A pandemia de coronavírus afetará a maioria das indústrias e, dentro delas, quem for mais vulnerável tende a sofrer mais. Um relatório da FIFPro, sindicato mundial de jogadores e jogadoras, afirma que o futebol feminino enfrenta uma “ameaça existencial” a menos que sérias considerações sejam feitas para protegê-lo.

O relatório publicado nesta quinta-feira é um suplemento a um documento mais amplo do sindicato que seria publicado em fevereiro e acabou adiado para abril por causa da pandemia. Ele identifica o crescimento do futebol feminino, mas também alerta para a necessidade de melhorar os padrões trabalhistas globais e proteger os direitos e o bem-estar das jogadoras.

“Por ter ligas profissionais menos estabelecidas, menores salários, um escopo menor de oportunidades, acordos de patrocínio irregulares e menos investimento corporativo, a fragilidade do ecossistema do futebol feminino é exposta pela situação atual”, afirma o relatório.

“A ausência de contratos escritos, a duração de curto prazo dos contratos empregatícios, a ausência de seguro saúde e cobertura médica e ausência de proteções e direitos trabalhistas básicos deixam muitas jogadoras – muitas das quais já comem pelas beiradas – em um risco maior de perder seus sustentos”, completa.

O suplemento faz alusão a um relatório de 2017 que identificou que a média do contrato de jogadoras é de 12 meses e que 47% delas sequer tem um acordo assinado. Mais de 60% leva para casa menos de US$ 600 por mês e apenas uma pequena fração ganha mais de US$ 4.000 mensais. Atrasos de salário são comuns para 37% das jogadoras.

Que o futebol feminino tenha se desenvolvido desde então, com mais países adotando profissionalismo, não era um grande ponto de partida. “À medida em que ligas e competições forem canceladas, muitas jogadoras não serão protegidas de perdas de salário ou apoiadas em disputas empregatícias”, explicou.

O mais atual relatório que deve ser publicado em abril revelou que moradia (51%), seguro saúde (44%) e comida (37%) ainda são benefícios significativos da compensação de jogadoras de futebol e teme que os clubes se abstenham da responsabilidade de remunerá-las com esses bens essenciais. “Precisamos garantir que as jogadoras não fiquem sem eles como resultado desta crise”, disse.

Alguns aspectos da condução da crise têm piorado a saúde mental das jogadoras. Segundo o relatório, há uma inconsistência de informação. “Algumas recebem atualizações frequentes, algumas não recebem quase nenhuma. Deixar pessoas chave isoladas em períodos como este não é apenas decepcionante, mas também muito míope para o desenvolvimento de uma indústria sustentável”, disse.

Alerta que muitas jogadoras ficaram isoladas em outros países, encerando a pior crise sanitária da era moderna separadas de amigos, familiares e sistemas de apoio. “Estão tentando equilibrar obrigações com os empregadores com o desejo humano de estar próximas daqueles que elas mais amam. Transparência, honestidade e compaixão são as maiores necessidades”, disse.

A FIFPRo fez uma série de recomendações para mitigar os efeitos da crise:

  • Priorizar o cuidado, saúde, segurança e bem estar das jogadoras em todos os processos de tomadas de decisão.
  • Aplicar medidas financeiras especiais para jogadoras de futebol, clubes e competições, quando for necessário.
  • Garantir que os investimentos pré-crise não sejam retirados do futebol feminino para que ele possa sustentar o momento positivo e construí-lo ainda mais.
  • Exigir que nenhuma pessoa, com base em seu gênero, seja excluída de qualquer iniciativa financeira, programa de remuneração ou recebimento de assistência.
  • Desenvolver sistemas de solidariedade e apoio na indústria do futebol para ajudar a garantir que o jogo feminino não sofra danos extremos.

“Temos que proteger as jogadoras como pessoas e trabalhadoras e evitar desemprego em massa e recessão. A indústria do futebol feminino exigirá inovação e intervenção dos setores público e privado, dos políticos e dos governos, das empresas de transmissão e dos patrocinadores. Precisamos ter uma abordagem aberta, colaborativa, e que busque e valorize a visão das jogadoras. Nosso objetivo final precisa ser não apenas limitar os danos à nossa indústria, mas construir uma fundação mais sólida”, encerrou Amanda Vanervort, chefe de futebol feminino da FIFPro.