Parte deste texto foi publicada originalmente em fevereiro de 2014

Francisco Varallo, durante os últimos anos de sua vida, pôde ser valorizado como uma verdadeira relíquia do futebol. O atacante argentino se tornou o último sobrevivente dentre os jogadores que disputaram a Copa de 1930. Também presenciou Martín Palermo superar seu recorde de gols com a camisa do Boca Juniors na era profissional. E até resistiu como uma prova viva de que, sim, o Gimnasia de La Plata tinha um título do Campeonato Argentino – em 1929, quando o craque dava seus primeiros passos na carreira. Varallo viveu o bastante para contar suas histórias e receber os aplausos, até falecer em 2010, aos 100 anos. Nesta quarta, vale relembrar um pouco de sua grandeza, no dia em que completaria 110 anos.

Se a data costuma ser aclamada como um “dia de craques”, muito por conta dos nascimentos de Cristiano Ronaldo e Neymar, Varallo pode ser considerado o primeiro entre as lendas boleiras que vieram ao mundo em 5 de fevereiro. Terceiro filho de uma família de La Plata, “Pancho” começou a carreira em pequenos clubes locais, antes de ser cobiçado pelos grandes. Aos 18 anos, fez um teste no Estudiantes e impressionou ao anotar 12 gols em três partidas. Os pincharratas queriam levá-lo, óbvio, mas o negócio terminou barrado pelos dirigentes do 12 de Octobre, sua modesta equipe – na qual também atuavam seu pai e quatro tios. O motivo? Os cartolas eram torcedores do Gimnasia, e assim o prodígio assinou com o Lobo pouco depois.

A anedota mudaria a história do Gimnasia, já que Varallo se tornou uma das principais figuras da equipe a partir de 1928. Pancho não demorou a fazer sucesso no segundo quadro e seria alçado cedo ao elenco principal. Por mais que tenha começado como defensor e passado pelo meio-campo, sua potência garantiria um lugar como atacante. E o novato teria sua parte na conquista do Campeonato Argentino de 1929, o único do clube ainda hoje. A taça se consumou no início de 1930, quando o atacante acabara de completar seus 20 anos de idade. Varallo anotou oito gols em 17 partidas, presente inclusive no jogo decisivo contra o Boca Juniors.

Meses depois, a repercussão de Varallo no Gimnasia o levou à Copa do Mundo. O atacante foi titular em quatro dos cinco jogos da Argentina no Mundial do Uruguai. Não teve a importância de Guillermo Stábile ou Luis Monti, mas manteve seu lugar cativo com o técnico Francisco Olazar. O jovem pôde até mesmo assinalar seu gol, na vitória por 6 a 3 sobre o México na fase de grupos. A única ausência aconteceu na semifinal, contra os Estados Unidos, consequência de uma lesão sofrida durante a partida anterior. Enquanto Pancho comemorava um dos gols no triunfo sobre o Chile, um jogador adversário o acertou covardemente no joelho.

Apesar das fortes dores, Varallo forçou sua volta ao time para a final. Sentiu na pele a derrota por 4 a 2 para o Uruguai, diante de 93 mil olhares no Centenario – que, em sua opinião, intimidaram seus companheiros e tornaram o título impossível. Mesmo sem muita mobilidade em campo, o atacante lamentou especialmente a bola que acertou no travessão, quando o placar ainda era de 2 a 1 a favor da Albiceleste.

De volta à Argentina após a Copa, Varallo foi incorporado pelo Vélez. Participou de uma turnê por diversos países das Américas, na qual o time acumulou 20 vitórias e apenas uma derrota em 25 duelos. Seu destino, contudo, já estava selado. Com o início do profissionalismo no futebol argentino em 1931, o atacante se tornou uma vedete no mercado. Acabou contratado pelo Boca Juniors por 8 mil pesos, o suficiente para construir a casa onde viveu durante boa parte da vida. Não queria se juntar aos xeneizes, por gratidão ao Gimnasia, que o livrou do serviço militar. Além do mais, recusou propostas bem mais vantajosas de Genoa e Napoli, depois que sua mãe começou a chorar ante a possibilidade de ver o filho se mudando à Itália. Ao final, foi com a camisa azul y oro que Pancho fez ainda mais história.

