações de lavar muito bem as mãos e manter uma higiene que diminua o risco de contaminação. Sem falar dos ônibus de transporte dos locais de moradia aos locais de trabalho, lotados com 60 pessoas.

O Catar tem diversos programas de imigração focada no trabalho, majoritariamente da construção civil, mas não só isso. Os trabalhadores vêm principalmente do sudeste asiático, muitos deles pagando altas somas para intermediários (que chegam a 4 mil libras, segundo relatos). Muitas vezes, as promessas não são cumpridas e os salários e condições de trabalho são piores do que as promessas. Mas, sem opção, os trabalhadores ficam e seguem mandando dinheiro aos seus trabalhadores.

“É difícil para os empregados em qualquer contexto se recusarem a ir trabalhar, mas em sistema como o do Catar, onde os empregadores têm níveis extremos de controle sobre os trabalhadores, seria particularmente arriscado”, James Lynch, afirmou diretor da Fair/Square Projects e especialista em trabalhadores imigrantes no Golfo, em entrevista ao Guardian. “Nova imigração no Catar foi interrompida como resultado da pandemia, então o impacto de perdeu seu trabalho agora é ainda pior do que seria de qualquer forma”.

“Eu me preocupo em ser contaminado pelo vírus, mas eu preciso do dinheiro”, disse um trabalhador da construção civil que é do Quênia em entrevista ao Guardian. Ele trabalha em uma obra por 14 horas por dia, mas não é vinculada à Copa do Mundo. Segundo o queniano, ele usa luvas e uma máscara no trabalho, mas não é suficiente. “Só Deus é suficiente”.

Um outro trabalhador, este do Nepal, deu entrevista dizendo que no local onde trabalha, a construção de um estacionamento, cada operário tem sua pressão sanguínea medidas diariamente. “Eu uso uma máscara facial, que eu mesmo comprei. Aqueles que não têm uma máscara cobrem suas bocas com um pedaço de pano”, contou ao Guardian.

Prisão virtual de trabalhadores por causa da COVID-19

A área industrial de Doha tem setores inteiros destinados à moradia de trabalhadores imigrantes, com áreas inteiras com dormitórios onde eles dormem. No maior deles, uma preocupação é enorme: o coronavírus. Alguns dos setores destinados à moradia de trabalhadores estão isolados, com entrada e saída proibida e vigiada pela polícia. A razão é exatamente a COVID-19. O lugar se tornou uma prisão virtual para os trabalhadores.

Milhares de trabalhadores estão presos por setores terem se contaminado com a doença que se tornou uma pandemia. No dia 20 de março, a Anistia Internacional falou sobre o assunto e o risco que os trabalhadores alojados ali correm. “Enquanto o mundo luta para conter o espalhamento da pandemia da COVID-19, os trabalhadores imigrantes estão presos em acampamentos como esse no Catar estão em particular risco de exposição ao vírus”, afirmou Steve Cockburn, vice-diretor da entidade para questões globais.

“A situação está ficando pior a cada dia. Trabalhadores do acampamento 1 até o acampamento 32 estão em lockdown. Meus amigos que vivem lá estão em extremo pânico”, afirmou um trabalhador de Bangladesh, em entrevista ao Guardian.

“Nós não temos permissão para andar em grupos ou tomar chá na loja. Mas nós ainda podemos comprar comida e levar para casa. Eu estou preocupado com a minha família em casa. Não haverá ninguém para tomar conta deles se algo acontecer comigo”, contra um trabalhador do Nepal.

“Os campos de acomodação dos trabalhadores são notoriamente superlotados e falta água e saneamento adequados significa que trabalhadores estão inevitavelmente menos capazes de proteger a eles mesmos do vírus. A proximidade dos trabalhadores de um para outro também não permite qualquer tipo de distanciamento social”, continua o vice-diretor da Anistia Internacional.

“O governo do Catar precisa garantir que os direitos humanos continuam centrais em todas as tentativas de prevenção e contenção do vírus causador da COVID-19, e também todas as pessoas terem acesso à sistema de saúde, inclusive cuidados preventivos e tratamento para todos afetados, sem discriminação”, continua Cockburn.

“Como os trabalhadores podem ser proteger quando a maioria dos acampamentos não tem água corrente e não tem desinfetantes para as mãos? Como você faz distanciamento social onde milhares de homens estão vivendo lado a lado? Nenhuma das orientações usuais funcionam em um acampamento de trabalhadores”, afirmou Vani Saraswathi, editor associado do site migrant-rights.org, e que viveu no Catar por 17 anos.

Os trabalhadores estão se esforçando por conta própria para evitar o contágio. “Nós estamos fazendo tudo para nos mantermos a salvo. O acampamento estava um pouco sujo, então nós limpamos tudo, mudamos os lençóis e usamos spray para matar os germes”, disse um dos trabalhadores.

O governo do Catar confirmou que uma grande parte dos casos do país está na Área Industrial. “Todo esforço está sendo feito para prevenir o espalhamento da doença no Catar e proteger cada membro da população. Como resultado, algumas área do Catar foram isoladas para conter o vírus”, diz nota do departamento de comunicação do governo catari.

“Onde estão sendo feitas quarentenas, as autoridades relevantes estão trabalhando de forma próxima com os empregadores para garantir que o bem estar e as necessidades médicas dos residentes sejam atendidas. Comida, água, máscaras e desinfetantes para as mãos estão sendo regularmente distribuídos. Em coordenação com as empresas, o ministério está garantindo que as necessidades diárias dos trabalhadores sejam atendidas e os salários sejam pagos em dia”, afirma ainda a nota.

