Seis gols, cinco deles apenas no primeiro tempo, quatro deles originados em erros bobos dentro da área. O moral de qualquer time estaria abalado. Mas não em uma Copa do Mundo. Não neste universo paralelo que pode subverter as lógicas e negar a matemática, dizendo que um é maior que seis. O placar final ainda respeita a aritmética, natural. O fervor que emana de uma nação inteira, porém, está distante do calculismo. Ele não se explica, apenas se sente. E era por ele que o Panamá jogou na meia hora final contra a Inglaterra: não por uma ciência exata, e sim pelo lado humano. Por um sonho que se cumpriu aos 33 do segundo tempo, num lance de puro esforço, de um dos símbolos da geração que tanto lutou a levar o país pela primeira vez a um Mundial. Eis o gol. E então, explodam-se os números. Exploda a alegria de um povo. A festa ignorava qualquer tipo de vergonha. Prevalecia o orgulho de uma gente contente por vivenciar a história. Por ter o gosto de experimentar um átimo de celebração em plena Copa do Mundo, uma honra que fica para ser recontada, geração após geração.

A estreia do Panamá no Mundial da Rússia esteve marcada pela emoção. O hino nacional entoado por cada um dos jogadores desde as entranhas, o mais íntimo ser exposto entre lágrimas e palavras gritadas. O choro contido do capitão Román Torres foi compartilhado nas arquibancadas e também por cada um dos quatro milhões de compatriotas. Pois quando a Bélgica decretou a vitória por 3 a 0, a desolação dos jogadores dentro de campo era notável. Não por acharem que poderiam vencer, mas por saberem que deram o máximo de si, na esperança de mais. O esgotamento era físico e mental, pelo maior momento da história da seleção. Abatimento superado em questão de minutos, a partir do momento em que os jogadores voltaram a se reunir no centro do campo, abraçados e ajoelhados, em união que renovava às forças. Motivação presente também nas palavras do técnico Hernán Darío Gómez, reconhecendo que a diferença entre belgas e panamenhos, na realidade, era até de mais do que três gols.

A tensão se esvaiu para o segundo jogo do Panamá na Copa do Mundo. Já não havia mais o peso da estreia em Mundiais. Entretanto, a Maré Vermelha entrou menos ligada na partida contra a Inglaterra. Não tensa, mas nervosa diante das próprias fragilidades, refém dos impulsos que permitiram a goleada dos ingleses. O placar elástico, no fim das contas, era mais resultado das debilidades dos centro-americanos do que da voracidade dos europeus. Mas quando o sexto gol saiu no início do segundo tempo, os panamenhos não se esconderam. Não tentaram ficar só na defesa, não abusaram da violência, não desistiram do jogo. Como tinham feito em outros momentos do confronto, buscaram o sonho. Desta vez, com muito mais contundência. Com o desejo de fazer acontecer. De alcançar o orgulho e, novamente, compartilhá-lo com quatro milhões.

Se a braçadeira ficou com Román Torres na estreia, o capitão do Panamá ao longo dos últimos anos é Felipe Baloy. O jogador de 37 anos perdeu sua vaga entre os titulares, mas permanece como uma liderança enorme dentro do elenco. Não à toa, quando saiu do banco durante o segundo tempo contra a Inglaterra, em sua estreia no Mundial, recebeu a faixa do companheiro e a botou no braço. É um zagueiro lembrado no Brasil por sua falta de trato com a bola, em passagens frustrantes por Grêmio e Atlético Paranaense. Depois disso, até construiu uma carreira respeitável no futebol mexicano, especialmente com as camisas de Monterrey e Santos Laguna. Aos panamenhos, no entanto, Baloy é uma figura maior. É o homem que enverga a camisa vermelha há 17 anos, desde 2001. É o ídolo que tantas e tantas vezes se empenhou para elevar o nível da equipe nacional. E, ainda mais agora, é a lenda que proporcionou a maior euforia já compartilhada por todo o país, em catarse coletiva que dependeu de apenas um instante.

Baloy quis aquele gol mais do que qualquer outro. Quando o cruzamento de Ricardo Ávila seguiu em direção à área, o veterano, de corpo calejado por tantas batalhas, parecia mais leve. Correu mais do que qualquer outro. Antecipou-se a todos os outros. Saltou e deslizou pela grama, esticando-se ao máximo para acertar a bola. Certeira, redentora. E quando ela tocou nas redes, o sentimento rompeu o peito de Baloy, dos demais jogadores panamenhos, da torcida nas arquibancadas, da multidão em frente à televisão. Até mesmo aquele colosso de defensor, com toda a sua tarimba de quase duas décadas de carreira, não sabia como se comportar. A expressão era de choro, ao apontar à família nas arquibancadas. Ardendo por dentro, o júbilo.

O placar frio em Nizhny Novgorod poderia mostrar apenas o tento de honra, após seis ingleses. Ninguém ligou para isso. A sensação era de que a Maré Vermelha anotou o gol da vitória em plena final. De fato, uma vitória a uma seleção que esperou décadas para experimentar tal glória e que uniu gerações em torno das expectativas. Satisfeita por, em fim, soltar o grito incontrolável. Audível a cada canto do planeta.

O prazer não se encerrou naquele instante. O jogo continuou rolando por mais 16 minutos, mas ninguém quis saber disso. Os olhos e os ouvidos iam para as arquibancadas. Iam à cantoria, às danças, a felicidade que não se continha e se expressava em cada rosto. Seguiu além do apito final, além das fileiras de cadeiras, além dos arredores do estádio, além das ruas russas. Rumou a milhares de quilômetros dali, e não acabará tão cedo diante do vulcão de euforia despertado no Panamá. Baloy, o herói, o responsável por desatar tudo aquilo, era engolido pela massa. Subiu às arquibancadas para abraçar a sua família, mas era todo um país que queria abraçá-lo. Agradecê-lo por mostrar ao mundo quem é sua gente e como ela se sente feliz.

Este é o tipo de momento que transborda, que serve de pretexto. Que escancara o contexto: o significado de uma Copa do Mundo, a identidade de um país, a representatividade do futebol. O Panamá certamente nem se lembra mais dos seis. O um perdurará por muito mais tempo, cravado nos sorrisos dos panamenhos.


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