Os anos 1930 marcaram uma época de ouro ao Campeonato Argentino. Grandes artilheiros despontaram às margens do Rio da Prata naquele período abastado pelo dinheiro do profissionalismo. No próprio Boca Juniors, Varallo teria a companhia de outro goleador famoso: Roberto Cherro, três anos mais velho. Os dois atuaram juntos na Copa do Mundo e o próprio Cherro contribuiu para que o negócio com os xeneizes saísse. Além do mais, o amigo também sugeriu que Varallo trocasse de posição, atuando mais perto do gol como centroavante. Autor de 110 gols em 115 partidas pelo Boca durante a era amadora, Cherro assumiu um pouco mais seu lado como garçom para servir Pancho. Não à toa, grato, Varallo comparava o parceiro como um Maradona de sua época. Ele, por sua vez, era um goleador explosivo ao melhor estilo Batistuta.

O chute potente e a baixa estatura de Varallo se combinavam para render o apelido de “Canhãozinho”. E as redes costumavam balançar bastante com os petardos do camisa 9. Foram 181 gols divididos em apenas nove edições do Campeonato Argentino pelo Boca – sendo que, em uma delas, o matador só entrou em campo uma vez. A média incrível teve seu ápice em 1933, quando Pancho terminou como máximo goleador da liga nacional, somando 34 tentos em 34 aparições. Não era fácil competir com Arsenio Erico, Bernabé Ferreyra e outras feras da época. Naquele mesmo ano, também marcou o gol da revanche argentina no Centenario: 1 a 0 sobre o Uruguai em amistoso, no primeiro triunfo da Albiceleste dentro do estádio.

Varallo conquistou três títulos argentinos com o Boca – o primeiro deles logo em 1931, durante campanha marcada por seus tentos nos clássicos contra o River Plate. Voltaria a se consagrar com o bicampeonato entre 1934 e 1935, mas o número de troféus é até baixo para sua fúria dentro da área. O Canhãozinho tinha tanto moral que tornou-se amigo de Carlos Gardel. O problema é que seu auge durou relativamente pouco. Atormentado pelas lesões no joelho, viu sua carreira se encerrar ainda em 1940, quando tinha 30 anos. Um desperdício para uma trajetória notável, mas que poderia ter sido maior.

Ao menos, antes de se aposentar, ainda deu tempo para Varallo conquistar um título com a seleção argentina: o Campeonato Sul-Americano de 1937. O centroavante guardou três gols durante na campanha da Albiceleste rumo à taça, dois contra o Chile e um contra o Uruguai, além de protagonizar uma pancadaria generalizada ante o Brasil. Era titular absoluto numa linha de frente abundante – onde também apareciam Carlos Peucelle, Bernabé Ferreyra, Alejandro Scopelli, Roberto Cherro, Enrique García, Alberto Zozaya, Vicente de la Mata e Enrique Guaita. Ficava até difícil montar o quinteto titular, entre tantas lendas.

Após a aposentadoria, Varallo treinou a base do Boca Juniors e teve uma breve passagem pelo comando do Gimnasia, mas não se viu apto para a função. Preferiu buscar uma vida fora do futebol e, com suas economias, abriu uma loteria em La Plata. Ainda assim, a fama rendia frequentes tributos ao veterano.

“Qual era meu estilo? Pegava a bola, driblava um ou dois e chutava de qualquer lado. Se entrava em campo e não metia um gol, não era Varallo. Fazia um gol e a torcida rugia”, declarou Varallo certa vez, em entrevista ao Olé. “O melhor que me aconteceu foi jogar no Boca e ser campeão. Para triunfar no Boca, é preciso ter sangue. Se não tem, tchau, está acabado”. Sangue nunca lhe faltou, nem estrela para brilhar. Por mais de seis décadas, Varallo permaneceu como o maior artilheiro do Boca Juniors na era profissional do futebol argentino. Compartilhava o recorde ao lado do amigo Roberto Cherro, que o superava se contassem também os tentos do período de amadorismo. Em 2008, aos 98 anos, o Canhãozinho pôde parabenizar Martín Palermo, que o ultrapassou. As marcas quebradas pelo centroavante acabaram em boas mãos.

Varallo faleceu dois anos depois, em agosto de 2010, aos 100 anos de idade. A longevidade de sua vida, de certa forma, permitiu que mais gente conhecesse as façanhas de sua curta carreira. Elas, afinal, não foram poucas. E o lugar de honra eternizado ao Canhãozinho permanece, à frente de tantos craques nascidos em 5 de fevereiro, de tantos artilheiros do futebol argentino.

Vale conferir ainda o artigo sobre Varallo publicado por Caio Brandão no Futebol Portenho, em 2015.