Quem não está infectado continua trabalhando normalmente nas obras do país. Somente as áreas isoladas estão impedidas de trabalhar.

Sistema análogo à escravidão deveria ter acabado em janeiro

Os trabalhadores imigrantes do Catar, e em boa parte dos países do Golfo Pérsico, não podem trocar de emprego sem a permissão do seu atual empregador. É o chamado sistema kafala, que foi criticado por entidades de direitos humanos. O sistema dá todo poder ao empregador e é visto como “uma forma moderna de escravidão”. Não foram poucas as denúncias contra o sistema de trabalho do Catar, onde a força de trabalho é majoritariamente imigrante, especialmente em setores como a construção civil.

Em fevereiro de 2019, a Anistia Internacional cobrou publicamente o governo do Catar para que fizesse melhorias no seu sistema trabalhista. As obras da Copa levaram os olhos do mundo para o país, que continuava descumprindo orientações internacionais para melhoria das condições precárias dos operários.

Depois de muita pressão, em outubro de 2019 o Catar anunciou que daria um fim ao kafala até janeiro de 2020. A promessa não foi cumprida. O sistema continua funcionando no país. A única mudança aprovada foi uma extensão de uma alteração anterior, que permite que que os trabalhadores deixem o país sem autorização do empregador. A permissão foi estendida aos trabalhadores domésticos, que não estavam inclusos na primeira leva.

Os grupos de direitos humanos fazem apelos que o país implemente as reformas imediatamente. “Os trabalhadores imigrantes que estão sobrecarregados de trabalho, alojados em más condições, sem remuneração, ou mal remunerados por meses a fio. Todos os dias que passam presos são passados com medo, ansiedade e instabilidade”, afirmou Hiba Zayadin, pesquisador de direitos humanos da área do Golfo para a Human Rights Watch.

“O Catar tem prometido abolir a kafala desde 2014 e na verdade reivindicaram já terem feito isso em 2016”, afirmou James Lynch. “O Catar deveria ter tratado desse problema anos atrás, antes da maioria dos estádios da Copa do Mundo e infraestrutura fossem construídas por trabalhadores vinculados a esse sistema explorador”.

Houtan Homayounpour, chefe da Organização Mundial do Trabalho no Catar, afirmou que as reformas estavam levando mais tempo que o esperado por causa da sua complexidade, mas que a adoção das mudanças é uma questão de tempo. O departamento de comunicação do governo do Catar justificou a demora pelo seu rigor no processo de revisão. “O Catar fez mais que qualquer outro país no mundo em desenvolvimento para melhorar os padrões trabalhistas e enfrentar a exploração de trabalhadores”, diz o comunicado enviado ao Guardian.

A Fifa afirmou que a Copa do Mundo atribuída ao Catar já teve um papel significativo em melhorar os direitos trabalhistas no Catar, embora “É necessário um progresso adicional para a plena implementação dos compromissos de uma reforma trabalhista abrangente”, diz a entidade que comanda o futebol mundial.

Mortes de trabalhadores da Copa 2022 chega a 34 no Catar

O Supremo Comitê do Catar, organizador da Copa do Mundo 2022, confirmou em março que morreram 34 operários ligados à construção do torneio, que começou a seis anos. Segundo a organização, 31 dessas mortes, incluindo nove que aconteceram em 2019, foram classificadas com “não relacionadas com trabalho”. Essa informação, porém, é contestada.

Esse tipo de morte é usada para dizer que os trabalhadores não morreram em serviço, normalmente por ataques cardíacos ou falhas respiratórias. A descrição é importante porque muitos seguros de vida dos trabalhadores estão ligados ao trabalho e, portanto, uma morte não relacionada ao trabalho não dá direito à sua família receber por isso.

Os dados são todos de 2019, de um relatório divulgado pela organização da Copa 2022. Não há dados ainda atualizados com os números de 2020. O documento mostra que das nove mortes que aconteceram em 2019, quatro pessoas morreram de “causas naturais”, ou seja, mortes não relacionadas a trabalho. Outras três pessoas morreram em um acidente em um ônibus da empresa contratada. Segundo o relatório, não houve nenhuma morte de trabalhadores relacionada a trabalho no último ano.

Os organizadores informam que cada morte de trabalhadores é investigada para identificar fatores que contribuíram e estabelecer medidas preventivas. “Qualquer perda de vida no nosso programa é profundamente triste”, afirmou Hassan Al Thawadi, o chefe do comitê supremo, no relatório divulgado.

Em outubro de 2019, o Guardian denunciou que o Catar raramente faz exames depois da morte de trabalhadores imigrantes. Por isso, as causas da morte não são totalmente precisas. Portanto, é difícil atribuir a morte a uma causa não relacionada a trabalho e vice-versa. Ainda segundo o Guardian, é o forte calor do país provavelmente é um fator significativo para muitas mortes de trabalhadores.

Segundo o Supremo Comitê, que organiza a Copa, as empresas contratadas estão sendo incentivadas a terem seguros para os trabalhadores que também cubram mortes não relacionadas a trabalho. Por enquanto, o que vemos são trabalhadores desprotegidos e com um sistema que permite exploração e, não por acaso, é considerado análogo à escravidão.